E a Morte: "A faúla viva crepitou
Na cinza fria e morta que o Delirio
Espalha aos quatro ventos da Emoção.

"Eu amo os Doidos, sim, porque a Loucura
É o desencantamento do meu sêr,
Reduz-me ao meu sentido verdadeiro."

"—Adoro a Morte só porque é Donzela!
Na tua mão direita que, inda ha rouco,
Brandia a Fouce tragica de sombra,
Floresce um lirio branco; e a luz da lua,
Tocando-te na fronte, é virgindade:
Beijo… lagrima esparsa… veu de noiva…

"Tu és Venus, ó Morte. Os Amorzinhos
Em tôrno do teu Vulto, alegres, vôam…
Vejo, na terra, o abril sob os teus pés,
Embriagam o Azul perfumes misticos…
O luar, ao pousar, nas tuas mãos,
Dir-se-á que se converte em pombas brancas.

"E a nevoa sobe como insenso, e vem
Na tua direção: é um sacrificio
Á Deusa que tu és… A Naturêsa
Arde no fôgo eterno dos teus olhos:
As suas labarêdas são folhagens,
Faulas, soltas no ar, os passarinhos,
E o sonho humano é cinza derramada…"

E assim diz a Donzela: "Vês o Amôr
Onde outros vêm a Morte… Eis o Milagre!
Tu vês na Morte o Amôr… E quantas almas,
Embora eu fôsse o Amôr como tu dizes,
Veriam sempre em mim a negra Morte!"

E diz o Doido: "Eu sou a Creatura
Que vive, a sós, cantando pelos montes,
E subo aos altos pincaros cantando…
Canto os Beijos e os ultimos Suspiros;
Canto a Morte tambem, porque ela vive,
Deante dos meus olhos, e é Mulher.

"E sinto que em meus cantos se reflectem
As falecidas cousas que se animam,
E vão subindo ao céu na minha voz.

"Vive dentro de mim um rouxinol
Que espreita a luz do luar pelos meus olhos
E canta nos meus labios toda a noite.

"Vivo a cantar porque não caibo em mim;
Porque me excedo e subo muito acima
Da altitude a que fica o meu espirito.