"E vae a minha vida no meu canto…
E, fóra do meu corpo, se condensa
Em Figuras viventes que me falam.
"Meu canto diz aos mortos: Resurgi!
E eis que eles resuscitam. Diz ás cousas
Brutas; amae, chorae! E eis que elas choram.
"Sou doido… Só passeio em sitios êrmos,
Através dos pinhaes, á luz da lua
Que traz, no seu palôr, delidas manchas
De phantasticos montes e desertos,
Silencios de outro mundo, soledades
De paisagens defuntas que o Remoto,
Com suas mãos de sombra, amortalhou.
"Amo o Silencio, o Luar, a Solidão…
Sim, porque sei falar ao meu espirito
Que me fala e contempla… e é outro Sêr…
"O ruido e o sol o Espirito afugentam.
"O creador das almas foi aquele
Primeiro corpo erguido contra a luz…
"O espirito amoroso é irmão da Sombra…
"Eis porque adoro a Morte, sendo humano."
E a Donzela responde: "Este desejo
Que me incendeia os ossos revestidos
Da luz do teu olhar, a qual se fez
Rubôr de carne viva, anceio de alma,
—Este Desejo a arder que me aproxima
De ti, é a tua sombra… nada mais…
Pois que sou em mim propria? O teu amor."
E o Doido: "E em mim que sou? Esta Aparencia,
Vago Luar que vem de longe, errante
Figuração de sonho sobre a terra…
Só a tua Presença me define
E abrasa em claras formas de relêvo.
A luz do meu espirito, incidindo
Sobre o teu sêr-phantasma, é já visivel:
Em ti, é claridade que alumia…
E os meus olhos fizeram-se fecundos,
E eu vejo o Amor, a Vida… o meu delirio:
Esta sombra espectral que se interpõe
Entre o meu sêr e as outras creaturas,
Transfigurando imagens, formas, vultos,
Que se tornam cahoticos, genesicos,
Concebendo, na Sombra, um novo Ritmo…"