Talvez em nenhum outro povo a imitação da Cavalleria, ou propriamente o Quixotismo, penetrasse mais nos costumes do que em Portugal, onde o nosso typo comico contraposto ao Ratinho é o do Fidalgo pobre. Davam-se no principio do seculo XV duas fortes correntes antagonicas na civilisação portuguesa: a burguezia tendia á preponderancia politica pelas magistraturas e pelas descobertas maritimas; a nobreza imitava acintosamente os feitos de armas segundo a Cavalleria, que tinha passado. Partiam as caravellas para as expedições das costas da Africa e Ilhas oceanicas, e ao mesmo tempo os Paladins sahiam em desaggravo das damas, como os Doze de Inglaterra, e os cavalleiros Gonçalo Ribeiro, Vasco Annes e Fernão Martins de Santarem que foram correr aventuras por Hespanha e França. As cerimonias da vida cavalheiresca caracterisam as práticas da côrte de D. João I e de D. Duarte, e simultaneamente domina a predilecção litteraria pelas Novellas. Para a lingua portugueza se traduziu e paraphraseou a Demanda do Santo Graal; lia-se o Galaaz, a ponto do Condestavel o tomar por modelo; e na sua opulenta livraria o rei D. Duarte guardava o Tristão e a Historia de Troia. O Amadis de Gaula exerceu certa influencia no enthuziasmo de um renascimento tardio da cavalleria, por via da traducção franceza. Fez-se uma vasta série de novellas em sua continuação desde as Sergas de Esplandian até Leandro o Bello. Mas a corrente do renascimento erudito da Antiguidade, quando a egualdade civil minava o feudalismo, desviava a actividade litteraria que punha em novella um ideal ridicularisado. Montaigne fallando da sua educação litteraria do mais exagerado classicismo, diz com entono que nem sequer conhecia pelo titulo as principaes producções da Edade media: «car des Lancelot du Lac, des Amadis, des Huon de Bordeaux, et tel fatras de livres à quoy l’enfance s’amuse, je ne connessoys pas seulement le nom, ny ne foys encores le corps; tant exacte estoit ma discipline.»[204] E em outra passagem refere-se com mais desdem ao Amadis: «Quant’aux Amadis, et telles sortes d’escripts, ils n’ont pas eut le credit d’arrester seulement mon enfance.»[205] Dos humanistas da Renascença e dos moralistas catholicos poderiamos extraír condemnações analogas. O enthuziasmo das obras primas da civilisação greco-romana envolveu em um desprezo mortal todas as tradições, poemas e novellas da Edade media. No primeiro quartel do seculo XVI já o Dr. João de Barros, nas Antiguidades de Entre Douro e Minho, fallando do desprezo em que decahira o original portuguez do Amadis de Gaula, de cuja redacção os hespanhóes se apoderaram, lamenta—que estas cousas se sequem nas nossas mãos.—Era a consequencia do esplendor dos estudos humanisticos, de que fomos corypheos no seculo XVI. A persistencia do ideal cavalheiresco em Hespanha explica-se por uma mais numerosa e opulenta aristocracia e por um intenso catholicismo que lhe tornára antipathica a civilisação polytheica, e suspeitos de heresia os humanistas.
2.o Periodo (Seculo XV):
Os Poetas palacianos.—Com o desenvolvimento da erudição augmenta dia a dia a separação entre os escriptores e o povo. Com o predominio da realeza que avança para a dictadura, a côrte torna-se centro de todas as manifestações artisticas, reduzidas a imitações banaes. Desde o reinado de D. Affonso IV até ao de D. Duarte, dá-se uma grande mudez na poesia portugueza: duas poderosas correntes disputavam a predilecção dos espiritos; era uma a do lyrismo da eschola gallega, e a outra a das ficções do cyclo da Tavola Redonda propagadas pelos aventureiros do bretão Du Guesclin, e tambem pelo casamento de D. João I com uma filha do duque de Lencastre. Absorvidos nos primeiros alvores da Renascença, e mais apaixonados da erudição da antiguidade do que das tradições medievaes, estacámos na imitação do que estava mais no gosto palaciano. Separados de Castella por interesses dynasticos que visavam a unificação politica, ficámos, depois da victoria de Aljubarrota, vacilantes entre o lyrismo galleziano e as aventuras novellescas do genio celtico, ao passo que os Castelhanos avançaram na poesia continuando a tradição provençal reanimada com o platonismo da Italia e com as allegorias dantescas. Ainda a tradição provençal pura procurou manter-se nos costumes, como se vê pela fundação do Consistorio del Gay-saber, em Barcelona, em 1393; mas a nova transformação dantesca e petrarchista seguida pelos poetas Jordi de Saint Jordi, André Fever, traductor da Divina Comedia em catalão, Ausias March, Rocaberti, como precursores de Bocan e Garcilasso, determinou a superioridade do lyrismo hespanhol no seculo XV.
Quando terminaram os odios politicos entre Portugal e Castella, reconheceu-se que nos passára desapercebida a evolução operada na poesia desde Micer Imperial até Juan de Mena. Começou pois a influencia da poesia castelhana sob a regencia do Infante D. Pedro, duque de Coimbra.
Antes porém do influxo de Juan de Mena, amigo pessoal do regente, a tradição provençalesca avivára-se um pouco e indirectamente na côrte portugueza, pelas relações com a côrte de Aragão motivadas pelos casamentos do rei D. Duarte e infante D. Pedro com princezas aragonezas. Na Livraria do rei D. Duarte, guardavam-se traducções aragonezas da Historia de Troya e de Valerio Maximo.
