"Eu sei bem o teu nome. Quantas vezes,
Em igneas, vivas letras de oiro, fulge
Perante o meu espirito de amor.

"E quem te baptisou? Meu coração.
De agua lustral banhou-te a negra fronte…
E sua voz anciosa, nomeando-te,
Roubou assim a morte á propria morte.

"Eu sei tirar das cousas o seu intimo
Signal harmonioso, a sua forma
Transcendente e verbal, que é seu espirito…

"A harmoniosa imagem desprendida,
Já liberta das Cousas, vem morrer
Nos meus ouvidos de alma… e ali renasce…
E ei-la Canção. O Verbo é o meu Delirio:
Passo a vida a cantar por estes êrmos…"

E a Morte, surpreendida, assim lhe disse:

"Em ti, fala o delirio, a exaltação
Que só meu tenebroso olhar acalma.

"A Vida é o anormal, o excesso, a febre;
A Vida é uma doença, uma velhice
Dos mundos: o seu fim. Odeio a Vida;
Ela está fóra já das leis de Deus.

"Mas quem sou eu, quem sou, ao pé de ti?
—Sou a Razão ao lado da Loucura…
Vê que distancia imensa nos sepára…"

Sumiu-se a voz da Morte que ficou
Pensativa ao luar… Depois, n'um gesto
Esqueletico e duro, repousando
Nas ancas do Cavalo a mão direita
Acariciadôra e descarnada,
Novamente falou ao viandante:

"Mas, emfim, ha distancias que aproximam.
E não te oculto mais a simpatia
Que já por ti eu sinto, muito embora
Os Destinos e os Fados me proibam
Qualquer dôce fraquêsa ou sentimento
Que possam, por ventura, humanisar-me.