Mas não; eu vivo e penso n'esta Vida;
No Mal victorioso e na Bondade
Quasi sempre ultrajada e perseguida!
Vejo a Inocencia ás mãos da Crueldade
Morta, desbaratada, e vejo a aurora
Alumiando esta negra, ferrea edade!
Vejo um pequeno Anjinho que enamora
Meu comovido espírito encantado…
E divinos sorrisos ele chora,
E só de vê-lo, eu sinto-me sagrado!
E fica todo em flôr meu coração,
Paraiso astral, Jardim de Deus, Sol nado!
E, súbito, lá vae: é sonho vão!
E sobre mim, afflicta, a noite desce:
Maré cheia de treva e solidão.
E o sangue em minhas veias arrefece…
Á altura do meu rôsto, vejo o Mêdo
Que, nos êrmos crepusculos, me empece!
E como tudo é sombra, dôr, segrêdo!
De longe, aspectos de alma que nos falam;
De perto, brutas formas de rochedo!
Quantas intimas dôres nos abalam!
Porque não ha no mundo quem as ouça,
As dolorosas vozes que se calam!
Ó gente enamorada! Ó gente môça!
Que, de repente, ao tumulo baixaes,
Qual o vosso pecado? a culpa vossa?
Ó Procissão das lagrimas, dos ais,
Deante de mim, passando eternamente
A caminho das sombras sepulcraes!