As viagens dos monges bretãos, as narrativas do claustro de Cruenferl, as lendas monasticas de Kadock, Barontus, e de S. Brendan devassando as regiões do norte, contemplando as auroras dos polos e vendo á superficie dos mares as magnificencias do creador, muitas o muitas vezes seduziram a imaginação dos primeiros navegadores portuguezes, attrahidos pelo maravilhoso da geographia antiga. É admiravel a Odyssea monachal das viagens de San Brendan; na Chronica da Conquista de Guiné cita-as Azurara: «Bem he que alguns deziam, que passara per ally san Brandam...»[147] As Ilhas encantadas, da tradição celtica, surgem vagamente na imaginação do povo portuguez, que se arroja ás descobertas. E Camões, profundamente nacional, quando, representando no seu poema o genio d’este povo, quer consolar os cansados navegantes recorre ao sonho deleitoso da antiga geographia das Ilhas Fortunatas, Antilia e Atlantida, no episodio da Ilha dos Amores. Egual seducção com as lendas do Preste João das Indias, cuja Epistola desde o seculo XII circulava na Europa entre as relações apocryphas de Merlin e de Sam Brendan. Quando a nacionalidade portugueza esteve a ponto de extinguir-se na incorporação castelhana, foram os sonhos deliciosos do genio celtico que fortificaram no seu desalento este povo atraiçoado pelo clero e pela aristocracia. O rei D. Sebastião, que vivia emballado em sonhos novellescos de imaginarias conquistas, ao precipitar-se para a catastrophe de Alcacer-kibir, fazia-se acompanhar pela mesma fórma como os antigos monarchas saxões, que entravam em combate seguidos pelos seus menestreis. O povo sympathisou com este typo do hallucinado cavalleiro, idealisou-o na sua tradição, guardou-o, á similhança do rei Arthur, tambem em uma ilha encantada, d’onde o seu Merlin, Bandarra o sapateiro de Trancoso, prophetisou que viria tornar Portugal liberto o Quinto Imperio do Mundo.[148] O elemento celtico, que desde muito cedo differenciou Portugal das populações hispanicas, manifestou-se pela sympathia por estas ficções gallo-romanas, tornando-as como um dos estimulos da sua acção historica.
d) A CULTURA LATINO-ECCLESIASTICA E HUMANISTA
O conhecimento das obras litterarias da civilisação greco-romana não se obliterou completamente mesmo nos seculos mais perturbados da Edade media; mas esta continuidade não contrariou as manifestações do genio esthetico das raças que entravam na corrente historica. É certo que quanto mais avançavam para a civilisação, mais se accentuava entre as novas nacionalidades o antagonismo dos dois espiritos,—o classico, reflexivo, disciplinado e harmonico, e o romantico ou medieval, espontaneo, pessoal e impetuoso. Magnin observa este facto: «de se não poder encontrar na Europa um lapso de tempo de qualquer extensão em que tivesse havido uma solução total de continuidade e de esquecimento completo das tradições antigas. No emtanto, a verdade é, que durante mais de dez seculos, um espirito novo, violento, inculto, posto que subtil e delicado á sua maneira, o espirito do norte, emfim, prevaleceu sobro o genio esgotado de Athenas e de Roma; mas, graças á Egreja, esta vida potente e nova nunca abafou inteiramente a antiga.»[149] A Egreja adoptando o latim para a sua liturgia e para a chancellaria papal, e recebendo da patrologia grega os elementos dogmaticos da sua doutrina, via-se forçada a manter diante da espontanea actividade dos espiritos da Edade media o respeito pela civilisação polytheica, que ella combatia. Nos varios seculos da éra medieval foram conhecidas as tradições homericas, os poemas de Virgilio e de Ovidio, os tratados philosophicos de Seneca, e mesmo algumas comedias de Terencio; mas a Edade media apropriou-se d’elles, imprimindo-lhes o seu caracter, assimilando-os como productos proprios. O Renascimento ou renascença do mundo classico, nos fins do seculo XIII com Petrarcha e Boccacio, e que se continúa com deslumbramento no seculo XV, é esse phenomeno de erudição e de critica que leva a descobrir o verdadeiro caracter da civilisação greco-romana. É então que se estabelece o antagonismo dos dois espiritos. Magnin descreve esse conflicto, que se observa nos costumes, nas instituições e nas litteraturas: «Desde a sua nascença, isto é, desde o fim do seculo V, a civilisação moderna foi submettida a duas influencias em sentido contrario, a influencia do genio romano e a do espirito do norte, dois elementos cuja opposição, bem que temperada por um laço commum, o Christianismo, ainda hoje se faz sentir em todas as controversias que nos agitam.» E conclue d’este dualismo historico: «se a sociedade europêa existe ainda potente e vivaz depois de mais de treze seculos, é por que ella preenche a condição a mais