Qual mayor poss’e o mays encoberto

que eu poss’e sey de Brancha frol,

que lhi non ouve Flores tal amor

qual vos eu ey;..............

O thema da fidelidade no amor tornou-se quasi exclusivo nos poemas de aventuras, em que degeneraram os da Tavola Redonda; sobre o sentimento de fidelidade se elaboraram os poemas Meliadus de Leonys, Frejus et Galienne, Claris et Laris, Helias, Chevalier de la Charrette, Partenopeus de Blois, destacando-se d’entre todos elles pelo seu exagero vertiginoso os poemas de Amadas et Ydoine, conhecidos na Hollanda, Allemanha, Borgonha, Inglaterra, Hespanha e Portugal já nos fins do seculo XIII. Em varios fableaux apparece frequentemente citado o nome de Amadas, como o ideal da fidelidade em amores; não admira que sobre este rudimento novellesco, se agrupassem todas as aventuras da fidelidade amorosa dos poemas conhecidos na côrte de D. Diniz, dando a novella em prosa do Amadis de Gaula. De toda essa elaboração poetica dos troveiros normandos, conhece-se hoje apenas dois poemas, o Amadas et Ydoine, por Jean de Mados, e Sir Amadace; mas além d’estas versões franceza e ingleza, é crivel que existissem pelo menos uma outra neerlandeza anterior a 1290, e uma allemã. De uma versão que chegou á côrte de Dom Diniz é que Lobeira (João, antes de Vasco) elaborou por amplificação e syncretismo a novella de Amadis de Gaula, que por seu turno conquistou todas as imaginações na Europa, mesmo na época da Renascença. O phenomeno litterario de um poema em verso, quer seja Amadas et Ydoine, Sir Amadace, ou qualquer outra redacção passar á prosa de uma extensa novella como o Amadis de Gaula, era frequente na Edade media. O poema de Blanchefleur converteu-se na mão de Boccacio no Filicopo, novella desenvolvida largamente á custa da simplicidade primitiva do poema. D’este facto conclue Du Méril: «Os habitos litterarios da Edade media complicam desgraçadamente todas as questões de origens com difficuldades insoluveis, se se não deixar ao sentimento o tirar as conclusões, quando escaceando os dados precisos, o raciocinio se dá por incompetente.»[137] Quem escreveu a Novella tinha presente na imaginação as situações dos romances que então mais lisongeavam o gosto da aristocracia no seculo XIV; poz em prosa as aventuras cavalheirescas mais conhecidas e sympathicas, e attribuiu-as a um mesmo typo, tambem já conhecido e idealisado em varios poemas em verso. Originalidade poetica, nenhuma litteratura da Edade media a tem, nem mesmo a franceza: os themas tradicionaes são communs a este syncretismo das raças. O que interessa na novella do Amadis de Gaula é a fórma em prosa, e essa é um producto que mais caracterisa a litteratura medieval portugueza.

Na discussão da origem do Amadis o sabio Victor Le Clerc assentou o problema definitivamente: «a primeira redacção do famoso Amadis de Gaula, que todavia não é, como se vê pelo texto mais antigo hoje conhecido o hespanhol, senão uma imitação prolixa dos poemas da Tavola Redonda e dos Romances de aventuras, taes como o nosso romance de Amadas[138] N’este monumental Discurso, escreve: «Nos Amadises, os quaes são derivados dos Lancelot e dos Tristãos, e aonde se tem querido vêr o ideal do amor cavalheiresco, a bella Oriana concede tudo antes do tempo tanto esperado em que os imperadores e os reis hão de vir assistir ás nupcias.»[139] E apresenta o problema da origem litteraria com toda a segurança:

«Quando o poema francez de Amadas, que em 1365 fazia parte dos livros de um conego de Langres e que ainda subsiste, tiver sido vulgarisado; quando o poderem comparar ao Amadace inglez, áquelle bravo, que os fragmentos publicados em 1840 e 1842, segundo differentes textos manuscriptos, concordam em represental-o como o mais brilhante modelo de lealdade, de bravura e de respeito cavalheiresco; quando principalmente se fizer uma ideia mais justa e mais completa da alluvião de romances em prosa que, nos primeiros cento e cincoenta annos da imprensa, para corresponder, tanto em Hespanha como em França, ao enthuziasmo da moda, multiplicaram á compita os nossos antigos poemas, alongando-os com digressões importunas, conversas alambicadas, com uma ampla brigada de gigantes, fadas, encantadores, será então occasião de perguntar, se foi sem fundamento ou se com rasão que o velho traductor francez do Amadis hespanhol, Herberay des Essarts, nos disse que descobrira alguns fragmentos escriptos á mão em lingua picarda, e de decidir se este romance de aventuras, cujo plano pouco se prestava aos embelecos do perfeito amor, por isso que começa por onde outros acabam, nasceu em Portugal, em Hespanha ou em outra qualquer parte.»[140] Du Tréssan, já no seculo XVIII, resumindo esta novella do Amadis de Gaula, tambem declara ter visto na Bibliotheca do Vaticano, o antigo poema no fundo que pertencera á rainha da Suecia, cujo exame lhe fôra facultado pelo cardeal Querini.[141] Da mesma opinião de Le Clerc é Littré: «Amadas lembra o cyclo dos Amadises, que certamente hespanhol no seculo XV, tem por ventura ligações com mais antigas composições francezas.»[142]

