"Sou a tua canção. Que o meu passado
Não me torne a empecer e a atormentar.

"Vivas seáras sem fim de creaturas
Ceifei, cantando, só para entreter
Meu doloroso esfôrço e meu suor.
Mas escondi a Fouce: que a ferrugem,
Que o tempo lhe embrandeça o fino gume,
Sequioso de lagrimas e sangue.

"Ceifei; mas quero agora semear.
E já não murcha as flôres o meu beijo,
Nem põe nodoas nos olhos das estrelas.

"Meu beijo agora é o beijo nupcial:
Gota de orvalho comungando o Sol,
A lagrima que tem o Sol no peito.

"Meu beijo é o beijo ideal da Renascença,
Partindo, como um raio, os frios marmores
Dos tumulos de Pan e de Jesus!"

E a Morte e o Doido, extaticos, falaram
Durante muito tempo: Ele, embebido
Em seu profundo e vago pensamento
Que de infinito amôr lhe mascarava
A cousa contemplada, de maneira
Que tudo o que ele via sobre a terra
Tinha o perfil da sua comoção,
Tinha a propria figura da sua alma.

Era o signal divino da Loucura…

Ela, a Donzela Morte, embriagada
Por um calor de vida florescente,
Engrinaldando em rosas e desejos
Seus resequidos ossos insensiveis.

Falaram muito tempo… E bem se via
Que a voz humana os echos estremunha,
Que a voz da morte os echos adormece…

A Lua anoitecêra… No horisonte
Alvorava através de brancas nuvens
Frio sorriso de oiro e de tristêsa.
Dir-se-ia que a paisagem se firmava
Em seus aspectos nitidos, erguendo,
No ar, as formas quasi definidas.