Por um longo caminho esbranquiçado,
Entre pinhaes sombrios e confusos,
A Morte cavalgava a largo trote.
As patas espectraes do seu Cavalo
Ouviam-se bater na terra dura
E sonora que o gêlo trespassava.
E aquele ruido sêco, difundindo-se
Na merencoria lividez do ceu,
O ensombrava de lagrimas e mêdos…
E figurava o ar a feia Morte,
Envolta n'uma tunica de sombra,
Segurando na mão, só feita de ossos,
A Fouce, em cuja lamina lusente
Se espelhava o luar…
Seus fundos olhos
Encovados, volvidos para dentro,
Eram poços de treva, onde os morcêgos,
As estrellas, as arvores, as nuvens,
Iam ver sua imagem reflectida.
Os passaros nocturnos, celebrando
A Noite nos seus cantos agoireiros,
Esvoaçavam de encontro áquelas orbitas
Vasias, descarnadas: dois buracos
Apagados de luz, sêcos de lagrimas,
Sobre um aberto riso empedernido.
E a Morte cavalgava a largo trote,
Por um ermo caminho esbranquiçado,
No arrepio da Noite e do Misterio…
O vento fino e frio maguava
As arvores, fazendo fluctuar
A tunica da Morte que envolvia
Seu corpo de esqueleto e as largas ancas
Do seu Cavalo, cuja sombra inquieta
E nervosa manchava a estrada clara.
E atravessava agora um indeciso
Planalto, em formas vagas, emergindo
Da cerração nocturna dos pinhaes.
As arvores fugiram… Simplesmente
Um rasteirinho tôjo agreste e bravo
Vestia de humildade aquela terra.
Nas suas hastes hirtas e espinhosas,
Aqui, além, por toda a parte, emfim,
Gôtas de orvalho, vivas, acordavam…
E em seus liquidos seios de esplendor,
Presentia-se a lua encarcerada
Mostrando a face animica e divina.
N'esta altitude o Vento, embrandecendo,
Era uma sombra alada… E a lua, a prumo,
Fulgia sobre a Morte que alongava
Os olhos pelo túrbido horisonte
Mais delido no céu e mais longinquo,
D'uma materia feita de chimera…