O Condestavel de Portugal, que foi rei de Aragão, por 1464, possuia entre os seus livros as poesias de Petrarcha, e escrevia os seus versos no gosto allegorico. São d’este desgraçado princepe e rei deposto, as outavas em fórma castelhana do Menosprecio do mundo, attribuidas erradamente a seu pae o infante D. Pedro, e as pequenas elegias que sob a rubrica de Elrei D. Pedro (sc. de Aragão) foram attribuidas a D. Pedro I. Póde bem considerar-se o Condestavel de Portugal o chefe d’esta eschola allegorica, a que pertencem os poetas que no tempo de D. Duarte e D. Affonso V floresceram na ilha da Madeira, então centro da aristocracia insulana. O Condestavel D. Pedro escreveu no genero allegorico a Satyra de felice e infelice vida, em que as paixões e os pensamentos são personificados em figuras de mulheres.
Nos poetas do Cancioneiro de Resende, em que prevalece a imitação castelhana, distingue-se essa eschola allegorica perfeitamente caracterisada em Duarte de Brito, que começa a sua visão perdido e embalado pelo canto de um rouxinol; como reminiscencias da Divina Comedia descreve minuciosamente o inferno dos namorados, veste a figura da esperança com todos os seus ornatos symbolicos, adopta as figurações mythologicas da astronomia, e já desenvolve as imagens como que em pequenos poemas a que chama comparação. Na poesia castelhana o Inferno de Amor de Garci Sanches de Badajoz tornou-se o modelo d’este genero de idealisação; o mesmo typo foi tambem imitado por Fernão Brandão na formosa poesia Fingimento de amores. Os caracteres do gosto allegorico manifestaram-se livremente nos processos amorosos dos serões do paço, como o do Cuidar e suspirar, pallido arremedo das Côrtes de Amor da tradição provençalesca. Esta eschola extinguiu-se, por que não foi fecundada pelo influxo do neo-platonismo com que Dante e Petrarcha converteram os rudimentos trobadorescos no esplendido lyrismo italiano que dominou todas as litteraturas romanicas desde o seculo XV.
Depois de acabadas as luctas com Castella, e que se conheceu o esplendor da poesia nas côrtes de Juan II e Enrique IV, já não era possivel attingir-se aquella altura; deslumbrados, imitámol-a e escrevemos em castelhano. O infante D. Pedro escrevia em verso a Juan de Mena, e pedia-lhe a collecção das suas obras; em Portugal, já no principio do seculo XVI, ainda era citado Juan de Mena como o exemplo do poeta de côrte, medrado pelo favor dos reis. As obras do Arcipreste de Hita foram traduzidas em portuguez, como se conhece pelo fragmento da Bibliotheca do Porto; as obras do Marquez de Santillana eram enviadas para Portugal ao Condestavel D. Pedro, a quem dirigia uma Carta com a filiação das escholas poeticas. Os Cancioneiros aristocraticos encerram documentos da communicação das duas côrtes, que avançavam para a unificação politica por casamentos reaes; no Libro de Cantos, manuscripto da Bibliotheca de Madrid, acham-se composições de cinco fidalgos portuguezes; no Cancionero general de Hernan de Castillo figuram bastantes poetas portuguezes, e foi essa collecção o modelo que seguiu Garcia de Resende. No Cancioneiro portuguez já apparecem traducções do latim, como as Heroides de Ovidio, e já se tiram comparações da mythologia.
Dava-se no seculo XV na Europa um phenomeno politico, que acabou de tirar á poesia a sua expansão natural, tornando-a uma insignificativa bajulação dos aulicos; fixára-se o poder real por uma forte dictadura, e acabára a lucta dos grandes vassallos que procuravam manter a independencia senhorial do regimen feudal. O infante D. Pedro foi a nobre victima n’esta lucta, que se renovou sob D. João II, e terminou pela execução do duque de Bragança e pelo assassinato do duque de Vizeu. A imitação exclusiva da poesia castelhana era uma especie de reacção da nobreza, tendendo para a unificação politica sob Fernando e Isabel; a poesia era um passa-tempo da côrte, que servia para celebrar as anecdotas da occasião e encher a inanidade da vida aulica. O numero pasmoso dos poetas aristocraticos revela a frivolidade da inspiração, que se explica pelo desconhecimento do lyrismo italiano, em que nos conservavamos, apezar das relações litterarias e commerciaes que Portugal desenvolveu com a Italia n’este tempo.
Os Historiadores portuguezes.—Com o poder real creava-se tambem a nova fórma litteraria da Historia, á imitação dos antigos, que deixaram memoria dos grandes feitos; era natural que se preferisse para a sua redacção a linguagem latina, pela illusão da sua universalidade. Por 1434 encarregou o rei D. Duarte a Fernão Lopes de reduzir a Chronica as memorias dos antigos reis de Portugal; é um narrador ingenuo como Froissart ou Villani; do seu trabalho se foram apropriando Azurara, Ruy de Pina, Duarte Galvão e Duarte Nunes do Leão. O prurido da erudição começa propriamente em Gomes Eannes de Azurara, que deturpa assim a fórma pittoresca das suas impressões directas das pessoas e dos logares. Em Ruy de Pina ha já o intuito politico, narrando os successos como convinha ao monarcha que o assoldadára, que elles fossem conhecidos. Em uma carta de João Rodrigues de Sá a Damião de Góes lê-se: «o estylo de Ruy de Pina pelos muitos adjectivos e epithetos que se usavam n’aquelle tempo, he muito affeitado.» Cahira-se na imitação do peior modelo da antiguidade, tomando por norma a rhetorica de Tito Livio.