1.o Periodo (Seculos XII a XIV):

Trovadores portuguezes.—A poesia provençal entrou na peninsula hispanica especialmente pela Galliza, quando Portugal se achava ainda incorporado no seu territorio. Eram da Gasconha, pertencente á eschola poetica da Aquitania, os trovadores que aqui penetraram, entendendo-se pela homogeneidade da tradição, dos costumes e da linguagem. Pelo casamento de D. Affonso Henriques, o primeiro monarcha portuguez, com uma princeza italiana, assim como nos apropriámos das fórmas municipaes (o Podestariado) tambem conhecemos a poesia dos trovadores que em grande numero se haviam refugiado na Italia por causa da absorpção monarchica da França do norte. Peire Vidal, Marcabrun e Gavaudan o velho, que vieram a Portugal ou a elle se referiram, tinham passado a parte principal da sua vida na Italia. No Cancioneiro da Vaticana determina-se esta phase de iniciação italo-provençal: ha importantes referencias a Sordello, de Mantua, e abundantes italianismos, como: Cajon, Mensonha, Mentre, Pelegrin, Toste, Ledo, Nozir, Solaz, Guirlanda, Dolçor, Vergonça, Potestade, etc. No Cancioneiro Colocci-Brancuti acham-se em portuguez canções assignadas por Bonifazio Calvo, de Genova.

O desenvolvimento completo da poesia trobadoresca deu-se na côrte de D. Affonso III por circumstancias implicitas nas transformações politicas portuguezas. Contra o systema administrativo de D. Sancho II insurgiram-se o clero e a nobreza, e depois da escaramuça violenta da Lide do Porto, os bispos mais audaciosos foram para Roma conspirar para a deposição do monarcha, e a nobreza emigrou para França, refugiando-se junto do princepe D. Affonso, que se distinguia pela sua estremada bravura na côrte de San Luiz. Então estava o lyrismo provençal em moda no norte da França, e o conde de Champagne com outros senhores serviam-se das subtilezas das allegorias trobadorescas para cortejarem a formosa rainha viuva Branca de Castella. N’essa côrte cavalheiresca residira D. Affonso desde 1238 a 1246; para junto d’elle é que emigraram os fidalgos das familias dos Bayões, Porto-Carreros, Valadares, Alvins, Nobregas, Mellos, Sousas e Reymondos, appellidos dos principaes trovadores que assignam as composições dos nossos trez valiosos Cancioneiros fragmentarios. Apoiado n’esse partido de revolta dos grandes vassallos, D. Affonso fez um desembarque furtivo em Portugal, e foi recebendo a homenagem dos principaes Alcaides dos castellos; refugiou-se o irmão em Toledo, e só depois da morte d’este é que D. Affonso se acclamou rei. Uma Satyra violenta contra os Alcaides traidores, revela-nos que já no reinado de D. Sancho II se cultivava e reconhecia a importancia da poesia trobadoresca. Nas Canções dos codices da Ajuda e da Vaticana verifica-se a influencia directa do norte da França: uma traz o retornello Que je soy votre ome-lige, outra imita as fórmas épicas e chama-se Gesta de Maldizer, outra seguindo o gosto das pastorellas falla no Caminho francez. E nos costumes da casa real ordenava-se que só houvesse trez jograes na côrte.

Dom Affonso III deu os principaes cargos da nação aos seus partidarios, e tratou de desfazer o seu casamento com a Condessa de Bolonha, para casar com uma bastarda de D. Affonso o Sabio. Assim se aproximaram as duas côrtes, principalmente quando D. Diniz tambem se mostrou apaixonado da poesia provençal como seu avô. Ou para lisongear Affonso o Sabio ou pela propria predilecção, D. Affonso III deu a D. Diniz uma educação litteraria completa; o fragmento de uma Poetica provençalesca do principio do Cancioneiro Colocci-Brancuti, mostra-nos quanto eram estudados os segredos da metrificação limosina; com intuitos de arte é que são imitados os Lais bretãos, e as Pastorellas aquitanicas com as Serranilhas gallezianas. O conhecimento da arte trobadoresca fez renascer a dignidade do que inventava a canção, do trovador sobre o jogral, que só cantava mercenariamente. A influencia do meio-dia da França resente-se no subjectivismo exagerado das canções de D. Diniz, em contradicção com as suas aventuras amorosas. O gosto elevado que o monarcha mantinha pelo lyrismo provençal foi causa da extraordinaria actividade poetica da sua côrte, que se tornou o centro de concorrencia dos jograes e trovadores da Galliza, de Leão, de Castella e de Aragão, aos quaes distinguia com grande liberalidade. Até os seus dois bastardos D. Affonso Sanches e D. Pedro figuram entre os trovadores.