indispensavel aos phenomenos da vida, a de ser o resultado de duas forças, de dois elementos combinados. Depois da dissolução do Imperio do Occidente até ao meado do seculo XV, quer dizer, durante o intervallo ainda imperfeitamente estudado a que se chama Edade media, a influencia da barbarie germanica augmentada, sob os ultimos Carlingios, com a barbarie scandinava, dominou tudo. Depois do meado do seculo XV, inversamente, o genio mais clemente da Grecia e da Italia prevaleceu por toda a parte, mas desegualmente, e são estas desegualdades mesmo que, mais do que o velho caracter indigena, constituem a originalidade nacional da França, da Hespanha, da Italia, da Inglaterra. Seria vantajoso levar até aos seus extremos a eliminação de um d’estes dois elementos? A ter de optar, qual d’estes nossos dois troncos originaes o menos esgotado e o mais rico ainda de seiva e de futuro?—Ha, effectivamente, na sociedade moderna, homens e cousas que mantêm a dupla e desegual feição da sua complexa origem. Ha homens de natureza romana, e homens de natureza septemtrional. As letras e a historia têm em todas as épocas apresentado energicos representantes d’estas duas familias, estes leaes campeões dos instinctos do septemtrião, aquelles fieis clientes da policia e da urbanidade romanas.»[150] A alternancia d’estes dois elementos está ligada á marcha da civilisação europêa, e acompanha a lucta dos dois Poderes. O papado inicia as escholas das Collegiadas e chega á fundação do Estudo Geral para o ensino das Sete Artes. O nome de latino é synonimo de letrado, de culto e intelligente, d’onde se conserva ainda a expressão vulgar de ladino; o clericus destacou-se do leigo pelo uso do latim, a linguagem da sciencia, dos altos dignatarios da Egreja, dos embaixadores e dos homens de côrte, em contraposição com a linguagem do vulgo, a que chamavam romance, como se vê em Benoit de Saint More, na Historia de Troya:
Qui du latin ou je la truis
se j’ai le sens e je le puis
je voudrai ci en romans mettre...
Quando a linguagem vulgar passou a ser escripta, por essa nobilitação litteraria foi chamada ladina; vêmos no Leal Conselheiro, do rei D. Duarte: «e nom screvo esto per maneira scollastica, mas o que leeo per livros de latym e de toda lingua ladinha, do que algũa parte se me entende, concordo com a pratica cortezã na mais conveniente maneira que me parece.» (p. 168.) A mesma ideia em Hespanha, como se vê em Covarruvias: «la gente barbara de España llamava latinos en tiempo de los romanos á los que hablaban la lengua romana: e como estos generalmente eran mas sabios que los naturales espanoles, quedó el nombre de latinos para los que entre elles eran menos bozales, e de latino se corrompiò facilmente en ladinho.»[151] O Poder real tambem desenvolveu a cultura latina, pela restauração do Direito romano e pelo estabelecimento das Universidades no seculo XIII. Assim como o clerigo, o escholar tambem cultiva a lingua latina, e obedecendo ao espirito sarcastico do seculo faz a parodia das orações e hymnos da Egreja e dos processos das basilicas ou Curias; fórma-se uma classe intermedia aos eruditos latinistas e ao povo, a dos Goliardos, que vagam pelas tabernas e empregam as fórmas da poesia popular, como se vê nas Carmina Burana. Existem Pastorellas latinas que são moldadas nos typos populares occidentaes. A elaboração épica tambem se apropriou dos themas greco-romanos para as Gestas heroicas; o troveiro Jean Bodel, define esta classe de assumptos épicos: «De France, de Bretagne et de Rome la grand.» Apparecem-nos gestas germanicas sob as fórmas latinas como o Waltharius, e os poemas homericos acham-se transformados segundo a concepção medieval no Roman de Troye, de Benoit de Sainte More. No romance de Flamenca, enumeram-se os principaes assumptos eruditos que celebravam os jograes: «Um canta de Priamo, outro de Piramo; outro da bella Helena, como Paris foi á sua procura e depois a trouxe; outro canta de Ulysses, outro de Heitor e de Achilles. Outro canta de Eneas e de Dido, como ella ficou por elle triste e desolada; outro cantava de Lavinia ... de Apollonice, de Tideu, de Etidiocles... Um canta do rei Alexandre, outro de Ero e de Leandro. Um diz de Cadmo e sua fuga, e de Thebas como se edificou. Outro cantava de Jason e do Dragão; outro de Philis como attenta contra si por amor de Demophonte. Um diz como o bello Narciso se afogou na fonte em que se mirava. Um diz de Plutão como roubou a Orpheo a sua bella esposa... Um canta de Julio Cesar como passou sósinho o mar sem implorar nosso Senhor, por que não conhecia o medo.»[152] Muitos d’estes poemas existem manuscriptos: na Livraria do rei Dom Duarte guardava-se a Historia de Troya, o Alexandre e Julio Cesar.