Dando-se a transformação de um poema versificado para prosa dramatica e descriptiva, com o intuito de ampliar um thema favorito, as analogias entre as duas composições não devem ser procuradas na fórma mas no pensamento e situações que o desenvolvem. A novella de Amadis de Gaula foi lida e admirada durante toda a Edade media pelo vigor do thema da fidelidade dos dois amantes Amadis e Oriana; o romance de Amadas et Ydoine foi egualmente inspirado pelo mesmo sentimento de fidelidade. Identidade completa de thema: tanto Amadas como o Amadis servem na côrte de um rei, por cuja filha Ydoine ou Oriana (temos a fórma Idana) se apaixonam, e para merecerem-a vão nobilitar-se nas armas para serem primeiramente armados cavalleiros. É durante as longas e arriscadas aventuras que tanto o donzel como a filha do rei se mostram animados de uma sublime fidelidade, terminando a acção por se unirem como sonhavam. Na redacção em prosa, tanto pelo seu caracter como pelo gosto do tempo, os innumeros episodios, as historias genealogicas e os longos discursos fazem esquecer a simples trama, que facilmente se aproximaria da versão poetica d’onde tirou os elementos originarios. Amadis, apezar da nobreza do seu nascimento, teve uma infancia obscura, e sómente pelo seu garbo e gentileza é que foi tomado pelo rei Languinés de Escossia para a sua côrte; Amadas tambem occupava na côrte do Duque de Borgonha um logar secundario como filho do senescal. Oriana é filha do rei Lisuarte, e na côrte de Languinés é que Amadis a encontrou na festa á sua chegada da Dinamarca. Foi n’esta situação que nasceu o amor de Amadis, do mesmo modo que o de Amadas por Ydoine: «Amadis tinha então doze annos, mas pelo seu corpo e pelos seus membros bem parecia ter quinze; servia a rainha e era muito amado d’ella e de todas as damas e donzellas; mas logo que ali chegou Oriana, filha do rei Lisuarte, a rainha lhe deu o Donzel do mar para a servir, dizendo:—Amiga, eis aqui o garção que vos servirá. Respondeu ella: Que era do seu agrado. Esta palavra penetrou por tal fórma o coração do donzel, que d’ali em diante nunca mais lhe saiu da lembrança. E nunca, como esta historia o conta, em dias de sua vida se enfadou de a servir, e seu coração lhe foi sempre dedicado, e este amor durou tanto quanto ambos viveram.»[143]

No romance de Amadas repete-se esta situação; o senescal n’esse dia veiu servil-o á meza, como lhe competia, e a seu lado seu filho Amadas ia-o ajudando; foi então que o Duque mandou o donzel servir a sua filha Ydoine.[144]

Nas referencias que alguns poetas castelhanos do seculo XIV fazem do Amadis, como Pero Ferrus, Fray Miguel, Micer Francisco Imperial e outros, tudo leva a crêr que alludiam á fórma poetica do romance assim conhecido em Hespanha. Ferrus cita o Amadis junto com o Rei Arthur, Dom Galaaz, Lançarote, Carlos Magno, Tristão e Roland, que eram escriptos em verso. As allusões constantes que se encontram no Amadis aos romances do cyclo da Tavola Redonda e a outros de origem franceza, mostram claramente que esse thema não é uma invenção do genio portuguez, mas que foi em Portugal que essa ficção recebeu a fórma em prosa com que se universalisou.[145] No texto da versão hespanhola de Montalbo, e no Cancioneiro Colocci-Brancuti estão as provas irrefragaveis da primitiva redacção portugueza: são a rubrica ácerca da emenda do episodio de Briolanja, e a canção de João Lobeira, Leonoreta, que o traductor castelhano deturpou não conhecendo a fórma estrophica.