"Tua voz me persegue… e até parece
Amolecer, fundir a dura pedra
De que meus ossos gélidos são feitos…
"Embrandeceu-me de alma a tua voz…
"Apegaste-me a vida… o mal que soffres…"
A Morte, pronunciando estas palavras,
Conservára-se imovel: seu Cavalo
Era uma estatua, um marmore de sombra.
E o Louco, de cabelo desgrenhado
Que o luar, como o tempo, prateava,
Vestia com a aurora dos seus olhos
A Amazona da Noite. E, n'um delirio
Os braços lhe estendeu, e assim lhe disse:
"Tu és a Morte; és a Mulher, portanto.
Desce do teu Cavalo e vem comigo,
Porque o Desejo corre no meu sangue!
"Ó Morte, vem comigo! Sobre a terra
Vagueia o corpo em flôr do nosso Idilio…
Ah, sim, o nosso idilio é anterior
Ás nossas proprias almas. Desde a origem
Que ele anda pelo mundo e nos procura.
"Ó Morte, vem comigo! Eu sou a Vida!
Entrega-te aos meus braços! Quero amar
Esse corpo de Espectro. Que os meus beijos
Pousem, a arder, na tua bocca esparsa
Em nevoa e condensada em frio marmore!"
N'um movimento rápido e gentil,
Apeou-se a Morte; e, subito, entre as urzes,
A larga Fouce tragica escondêra.
E logo o seu Cavalo, em liberdade,
Começou a pastar as invisiveis
Ervinhas, transcendentes florescencias
Que à luz da lua crescem e germinam,
Onde é mais viva a terra e mais sensivel,
E a humidade é de lagrima chorada.
"Eis aqui tua Dama," murmurou
A Morte comovida, oferecendo-lhe,
A definhada mão gelada e branca,
E cravando nos olhos amorosos
Da creatura humana a escuridão
Das suas fundas orbitas vasias.