E, súbito, a Donzela misteriosa,
Do seu profundo sonho despertando,
Beijou na face o Doido; e assim lhe disse:

"É o meu ultimo beijo; não o esqueças.
Lembra-te d'ele sempre até chegar
A hora da tua morte… o meu instante."

"—Que dizes tu? Vaes-me deixar, acaso?"

E o Doido estremeceu, sentiu pousar-lhe
Na fronte sonhadora, aquela neve
Que desgasta a belêsa, o sonho, a graça,
Roendo a flôr da carne, anoitecendo
A harmoniosa luz das linhas puras,
Desencantando as formas, redusindo-as
Á sêca, esteril cinza da Verdade.

E a Morte, ao afastar-se, respondeu:

"Que hei de fazer? Cumprir o meu fadario.
Antes de haver, no mundo, o teu delirio,
Eu existia já, tu compreendes?"

"—Tu és agora, o amôr, a vida, emfim!"

"Dizes agora, mas eu digo outrora.
Volto ao que fui, ouviste? Eis o Destino."

E o Doido n'um espanto: "D'onde vinhas
Quando chegaste ao pé de mim? Responde!
E agora aonde vaes tu? Qual o teu rumo?"

A Morte, já a cavalo, segurando
Na mão, a velha Fouce relusente,
Olhae! a propria aurora reflectindo…
Reintegrada, de novo, no seu funebre
Esqueleto que um manto de crepusculo
Em mortuarias dobras envolvia,
Na sua voz de Espectro, murmurou: