E o Doido errante:

"És a minha canção… por isso mesmo
Tu és alguem que eu sinto ao pé de mim;
Vejo, ao luar, a sombra que tu fazes!…"

E acrescentou depois, olhando, ao longe,
Chimericos esbôços de montanhas,
Cêrros d'além do mundo, nevoas mortas,
A Saudade alongando-se em Paisagem:

"Todas as cousas êrmas que o crepusculo
Deixa entrevêr, são cantos que eu cantei;
Pousaram, por instantes, na minh'alma…

"Olha este ramo de urze rasteirinho,
E aquele scintilante orvalho vivo,
E aquela rocha de perfil esphingico…
Fôram cantos, outrora, nos meus labios,
Lagrimas nos meus olhos… E, depois,
Não sei porque terrivel maldição,
Ei-los cristalisadas, fulminadas
Apparencias de inercia e de brutêsa!

"Talvêz (quem sabe?) a maldião terrivel
Que a resurgida Eurìdice, de novo,
Em morta Sombra fria converteu!

"A maldição que vae na luz do olhar,
E mata, sem piedade, o nosso amôr:
A creatura amada que nós vêmos
Nascer viva das ondas da Harmonia,
Como Venus das ondas océanicas.

"Ai d'aqueles que, um dia, contemplaram
A creatura amada, face a face!

"Ai de ti, ai de ti, divino Orfeu!
Lira desencantada e redusida
A uma cruz de penumbra e de silencio…"

E o Doido continuou, mas brando e triste: