Dôr sem fim, sem principio, dôr presente,
Martirisando as almas, e sobre elas
O sorriso de Deus indiferente!

O Deus que põe na face das estrelas
Nodoas de sombra e enfeita com as flôres
Da morte, as brancas Noivas e as Donzelas;

O Deus acêso em tragicos furôres,
Que mata as creancinhas sem peccado
E parece viver das nossas dôres,

E fez do nosso chôro o mar salgado,
E fez da nossa angustia um êrmo outeiro,
E sobre ele Jesus crucificado;

O Deus que me tornou prisioneiro,
E que transforma tudo quanto eu amo
Em desfeita visão de nevoeiro;

Ah, esse Deus que, quando por Deus chamo,
É profundo silencio, indiferença,
A propria sombra morta que eu derramo…

Remoto Deus—Phantasma, sem presença,
Que em materia de dôr edificou
As arvores, o Sol, a noite imensa,

E em doloroso barro alevantou
Minha figura tragica e reprêsa,
Num impotente, empedernido vôo;

É o Deus do Abysmo, o Pae da Naturêsa,
Nocturno Deus da vida material,
Divindade da fúnebre Tristêsa;

O Deus creador das Trevas, contra o qual
Sósinho, se ergue em mim, mas sem temor,
O meu divino Sêr espiritual;