As lendas de Troya, conhecidas no seculo IX por Macelas, no X por Constantino Prophyrogeneta; por Suidas no seculo XI, e no XIII por Constantino Manassés, João e Isac Tzetzés, entraram na corrente das Escholas Geraes, vulgarisando-se d’ahi para os troveiros. Tambem os chronistas das novas nacionalidades iam entroncar em Troya a origem dos povos e estados que historiavam. Os Francezes attribuiam as suas origens aos Troyanos, como affirmam os chronistas Fredegario, Roricon, Paulo Warnfried, chegando Dagoberto a declarar em um documento: «Ex nobilissimo et antiquo Trojanorum reliquarum sanguine nati.» Luiz XII na batalha de Ravena usa a divisa: Ultus avos Trojae. Tambem para mostrar a superioridade da Inglaterra sobre a Escossia, Eduardo III allega ao Papa a sua origem troyana; Veneza, como outr’ora Roma, considerava um dos seus bairros povoado por foragidos troyanos.
A historia de Portugal tambem se fundou por muito tempo sobre as lendas de Troya, de varios heroes gregos e patriarchas biblicos; era corrente a ideia de que Tubal viera ás Hespanhas e fundára Setubal, e Elysa, neta de Noé, fundára Lisboa. Transcrevemos uma pagina caracteristica d’este systema de historia: «na mais bem apurada chronologia, a Elysa e não a Luso, filho ou companheiro de Baccho, nem a Ulysses, se deve verdadeiramente attribuir a primeira fundação d’aquelle celebre emporio do mundo, e a primeira origem dos Luzitanos; pois tudo o mais que dos outros fundadores posteriores se escreve, dado que assim succedesse, foi reedificação e augmento e não primeira origem.»[153] N’esta citação se alludem a todas as lendas greco-romanas, sendo a que teve mais voga e chegou á transmissão popular a da vinda de Ulysses á Luzitania e a sua fundação de Lisboa. A fundação da cidade do Porto foi attribuida por Fr. Bernardo de Brito a Diomedes, que veiu á Hespanha depois de incendiada Troya; e Salgado de Araujo attribuia a mesma fundação a Meneláo, firmado no dizer de Virgilio, de ter-se Meneláo desterrado depois da guerra troyana para as columnas de Pretheo. A aldêa de Fão era attribuida á fundação de Phano, rei da ilha de Chio; um outro erudito, do seculo XVIII, dava como fundador do Porto o princepe Callais, filho de Boreas, rei da Thracia e um dos mais celebres argonautas. Para os jograes e troveiros por certo influiram as obras dos pseudo-Dares, pseudo-Ditys e pseudo-Calisthenes; mas para os chronistas deve essa série de explicações phantasmagoricas derivar-se dos tratados e dissertações do imaginoso dominicano Anio de Viterbo. É curioso o reflexo d’este syncretismo na epopêa dos Lusiadas, que tambem diz de Ulysses: «se lá na Asia Troya insigne abrasa,—Cá na Europa Lisboa ingente funda.»
O poema de Alexandre era uma das joias da livraria do rei D. Duarte; no seculo XI um medico de Constantinopla, Simeão Seth, traduziu para grego a Historia Alexandri magni regis Macedoniae, de Proeliís, que n’esta fórma latina veiu acordar a imaginação dos troveiros, já como o primeiro modelo da Vida de Carlos Magno attribuida a Turpin, já como norma da chronica do rei Arthur de Geoffroy de Monmouth e do poema francez Alexandre de Lambert li Cort. No seculo XVI foi conhecido em Portugal na sua fórma originaria, em lingua persa; D. João de Castro pedira a Aleixo de Carvalho em 1546, que lhe procurasse uma Historia de Alexandre; dirigiu-se este a Luiz Falcão, que a obteve do goazil Hemires.[154] Fallando das origens orientaes da Historia de Alexandre, diz Berger de Xivrey, nas Traditions Tératologiques: «além da descripção de muitos paizes, uns tratavam da viagem ao paraiso, outros da correspondencia com a rainha das Amazonas, com Didimus ou Lyndimus, rei dos Brachmanas; digressões de antigos textos gregos e orientaes.»[155] Na livraria de Jehan de Bourgogne, conde d’Estampes, guardava-se tambem uma Guerra de Macedonia, escripta por Jehan Nanquelin «selon ce que je l’ai trouvet en ung livre rimet, dout je ne sais pas le nom de l’aucteur, fors qu’il est intitulé histoire Alixandre.»[156]