NOTAS DE RODAPÉ:

[204] Essais, liv. I, cap. 25.

[205] Ibid., liv. II, cap. 10.

SEGUNDA ÉPOCA
(SECULOS XVI A XVIII)

Predominio da imitação da Antiguidade classica, e abandono das Tradições nacionaes

1.o Periodo: Os Quinhentistas (Seculo XVI):

PARTE I: Poetas da Medida velha.—A tendencia allegorica da ultima phase da poesia palaciana era um prenuncio da sua transformação. Qual seria ella, comprehendeu-o superiormente Sá de Miranda inspirando-se das obras primas do lyrismo italiano. Antes porém de generalisar-se em Portugal o gosto d’essa nova poetica, mais subjectiva, manifestou-se uma reacção contra os innovadores; o combate não se feriu por alguma theoria de arte ou concepção de ideal, versava apenas na preferencia que se devia manter ao verso octonario ou da medida velha das redondilhas, com exclusão do endecasyllabo. O titulo de Eschola da Medida velha, designa cabalmente o periodo que antecedeu o regresso de Sá de Miranda da Italia, no qual os poetas palacianos pela imitação das allegorias dantescas e já pelo conhecimento da Renascença classica, sem abandonarem as fórmas da poetica hespanhola adoptam o estylo de Theocrito assimilado pelos bucolicos italianos. Bouterwek considera a poesia pastoril portugueza immensamente bella; não resultou esta perfeição de imitações litterarias, mas da aproximação inconsciente das fontes tradicionaes. Nos costumes populares da Peninsula mantinha-se a fórma dialogada dos Villancicos, que coadjuvava a naturalisação e desenvolvimento da Ecloga litteraria. Observa-se essa persistencia nos cantos lyricos intercalados por Gil Vicente nos seus Autos; e o conhecimento das Pastorellas e Serranilhas gallezianas era ainda o que tornava bellas as redondilhas de Christovam Falcão, de Sá de Miranda e de Camões. Este periodo de transição no gosto apoia-se na sympathia dos poetas pelos elementos tradicionaes das pastorellas. Bernardim Ribeiro é o corypheu dos bucolistas, conhecedor dos Villancicos e Romances populares, a que deu fórma allegorica; soube alliar a naturalidade com os dialogos pastorís, a profundidade do sentimento com a simplicidade. A belleza inexcedivel das suas Eclogas resulta da realidade palpitante dos desgraçados amores com Aonia, a sua prima D. Joanna Zagalo. Pela amisade com Sá de Miranda, chegou a conhecer a eschola italiana, a nova frauta, de que faz menção a Ecloga Aleixo, onde Miranda descreve a sua desgraça.

Depois de Bernardim Ribeiro, foi o seu intimo amigo Christovam Falcão o que levou mais alto o esplendor d’este lyrismo hispano-italico; a ecloga Crisfal, em que pinta o desventurado amor com D. Maria Brandão, irmã mais moça dos dois poetas do Cancioneiro geral Diogo e Fernão Brandão, não tem cousa que se lhe compare nas litteraturas da Europa.

Tambem se explicará a sua superioridade pela aproximação dos elementos tradicionaes do lyrismo portuguez: no Crisfal vem intercalado um canto de ledino.[206] Todos os outros poetas quinhentistas, á excepção do Dr. Antonio Ferreira, começaram os seus tentames pela redondilha popular, designada litterariamente trova ou verso de Cancioneiro.

Sá de Miranda, que escreveu bellissimas Eclogas e Cartas em redondilhas, satyrisou os que tanto reagiam contra a nova poetica italiana, e condemnava os que mantinham o uso anachronico de uma triste Esparsa, de uma Glosa ou Mote velho, de uma pobre Volta com seu Cabo. A moda palaciana sustentava o estylo de Cancioneiro, por uma tradição aristocratica. Em uma carta de Soropita, escripta depois de 1589, caracterisa-se esta especie de metrificadores: «Achei n’esta companhia a saber ... um poeta ancião, ainda pela medida velha.» Devem comprehender-se sob esta designação propriamente os poetas que antipathisavam com a novidade vinda de Italia, pelo terror pelas ideias da Reforma; e tambem os que tiveram certa communicação com o povo, para quem compunham redondilhas moraes e romances com fórma litteraria. Pertencem á primeira cathegoria, D. Luiz da Silveira, Jorge Ferreira de Vasconcellos e Garcia de Resende; na segunda sobresae o vulto gigante de Gil Vicente, cujas Obras meudas se perderam. Nos seus Autos acham-se romances em redondilhas, que entraram na corrente popular como o D. Duardos, e bellas serranilhas semelhantes aos typos dos nossos Cancioneiros trobadorescos. As Trovas do Moleiro de Luiz Brochado, os Arrenegos de Gregorio Affonso e Avisos para guardar, do Chiado, tornaram-se vulgares; as Trovas de Gonçalo Eannes Bandarra, com a fórma rudimentar de eclogas, chegaram a actuar na sociedade portugueza, como se lê no seu processo do Santo Officio. As redondilhas do poeta cego Balthazar Dias, taes como Malicia das Mulheres, Conselhos para bem casar, não fallando dos seus Autos hieraticos, ainda hoje formam parte essencial da Litteratura de cordel, ou popular.