Sobre o horisonte, quanto a vista alcança,
Reluz vaga esperança:
Branca vela! da salvação signal:
—É o Sonho do Ideal.
Succede á calmaria a viração,
—Do Amor a aspiração,
Que as nuvens da borrasca longe espalha!
A vela branca assoalha.
Nas auras fluctuando—esse estandarte
Nos leva ás regiões da Arte.
Que importa Syrtes ou parceis? agora
Resplandece outra aurora,
Um céo azul n'esses teus olhos! Vêl-o,
E certo rumo—o Bello!
Como busca outro clima uma andorinha,
Que o calor adivinha,
Fugimos! Crente, á prôa
A alma para ti vôa...
Pelo mar largo assim vamos os dois
Devaneando... Depois,
N'este enlevo sem fim, perdido o norte,
Que seja o porto a morte!»
Apenas acabára a recitação dos Homeristas, já appareciam na sala os Parasitos para dizerem chascos e graçolas; mas o Consul Quinto Fabio deu ordem para que se retirassem.
—O que desejará agora o Consul? diziam uns para os outros. Talvez alguma Tragedia? Que venha já immediatamente o Graeculo.
Quinto Fabio ouvira fallar n'uma crença que os Povos da Lusitania tinham sobre os poderes maravilhosos de uma Cerva branca; constava-lhe que um velho poema barbaro celebrava esse mysterio, pelo qual se explicava o prestigio dos homens politicos. Foi trazido um prisioneiro lusitano, que se lembrava de numerosas estrophes do Poema.
Disse-lhe o Consul:
—Tens a liberdade, se me recitares o Poema da Cerva branca.
—É o Poema de Abidis, do Principe fadado por invencivel diante de todos os perigos, e sempre subjugado pelo Amor. N'esse poema está symbolisado o genio da nossa raça lusitana: luctando indomavel até á morte, mas deixando-se morrer de amor.
—Canta ou recita esse poema; e terás a liberdade.
O prisioneiro sentiu uma immensa alegria quando lhe tiraram as algêmas; e começou em uma melopêa estranha, que absorveu a attenção dos convivas:
Rimo de Abidis