+O DOIDO E A MORTE+
Edição da Renascença Portuguesa Pôrto—1913
Impresso em Fevereiro de 1913 na Tipografia Costa Carregal, trav. Passos Manuel, 27—Pôrto.
A Philéas Lebesgue
Era uma fria noite de Natal.
Já no zenith a lua derramava
A sua palidez misteriosa,
Transfigurando as cousas que se mostram
Na sombra, com seus gestos de Phantasma
E atitudes de estranha Aparição…
Nos solitarios longes montanhosos
A nevoa e o luar, chimericos, deliam
A moribunda face da Paisagem…
E esta, por um milagre e encantamento,
Se espiritualisava, convertendo-se
Em Figuras de sonho, aéreos Corpos…
E eram perfis de Fadas espreitando,
Asas de Serafins que, no seu vôo,
Pareciam levar alguma Virgem…
A aragem fria e fina arripiava
As arvor's e os nocturnos viandantes,
E retocava o brilho das estrelas.
Os pinheiros gemiam surdamente;
E na face das pedras espelhada,
O luar abria n'um sorriso triste.
Vultos negros, opácos de penedos
Erguiam-se somnanbulos e mudos
No crepusculo, e olhavam como Esphinges…
O Silencio reinava: era o Senhor
Da noite e da paisagem, e o seu Reino
Para além das estrelas se estendia…