Modificou-se o gosto poetico, oppondo aos typos limosinos os varios generos gallezianos, como dizeres, serranas e cantares de amigo, de uma belleza inimitavel. O motivo d’esta corrente era devido ao encontro dos jograes gallegos, mas principalmente á concorrencia dos jograes da Catalunha, Aragão, Leão e Castella, que inconscientemente faziam renascer as fórmas tradicionaes do lyrismo peninsular, hoje definidas pelo phenomeno da irradiação poetica da Aquitania. Ao fallar d’esta corrente galleziana, escreveu o Marquez de Santillana: «d’estas resçevimos los nombres del arte, asi como maestria mayor e menor, encadenados, lexapren e mansobre.» No Cancioneiro de Baena, em que ha uma forte influencia gallega, se lê: «Sin doble-mansobre, sensillo ó menor

Nas luctas de D. Affonso II com suas irmãs, e nas de D. Affonso III com a aristocracia, muitos fidalgos portuguezes refugiaram-se na Galliza, explicando-se por esta circumstancia esse esplendor poetico da Galliza, quando ella já não tinha autonomia politica nem acção historica. A imitação do trovar gallego, tanto em Portugal como em Castella no tempo de Affonso o Sabio, indica que a Galliza se tornaria uma Provença peninsular se a posse d’esse estado não fosse duramente disputada pelos diversos reinos unificados da Hespanha. A Galliza perdeu a sua autonomia com a constituição das novas monarchias; e a lingua, tornando-se uma especie de dialecto occitanico para a peninsula, decaíu por falta de vitalidade nacional. O grande vigor poetico d’este povo tornou a reflectir-se em Portugal e Castella no fim do seculo XIV e XV, com Villasandino, Rodrigues del Padron e Vasco Pires de Camões.

Com a morte do rei D. Diniz, o centro da actividade poetica deslocou-se para Castella, agrupando-se os trovadores das outras côrtes peninsulares junto de Affonso XI, que tambem era trovador. Os cavalleiros portuguezes continuaram a frequentar a côrte poetica de Affonso XI, e são admiravelmente bellas as Barcarolas compostas por occasião da batalha do Salado, em que elles tão generosamente figuraram. D. Affonso IV detestava seus irmãos bastardos, e parece não ter protegido a cultura trobadoresca, estimando mais as fórmas da Novella em prosa; por este despeito o Conde D. Pedro deixou em testamento o seu Livro das Cantigas a Affonso XI.

A poesia trobadoresca portugueza-galleziana parecia cahir outra vez no automatismo popular, mas um facto politico, a tendencia separatista, suscitou um novo fervor litterario como manifestação do seu individualismo; brilham Macias, Rodrigues del Padron e Villasandino, e os documentos d’esta lucta da eschola galleziana contra a imitação do gosto italiano enchem o Cancioneiro de Baena, e explicam-nos a natureza do conflicto que se repetiu no seculo XVI, quando Castillejos se oppunha á invasão do lyrismo italiano propagado por Garcilasso e Boscan. Em Hespanha a influencia petrarchista prevaleceu pela acção da eschola sevilhana; em Portugal desconheceu-se essa influencia. Muitas cidades da Galliza tendo abraçado o partido de D. Fernando contra Henrique II de Castella, na esperança de alcançarem a antiga independencia, ao perderem a causa varios fidalgos gallegos tiveram de refugiar-se em Portugal. O principal d’entre esses emigrados politicos era Vasco Pires de Camões, terceiro avô do grande épico portuguez; perdeu-se uma boa parte das composições poeticas anteriores ao Infante D. Pedro, como o confessa Resende no prologo do Cancioneiro geral. O nome de Macias tornou-se em Portugal synonimo de apaixonado; conservaram-se com grande vitalidade as fórmas trobadorescas gallezianas, (em Gil Vicente, Sá de Miranda, Christovam Falcão e Camões), e não será indifferente indicar que são descendentes d’esses fidalgos emigrados da Galliza alguns dos nossos principaes poetas quinhentistas.

