E a nocturna e phantastica Donzela,
Encantada, nevoenta de volupia,
Sentia-se animada pela estranha
Loucura, fogo animico e amoroso
Que dos olhos do Doido se exalava
Envolto em tôrva luz visionaria.
Era a terra queimada pelo incendio
Canicular, beijando o orvalho fresco:
A propria dôr da noite caida em lagrima…
"—Que mudanças soffri! Nem me conheço
Desde que te encontrei! Meu esqueleto
De viva carne em flôr se revestiu:
Assim o musgo cresce n'uma rocha,
Diluindo-lhe as nitidas arestas,
Sua bruta dureza enternecendo.
"Nos buracos horriveis dos meus olhos
Duas meninas, rindo, se debruçam:
Duas formosas noivas radiosas…
E no gélido vacuo do meu peito
Fez-se um calor de sol; a Primavera
Corre nas minhas veias, já floresce
Este barro de sombra que é meu corpo.
"Ah, sim, eu desconheço-me! Não sou
Quem fui! Não sou a Morte: sou o Amor.
Que é da morte que fui? Onde está ela?
"Ó Loucura magnifica! Delirio!
Ó Vida que as estrelas incendeias
E abres, falando, ouvidos nos rochedos!
Deus é o Doido suprêmo! Olhae a terra
Inda mostrando a sombra desvairada
Desse antigo e divino Pesadêlo:
Assim a pedra rustica dum lar
Mostra a amorosa mão que a trabalhou.
"Tua vida não vive em ti sómente;
Vive além do teu sêr; talvez alcance
Vagos mundos remotos e perdidos…
Quem sabe as creaturas que te vêm
De infinitas distancias e que choram
Se uma lagrima inunda o teu cantar?…
"Eu, que era a Morte, a fria Indiferença,
Insensibilisando as creaturas
Em que pousava a minha mão fatidica;
Eu que vivia, enfim, a minha morte
Assim como tu vives tua vida,
—Ouvindo-te falar, deixei de ser
O Esqueleto-Phantasma que apavora
Tudo quanto é sensivel e vivente,
Para ser a Mulher, o Encanto, a Flôr,
Venus, ébria de sol, fitando o Sol…
"Sou a tua Loucura feita Virgem;
Teu Sonho feito Corpo; a tua Sombra,
Até aqui negra e morta sobre a terra,
N'este instante, de pé, reanimada,
Cheia de luz, falando-te e sorrindo.
"Se és um doido cantando pelo mundo,
Sou a tua Canção…"