Era a Parca fitando Apolo; a Noite
Os braços estendendo com luxúria
Ao Sol formoso, ardente e juvenil.
E, n'um grande delirio voluptuoso,
O Doido vagabundo, em suas mãos
Tomou, beijando-a, a fria mão da Morte.
E, olhae! em vez do gélido contacto
D'uma ossada, sentiu tocar-lhe os labios
A carne viva, quente, apetecida!
Caiu aos pés da Morte a sua tunica:
E a repentina luz d'um corpo em flôr,
Beijou-lhe os olhos ávidos, acêsos,
Onde o Desejo ardia e fumegava.
E o Doido balbuciou: "Não és a Morte;
És a Mulher, a Vida, a Primavera,
Obra de encantamento e de milagre!
"Tua sombra é luar de formosura…"
Vinham agora nitidas no vento
As risadas maleficas das Bruxas
E o sussurro das aguas nos açudes.
Qual sonho já sonhado, branca nuvem
Entremostrava os falecidos seios,
E a bocca fria e morta, n'um sorriso…
E figurando o ar saudoso e triste,
Perfis misteriosos palpitavam
Através da penumbra alumiada.
E as aves agoireiras, na embriaguês
Da sombra que, em seus peitos, se embebia,
Voavam cantando sobre os dois Amantes.
E agora o Doido e a Morte apaixonados,
De mãos dadas, erravam, no planalto,
Entre o luar e a noite, o ceu e a terra…
E dizia-lhe o Doido: "És a Mulher
Disfarçada n'um lúgubre esqueleto,
Cavalgando através das noites claras…
Amedrontas os homens que te vêm;
Mas a mim, que sou Doido, revelaste
O teu misterio que, afinal, é a vida.
"Deante de mim, tiraste aquela máscara
Que ri perpetuamente; caiu-te aos pés
A tunica de nevoa e de crepusculo;
E os meus olhos então amanheceram
Sobre esse belo corpo resurgindo
Do seu nocturno tumulo brumoso."