O numero 613 e 639 são uma mesma canção de João Ayres, burguez de Santiago; abundam as variantes entre estas duas composições, signal de que provieram de duas copias resultantes da monomania dos cancioneiros particulares. E sob o nome d'este mesmo trovador andam as duas canções repetidas 634 e 138, tendo esta ultima alem das variantes mais uma estrophe e um Cabo.
Em nome do jogral João Servando apparecem repetidas as canções 738 e 749 com variantes fundamentaes entre si:
Ora vou a Sam Servando,
donas, fazer romaria,
e nom me leixam com elas
hir, cá logo alá hiria
por que vem hy meu amigo. (738)
Donas vam a Sam Servando
muytas hoje em romaria,
mais nom quiz oje mha madre
que foss' eu hi este dia
por que vem hy meu amigo. (749)
As outras variantes nas demais strophes são menos reparaveis, mas no numero 738 ha uma strophe a mais. A pequena distancia a que ficam uma da outra estas canções, provam-nos que o copista italiano transcreveu materialmente uma compilação já formada; e por tanto tudo quanto se pode concluir sobre estas canções identicas liga-se á formação d'esse cancioneiro perdido d'onde se trasladou o codice da Vaticana.
Dois casos especiaes se davam n'essa formação do antigo cancioneiro: 1° ou as canções se attribuiam na repetição a dois trovadores differentes taes como Sancho Sanches e Pero da Ponte, João de Guilhade e Stevam Froyam, Pay Soares e Affonso Eanes do Cotom, Martim Moxa e Lourenco Jograr; 2° ou se repetiam em nome do mesmo trovador, como Mem Rodrigues Tenoyro, el-rei D. Diniz, Ayres Nunes Clerigo, João Ayres, e João Servando. Para o primeiro caso conclue-se que contribuiram para a formação do grande cancioneiro pequenos cancioneiros trasladados de cantares dispersos, por curiosidade, ou tambem apanhados na corrente oral, porque um só collector notaria os plagiatos. Para o segundo caso poderiam os jograes terem contribuido com os seus cadernos de cantos e assim com lições differentes de um mesmo texto que se alterava pelas continuadas repetições.
De todo este confronto se conhece a necessidade de estabelecer por todos os meios possiveis ás relações entre este apographo da Vaticana e os dois cancioneiros de Colocci, perdido, e o da Ajuda.
Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro de Angelo Colocci.—Antes de Monaci haver descoberto no Ms. n°. 3217 o Indice do Cancioneiro perdido do erudito quinhentista italiano Angelo Colocci, ja elle determinara pela forma por que está escripto o Cancioneiro da Vaticana, que deveria ter existido um original mais antigo e mais completo. A descoberta do Indice veiu authenticar a existencia d'esse Cancioneiro perdido e explicar pela letra do proprio Colocci, quem é que tinha feito o confronto. O illustre Monaci comprehendeu logo quanto util seria para a critica o comparar a lista dos trovadores do Cancioneiro perdido com a dos trovadores do Cancioneiro existente (Appendice I, p. XIX a XXIV); por uma simples inspecção fica o leitor habilitado a conhecer as profundas relações entre os dois cancioneiros; o de Colocci continha mil seis centas e setenta e cinco canções, e o da Vaticana contem mil duzentas e cinco, isto é, quatrocentas e setenta canções a menos, por ventura as que occupavam até a fol. 90. O numero das canções de cada trovador pode tambem ser confrontado, porque no Codice de Colocci as canções de Colocci eram numeradas por algarismos e cada nome de trovador é precedido pelo numero que limita as canções do antecedente. Assim, como já acima vimos, as canções de D. Diniz são no Codice da Vaticana cincoenta e uma a mais do que no de Colocci. Apezar d'isso as notas desunt multa provam-nos que o Cancioneiro de Colocci era muito mais rico, como se vê pelos nomes dos seguintes trovadores que faltam no da Vaticana:
Diego Moniz, que tinha ali uma canção; Pero Paes Bazoco, com sete canções; João Velaz, Dom Juano; Pero Rodrigues de Palmeyra; Dom Rodrigo Dias dos Conveyros; Ayres Soares; Osorio Annes; Nuno Fernandes de Mira-Peixe; Fernam Figueiredo de Lemos; Dom Gil Sanches; Ruy Gomes o Freyre; João Soares Fomesso; Nuno Eanes Cerzeo; Pero Velho de Taveirós; Pay Soares de Taveirós; Fernam Garcia Esgaravunha, do qual existiam dezessete canções; João Coelho; Pero Montaldo; duas canções do trovador genovez Bonifacio Calvo; o Conde D. Gonçalo Garcia; Dom Garcia Mendes de Eixo; El rei Dom Affonso IV, filho de el-rei D. Diniz, com quatro canções. No Codice de Colocci, as canções de D. Diniz não estavam em um corpo isolado, apresentando mais quatro composições destacadas no fim do cancioneiro. Esta parte tambem é omissa no Cancioneiro da Vaticana, por que aí se encontram outra vez trovadores dos supracitados, como João Garcia, D. Fernam Garcia Esgaravunha, Pero Mastaldo, Gil Peres Conde, Dom Ruy Gomes de Briteiros, Fernam Soares de Quiñones, etc. Pelo confronto do Indice de Colocci se conhece, que embora se sigam ao texto do Cancioneiro da Vaticana quatorze folhas em branco, nem por isso ficou muito distante do fim, por que só deixaram de ser copiadas algumas sirventes de Julião Bolseyro. D' este confronto se conclue: 1°. que o codice d'onde se extraíu a copia da Vaticana differia no numero das canções e na sua disposição do de Colocci; 2º. que as relações mutuas accusam fontes communs, mas colleccionação arbitraria no agrupamento dos differentes cancioneiros parciaes.
Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro da Ajuda. — Lopes de Moura foi o primeiro que encontrou na collecção da Vaticana a canção de João Vasques, Muyt'ando triste no meu coraçom, que existe anonyma no Cancioneiro da Ajuda. Logo depois, Varnhagem achou mais quarenta e nove canções communs aos dois codices, e nós mesmo ainda viemos a encontrar mais seis canções repetidas. São ao todo cincoenta e seis canções communs, facto importante para estabelecer as relações, que existiram entre os dois cancioneiros. Em primeiro logar, o Cancioneiro da Vaticana foi já copiado de um codice truncado, como por exemplo: a canção 43 tem a rubrica final: "Fol.97 desunt multa" e a canção seguinte está truncada no principio; porem estas canções de João Vasques completam-se pelo Cancioneiro da Ajuda, canção n°. 272 e 273 (ed. Trovas e Cantares). Isto prova, que embora o Cancioneiro da Ajuda esteja truncado e por seu turno se complete com algumas canções do codice de Roma (y, das Trovas == n°. 38, Canc. da Vat.) ambos provieram de fontes differentes, porque tambem nas cincoenta e seis canções communs existem notaveis variantes: