E o theatro? e os circos? e os passeios? e a musica?
Imagine-se, pois, o leitor no theatro de D. Maria. A récita é dada em beneficio de um asylo. A plateia está replecta de espectadores, e nos camarotes, como que resplandecem, em glorioso desafio, as mais encantadoras formosuras de Lisboa: Como se disse no segundo capitulo d'este romance, o drama escolhido para esta noite era a Vida de um rapaz pobre. Apparecêra a Viscondessa, n'uma das frisas da frente, ostentando, um delicado decote, um cóllo d'alabrasto, ao qual estava cingido um valioso collar de pérolas. Proxima d'ella, e na frisa immediata, uma condessa rica, enlêvo dos negociantes accreditados, mostrava uns braços gordos, a cujos pulsos, por egual gordos e sadios, se enroscavam umas pulseiras de diamantes, compradas na mais afamada ourivesaria de Paris. Mais além uma menina loura, ha pouco sahida do collegio, tomava poses incontestavelmente estudadas ao espelho, olhando de soslaio para um moço ainda imberbe, soi-disant litterato de botequim e claqueur improvisado.
E assim succediam os factos, as pessoas e as cousas. Nas torrinhas estavam, segundo o costume, alguns rapazes, ao parecer entendedores--uns bons rapazes despretenciosos, á mistura com alguns operarios zelosos e trabalhadores.
No fim do 3.o acto, quando Alfredo entrava na frisa da Viscondessa, um ignorado personagem se levantou nas torrinhas, replecto de amor e de febre. Desceu as escadas com desusada precipitação, e entrou no restaurante. Pediu aguardente de canna e bebeu, bebeu sempre... Pediu uma folha de papel de carta, e com um lapis que trazia no bolso do casaco, escreveu um bilhete.
Embuçado e trémulo, esperou que o espectaculo terminasse. Quando, por entre a multidão que sahia do theatro, lobrigou a Viscondessa, sem atinar com a intenção dos seus actos, allucinado, doido, perdido--acercou-se della, entregou-lhe o bilhete, e fugiu.
Pobre de ti, meu Julio, espirito leviano e generoso, e agora já transformado em José Xavier, em virtude das leis do teu paiz.
O ar da cidade, para ti renovado, foi o abysmo que se te abriu aos pés.
Sem mesmo querer, olvidavas a aldeia, que te fôra consolação momentanea nas agruras da vida; e n'esse esquecimento involuntario ia-se-te a alma partida com a doce imagem da mulher honrada que por ti velava dia e noite.
Pobre de ti, meu poeta! e pobre d'aquelles, que, como tu, soffrem as mesmas e tristes inconstancias, a cujo horrivel imperio não ha nunca resistir n'este mundo de phantasmas e de vadios.