--Pobre rapaz!--exclamava o bom do velho, limpando os olhos com as costas da mão.
E voltando-se para sua filha, começou de beijal-a ardentemente.
Doce esperança do céu lhe illuminára a fronte, encanecida na virtude e no trabalho!
[XVI]
Transformações
Eu não sei qual seja melhor: se o ar do campo, se o ar da cidade.
É certo que muitos preferem a provincia á capital. Tambem é certo que os doentes, por via de regra, se não dão bem nos grandes centros: Entretanto a cidade, se bem que despida da ingenuidade nativa da aldeia, tem para mim o supremo encanto da actividade e do trabalho. O silencio prolongado degenera as mais das vezes n'um aborrecimento deploravel, quando não é elle o gerador de graves e dolorosas molestias.
A cidade tem as suas ruas illuminadas. Os restaurantes attrahem-nos docemente. O ruido dos cafés desperta em nós o desejo da mutua confraternidade. Se por acaso atravessamos uma rua bastante concorrida, paramos instinctivamente; olhamos para as vitrines das lojas, admiramos um objecto mais do nosso agrado, e com isso nos deleitamos.
Sobretudo apraz-nos a cidade no inverno, no tempo em que as arvores, despidas das esplendidas toilettes do verão, se nos mostram tristes e sombrias como a velhice. Então é-nos o calor mui doce e suave lenitivo. Á luz pallida do gaz distendem-se-nos os musculos enregelados, e enchem-se-nos de vida os membros confrangidos.
O café é uma invenção puramente da cidade. Rendez-vous de todas as classes sociaes, é elle para a humanidade o mesmo que a familia é para o homem. Á noite, ao cahir da tarde, quando as tristesas--aquellas vagas e mysteriosas tristesas do crepusculo--começam de entrar comnosco, nós, incitados por um desejo ardente de meigas e salutares expansões, procuramos o café naturalmente. Para alli nos dirigimos, como se elle nos fôra um templo sagrado; lá temos a nossa communhão de ideias e interesses--uma profunda e natural communhão, onde os amigos se encontram e os estranhos se abraçam.