"Quando me deito á sombra d'um rochedo
Ou á sombra mais leve d'uma nuvem,
Eis que ela pousa logo em meus ouvidos
Harmoniosa da canção que foi…
"Sim: na imagem extatica das Cousas
Repercute-se ainda vagamente
O cantico gerado em meu espirito…
"Vejo Saudade e Eurìdice… Perpassam
Na neblina que a vista, enfraquecendo,
Ergue nos ensombrados, êrmos longes.
"E sempre que a Saudade se aproxima
De Eurìdice, alta Sombra de belêsa,
Esta quasi resurge; e, no seu rosto,
Vago, sanguineo alvôr, sorrindo, aflora.
"Ó silencio dos Êrmos! Ó meu canto,
Perdido e morto, em mim, revive! Aquece
Os troncos esqueléticos das arvores,
A noite fria n'um suor de estrelas!
Anima a luz do luar… Que a tua voz
Lhe afogueie o sorriso arrefecido."
E volvendo á Donzela o Doido errante
Os olhos, onde a imagem da Loucura
Tinha a trança revôlta e a face pálida:
"Quizera vêr teu busto á luz do sol;
A luz viva que sabe definir,
Beijando-as, com amor, as formas finas
Da Carne e do Desejo, e lhes insufla
A côr primaveril, o sangue, a rosa…"
E a Morte lhe dizia como em sonhos:
"Não chames pelo sol: é desencanto.
O sol apaga as Almas quando nasce;
Ele não ama o teu delirio… e odeia-me..
E o luar nos protege: é nosso amigo.
Seu mistico sorriso é encantamento
E resplendor de espirito que anima
Corpos mortos de nevoa… Apparições…
"Sou a tua Canção imorredoira,
Eternamente alada, fluida e viva!