Producto do perstigio das tradições greco-romanas na Edade media é a Historia do Imperador Vespasiano, que Herculano classificou como o monumento mais curioso da arte typographica em Portugal no fim do seculo XV; descreve-a da seguinte fórma: «A Historia de Vespasiano consta de vinte e nove capitulos, nos quaes se tratam varios feitos d’aquelle imperador e de seu filho Tito e outros que dizem respeito ao christianismo e á morte de Archeláo e Pilatos.—Fecha a obra por uma subscripção em que se diz ser impressa por Valentim de Moravia em Lisboa, no anno de 1496.»[157] E em outro logar desenvolve: «Esta Historia de Vespasiano não é senão uma novella de cavalleria pertencente ao cyclo greco-romano. Ha ahi, na verdade, alguns factos historicos; mas os costumes e as particularidades da narração não passam de meras ficções. Que a obra seja uma traducção não nos parece duvidoso. Na subscripção d’ella se diz que fôra ordenada por Jacob e Joseph ab Arimathia, que a todas aquellas cousas foram presentes. Isto indica bastantemente a origem estrangeira do livro. Se, porém, nos lembrarmos de que José de Arimathea figura nos romances do Santo Graal, como tendo recebido o sangue de Christo n’esse celebre Vaso, é naturalissimo que o novelleiro, auctor da Historia de Vespasiano se lembrasse de lhe attribuir a propria composição, tanto mais que era quasi como lei entre os romancistas, dar uma origem mysteriosa ou ao menos remota ao fructo de suas imaginações. Accresce para mais fundamentar a nossa opinião, que M. Fauriel menciona uma historia-romance da destruição de Jerusalem por Vespasiano escripta em provençal, e que elle classifica como livro connexo com o cyclo das novellas do Santo Graal[158]

No celebre manuscripto da Corte Imperial, capitulo IX, cita-se um poema erudito o Ovidio da Velha, escripto no seculo XIV em latim com o titulo De Vetula, por Richard de Fournival, e traduzido para verso francez pelo mesmo tempo por João Lefèvre. Ovidio e Virgilio foram os dois poetas queridos da Edade media; Virgilio era tido como o oraculo de toda a sciencia, vendo os theologos n’elle um propheta, e os jurisconsultos um interprete das leis; Ovidio foi mais popular, por que as suas Metamorphoses seduziam as imaginações, e os prégadores moralisavam sobre os seus versos. A predilecção extrema por Ovidio deu causa a uma immensidade de obras apocryphas, das quaes o poema De Vetula é um d’esses contos attribuidos no seculo XIV e XV ao poeta. Eis o trecho da Corte Imperial: «bem sabedes que hun grande poeta muy genhoso e muy sotil ante os outros poetas foy o que ouve o nome Ouvidio Naso e foi gintil. E este fez muitos livros antre os quaes antes da sua morte compos hun livro que chama Ouvidio da velha, e este livro foy achado em no seu muymento cõ os seus ossos en hua cansela de marfim.»—«todas estas cousas sobreditas que dise o poeta Ouvidio Naso som scriptas em aquele seu livro que chamam Ouvidio da Velha, o qual vós diviades a saber pelas quaes cousas bem parece que este poeta gintil asás profetizou de Jehsus xpõ e da sua ley e rraramente segundo avedes ouvido.» No canto III do poema é que se encontra a referencia da Corte Imperial relativa á influencia dos planetas no apparecimento das religiões. Como viria para este paiz o poema de Richard de Fournival?

Na côrte do rei D. Duarte já predominava a paixão pelas obras da antiguidade; no Leal Conselheiro conta as boas conversas que elle e seus irmãos tinham com o rei seu pae; discutia as regras para se traduzirem bem as obras classicas; o infante D. Pedro traduziu para portuguez o livro De Officiis de Cicero, e compilava na Virtuosa Bemfeituria trechos dos moralistas romanos e dos padres da egreja. As tragedias de Seneca eram lidas por Azurara, na livraria de D. Affonso V, herdada de D. Duarte. Essa erudição apparatosa apparece na encyclopedia moral chamada o Leal Conselheiro; o rei D. Duarte falla já com certo desdem da leitura das novellas: «cá se o leeren ryjo, e muito juntamente, como livro de estorias, logo desprazerá, e se enfadarom del, por o nom poderem entender nem renembrar...» (p. 500.) Dos Contos da Edade media ou Exemplos, de que a Gesta Romanorum era a mais afamada collecção, falla tambem com desdem o rei D. Duarte: «E daquesta guysa erramos per este desassessego: se no tempo de orar e ouvir oficios divinos, nos conselhos proveitosos, fallamentos ou desembargos, levantamos estorias recontando longos exempros.» (p. 192.) E falla das novellas como simples diversão: «para despender tempo ou se desenfadar com o livro d’estorias em que o entendimento pouco trabalha por entender ou nembrar.» (p. 7.) No Leal Conselheiro encontra-se o exemplo das Duas barcas, (p. 447) e o do Filho prodigo (p. 61) tão vulgarisado em todas as fórmas da arte da Edade media. A norma do Exemplo é o conto popular introduzido nos sermões a pretexto de pela lisonja do gosto tradicional incutir uma noção de moralidade. A Reforma acabou com os Exemplos nos sermões; Calvino, na Epistola a Sadoleto, diz que uma parte dos sermões se gastava: «em fabulas divertidas e especulações recreativas para excitar e mover o coração do povo á jovialidade.»

Só no seculo XVI é que Gonçalo Fernandes Trancoso, deu redacção litteraria a Exemplos e Contos da Edade media, não com o espirito secular e revolucionario de Boccacio, Sacchetti ou Fiorentino, mas com um intuito catholico de moralisação. Foi principalmente das fontes dos novellistas italianos que elle se serviu.

Tanto na litteratura hespanhola como na portugueza os ramos interminaveis do Roman du Renart não chegaram a lançar a sua efflorescencia; o rigorismo catholico e auctoritario n’estes dois paizes, não deixaria elaborar esse poema de revolta; escreve Du Méril: «Nos poemas do Renart não podia haver outra superioridade real senão a argucia e a força, d’onde resultavam tendencias democraticas e anti-clericaes, que os impediriam de adquirir uma grande popularidade nos paizes aristocraticos ou profundamente catholicos. Tambem os inglezes, os hespanhóes e os italianos não tiveram poemas do Renart[159] Em Hespanha o Renart é conhecido com o nome de Guinarda, e em Portugal com o de Golpelha (de Vulpecula), e em um Auto de Jeronymo Ribeiro falla-se em Raposias, no sentido de logro e de argucia.

O cyclo immenso da epopêa burgueza de Renart divulgou entre o povo um grande numero de anexins, já pela antiga fórma metrica, já pelas situações comicas a que alludem; encontramos nos escriptores do seculo XV, e mais frequentemente do seculo XVI:

O Lobo e a Golpelha

Fizeram uma Conselha.

A Golpelha (diminutivo de vulpes) é a pequena raposa ladina; na linguagem castelhana a Conseja ou Conselha é a designação vulgar do conto tradicional. Um outro anexim:

Da pele alhea