Novellas de Cavalleria:—O Amadis de Gaula.—Quando as Canções de Gesta iam recebendo a fórma litteraria, decahia ao mesmo tempo a organisação da sociedade feudal, e a lucta dos grandes vassallos contra a realeza terminava pela impotencia diante de um elemento poderoso pelo seu numero, o proletariado. A Gesta já não podia ser mais do que a expressão de saudade pelo que acabava; e essa aspiração do passado era um ideal, a Cavalleria, em que a individualidade do heroe faz lei á sua vontade motivada por impetos de justiça. Porém, as virtudes do cavalleiro tornaram-se quixotescas, desde que disciplinada a força no exercito permanente, e convertida a justiça em ministerio publico, o heróe comprimido entre as communas e a realeza, estava egualado no mesmo codigo. A litteratura reflectiu esta instabilidade; a Gesta não tendo que idealisar, decahiu na prosa e achou um novo interesse na aventura amorosa da Novella. Segundo Victor Le Clerc e Léon Gautier, nenhuma Canção de Gesta apparece reduzida á prosa antes do seculo XV; é em Portugal que se inicia essa transformação na côrte de D. Diniz. A politica do reinado de D. Diniz e a situação de Portugal explicam-nos o phenomeno. Com a conquista do Algarve sob D. Affonso III acabaram as expedições militares contra os sarracenos, e por tanto a intervenção do poder senhorial. D. Diniz tirou as consequencias do facto, fazendo renascer o direito romano na restauração dos direitos magestaticos segundo o Digesto, e submettendo a Nobreza ao fôro de el-rei, pelo estabelecimento do cadastro dos Livros de Linhagens. Á situação subalterna da nobreza corresponde a maior intensidade dos divertimentos palacianos, no lyrismo dos Cancioneiros trobadorescos, e na paixão com que se liam as Novellas amorosas, como as de Tristão e Brancaflor. Entre essas novellas figura uma mais ou menos rudimentar de um typo da absoluta fidelidade no amor, o Amadis; era celebrado em França no poema de Amadas et Ydoine, na Inglaterra no Sir Amadace, na Hollanda, Italia e Hespanha citava-se a Chacone de Amadis. Vê-se por tanto que a invenção d’este argumento novellesco não pertence a Portugal, mas em Portugal é que recebeu a fórma em prosa litteraria definitiva. No texto castelhano do Amadis de Gaula ainda se conserva uma canção, que se acha assignada por João Lobeira no Cancioneiro Colocci-Brancuti, como vestigio da primitiva redacção portugueza.

D. Affonso IV, quando princepe e em dissidencia com seu pae, proferiu ao subjectivismo trobadoresco as narrativas das Novellas amorosas; este facto determinou uma nova redacção no Amadis de Gaula: no capitulo 40 do livro I, do actual texto castelhano, conservou-se a sigla da emenda mandada fazer por este princepe na estructura da Novella em relação ao episodio de Briolanja. Esta sigla no texto castelhano de Montalbo manifesta uma primitiva redacção; e pelo retoque imposto pelo princepe se estabelece a relação da Novella em prosa para com um texto poetico d’onde saíu e ao qual em outros poemas da Edade media ha numerosas referencias. Varios poetas castelhanos do Cancioneiro de Baena referem-se aos trez livros do Amadis de Gaula; a existencia do quarto livro, que não foi escripto por Montalbo, é que pertencerá a Vasco de Lobeira, do tempo do rei D. Fernando, como o affirma Azurara, attribuindo a esse tempo a redacção da novella. Na nobreza de Portugal eram frequentes no seculo XIV os nomes de Oriana e de Idana (do francez Ydoine), o que revela a influencia profunda da Novella antes da sua vulgarisação pela paraphrase castelhana.