Os romances da Tavola Redonda fizeram decahir de interesse as Gestas carlingias, exclusivamente guerreiras, e actuaram tambem para que a poesia lyrica trobadoresca bastante subjectiva fosse substituida pelas narrativas apaixonadas das novellas de aventuras. Com o falecimento do rei D. Diniz decahiu na côrte a lyrica trobadoresca; a sua paixão pela eschola provençal, causára essa exuberante actividade poetica da sua côrte, centro a que convergiam os jograes da Galliza, Catalunha, Leão, Aragão e Castella, e até os seus bastardos, D. Affonso Sanches e D. Pedro o lisongeavam metrificando com esforço, ou colligindo canções. Em uma canção de Joham jogral, fixa-se esta decadencia pela morte do rei:
Os trobadores que poys ficarom
En o seu regno e no de Leon,
No de Castella, no de Aragon
Nunca poys de sa morte trobarom.
(Canção n.o 708.)
Por morte do Conde D. Pedro, elle deixou o seu Livro das Cantigas a Affonso XI, de Castella, por que em Portugal Affonso IV não apreciava as manifestações do lyrismo trobadoresco. E este desprezo continuou-se nos successivos reinados, persistindo cada vez mais o enthuziasmo pelas novellas de Cavalleria, como vêmos nas côrtes de D. João I, D. Duarte e D. João II, em que se lêem a Demanda do Santo Graal, Merlin, José Ab Arimathia, Cavalleiro do Cysne, Galaaz, e outras muitas novellas. A poesia lyrica, revelada tão brilhantemente na côrte de D. Diniz, tornou-se um pallido reflexo da castelhana no seculo XV, e só tornou a reflorir depois do primeiro quartel do seculo XVI, em consequencia de Sá de Miranda trazer a Portugal a nova Eschola italiana.
A nova phase do perstigio das Novellas da Tavola Redonda não corresponde a uma realidade, isto é, aos habitos sociaes da época; entravamos no seculo XV, na corrente da burguezia e da prosa, na creação da historia e da legislação sem symbolos, sob a dictadura do poder real. Não havia pois logar para a cultura do individualismo heroico da Cavalleria; a justiça do rei, como o revela o grito popular Aqui d’Elrei, não permittia a intervenção generosa de qualquer senhor. E é precisamente na côrte de D. João I que se encontra o mais exaltado prurido pela leitura e imitação das novellas da Tavola Redonda e dos seus heroes, chegando os seus nomes a serem reproduzidos nas familias aristocraticas. Explica-se esta antinomia; primeiramente D. João I era um bastardo, que achando-se no throno, quiz cercar-se de todos os symbolismos da soberania e do fausto cavalheiresco; depois pelo casamento com D. Philippa de Lencastre imita o cerimonial da côrte ingleza e toma conhecimento dos livros ahi mais predilectos entre a nobreza. O francez era então usual na côrte de Inglaterra. Convinha mais á côrte portugueza a leitura das novellas com aventuras e situações ficticias; o cyclo do Santo Graal, em que se preconisa a fidelidade á Egreja, harmonisava-se pelo seu maravilhoso com o nosso genio celtico. E essas aventuras, como a da Descida aos infernos, a da descoberta do Preste João (o christianismo entre os Bretãos foi propagado por discipulos de Sam João) e Viagens de Sam Brendan, influiram no genio aventureiro que levou os portuguezes ás descobertas maritimas.
Imitava-se o viver idealisado nas novellas de Cavalleria; na Chronica de D. João I conta Fernão Lopes, que este rei no cêrco de Coria, se queixára de lhe faltarem cavalleiros como os da Tavola Redonda, e que agastado Mem Rodrigues de Vasconcellos fôra comparando os cavalleiros presentes a Galaaz, a Lançarote, a D. Quêa, allegando pelo seu lado que lhes faltava um bom rei Arthur, flor de liz, que sabia conhecer o valor. Esta anecdota já andava repetida desde o seculo XIII, em nome do rei Philippe, que se lamentava de não haver já cavalleiros tão bons como Roland e Olivier. O Condestavel Nun’Alvres queria imitar a virgindade de Galaaz, para manter a pureza da Cavalleria: e faziam-se votos denodados, como os Cavalleiros da Madre Silva, Ala dos Namorados e Doze de Inglaterra. Até nas instituições sociaes penetrava a imitação artificial das cerimonias e symbolismos cavalheirescos; basta abrir o Regimento de Guerra portuguez, codificado pelo Infante Dom Pedro, o que correu as Sete Partidas do mundo, para vêr como debaixo da esquadria logica e unitaria da codificação romana estabelecida pelos jurisconsultos burguezes, irrompe o cerimonial novellesco com que um escudeiro devia de ser armado cavalleiro. E sóbe de interesse esse confronto com o cerimonial do poema Ordene de Chevallerie, de Hugues de Tabarie. As explicações symbolicas do troveiro francez coincidem com os paragraphos da Ordenação affonsina. É com rasão que se considera o Regimento de Guerra como o necrologio da cavalleria portugueza; este ultimo lampejo de vida foi-lhe communicado pela leitura dos poemas anglo-normandos da Tavola Redonda, que figuravam nas livrarias régias.
É hoje conhecida a novella portugueza da Demanda do Santo Graal, que possuia D. João I, bem como a rainha Isabel a Catholica e o princepe de Viana; é uma livre paraphrase da novella franceza La tierce partie de Lancelot du lac avec la Queste du Saint Graal et de la dernière partie de la Table Ronde. No seu texto fazem-se referencias á redacção franceza de Robert de Boron, que seguira o paraphrasta portuguez. D’este manuscripto, a que falta o principio, ha já uma grande parte publicada pelo Dr. Reinhardsttoetner, que o copiou na bibliotheca imperial de Vienna. É tambem da época de Dom João I a novella Livro de Joseph ab Arimathia intitulado a primeira parte da Demanda do Santo Graal; allude a este livro uma passagem do Cancioneiro de Resende em que falla do Mestre Eschola e da novella (João Sanches, Mestre Eschola de Astorga, que a mandára escrever.) Tambem no tempo de D. João I foi lido em Portugal o poema inglez de John Gower, A Confissão do Amante, que Roberto Payno traduziu para portuguez; formado de uma selecção de contos francezes, de imitações de Jean de Meung, de extractos de Lancelot, de Amadas, Tristan, Partenopeus de Blois, era mais um vehiculo para nos relacionar com a vigorosa poesia da Edade media franceza. Na Livraria do rei Dom Duarte, continuou a prevalecer a sympathia por estes poemas, apesar de ir despontando já a admiração pelos escriptores classicos. Ali se guardava o Livro de Tristam, por ventura a redacção de Luce de Gast e de Helie de Boron; Merli, que é uma das partes da Tavola Redonda, como se deprehende do exemplar descripto no catalogo da livraria de Isabel a Catholica; o Livro de Galaaz, que era a leitura favorita do Condestavel; a Conquista de Ultramar, em que uma parte é imitada das aventuras do Cavalleiro do Cysne. Ruy de Pina mostra a influencia d’esta novella na côrte de D. João II: «antre os quaes ElRei para desafiar as justas que havia de manter, veeo primeiro momo, envencionado Cavalleiro do Cisne com muita riqueza, graça e gentileza.»[146] Esta novella começada por Jehan de Renault e terminada por Graindor, exalta Godofredo de Buillon entre complicadas scenas de encantamentos e duellos.