--Estou aqui, minha senhora. Deseja alguma cousa?
--Ah! Estavas aqui. Ora vejam que cabeça a minha que nem sequer havia dado por tal.--Manda-me arranjar o almoço, anda.
--Por mais que me digam a senhora não anda bôa--murmurava a ladina da creada, correndo espevitadamente.
A viscondessa, sempre inquieta, ergueu-se novamente. Percorreu o corredor e entrou na sala de jantar. Dirigiu se a um periquito, que ali tinha, tirou-o da gaiola e começou de afagal-o meigamente.
--Coitadinho do meu bijou--exclamava ella com doçura.
Foi-se depois ao canario, trouxe-o para a mesa, e destribuindo com elle a comida, que mal provava, introduziu-o no seio.
Um cão pequeno, felpudo, ensaboado e luzente, como verniz, fazia pendant com os dois personagens, acima descriptos. Joli lhe chamava a viscondessa. Nunca sahia da sala de jantar. Era o seu theatro d'elle. Ali aprendêra a ser guloso e concupiscente. Quando a senhora chegava, elle, de um pulo, saltando lhe ao regaço, para logo principiava de lamber-lhe as faces e os cabellos. A dona da casa aceitára, sem repugnancia, este tributo quotidiano.
Alêm do cão havia um gato maltez, elastico, como uma serpente e indolente como um chin.
Entre o cão e o gato existia uma mediadora: era a viscondessa. Por fim os dois rivaes fizeram tréguas. Chegaram até a comer no mesmo prato, brincando como dois amigos.
Nos seus dias de melancholia, a viscondessa, orphã de pae e mãe, sem parentes, só no mundo e senhora de ricos haveres, reunindo em redor de si tão variada e interessante familia, sentia-se mais feliz, e porventura mais esquecida do que nunca.