No corredor presentira-se o ranger de um leito. O cortinado de cambraia foi delicadamente afastado por uma mão de marfim, pequena e esculptural.

--Virginia, Virginia--gritou uma voz sonora, de timbre metalico e adocicado.

A porta do quarto, abrindo-se, deixou entre vêr o rosto de uma formosa creança, loura como um cherubim e tentadora como Eva.

--V. ex.a chamou, minha senhora?

--Sim, chamei.--Traze-me o meu roupão branco e vem ajudar-me a vestir.

E a viscondessa, bocejando infantilmente tornou a cahir no travesseiro, doida de somno e ébria de amor.

Adormeceu de novo.

Uma hora volvida veio Virginia encontral-a sentada n'uma poltrona, defronte do espelho.

Fingia que lia. Do regaço pendia-lhe um romance francez. Com a mão direita desviava as tranças fartas, que, por vezes caprichavam em cahir-lhe sobre o peito. O braço esquerdo, abraçando o espaldar da cadeira, servia-lhe de encosto.

De subito ergueu-se como uma estatua. Procurou um pente e largou-o com desfastio. Olhou para o relogio, tocou a campainha, e tornou a sentar-se.