Ouviu negro vaticinio
O rei Górgoris um dia:
Que do seu throno dourado
Um neto o despenharia!
Mandou fechar n'uma torre
Distante, redonda, esguia,
A Princeza sua filha,
Unica herdeira que havia.

Triste, cativa a Princeza,
Cantava de noite e dia,
Para encher a soledade
Nas angustias que soffria.
Passa um Cavalleiro perto,
A doce musica ouvia;
Mas, como subir á Torre?
Tão alta! quem poderia?
Deixára soltar as tranças,
E até á terra descia
Seu fino e lindo cabello
Por onde o moço subia.
As noites eram auroras
Da mais intima alegria,
E as ausencias tornavam
Cada vez mais negro o dia;
Até que d'esses amores,
Que ninguem suspeitaria,
Ao cabo de nove mezes
Formoso Infante nascia.
Boas Fadas o fadaram,
A qual mais dons lhe daria:
Invencivel aos perigos
Serà! uma fada dizia.
De amores sempre vencido,
Outra fada retorquia.
Toma o rei Górgoris conta
Do Infante apenas nado,
Que traz o nome de Abidis
No cinto em que é enfaixado.
Sempre o negro vaticinio
Ao velho rei é lembrado;
Só pensa em salvar o throno,
Leva ao crime tal cuidado.
Em uma estreita azinhaga
Deixa o neto abandonado,
Por onde passa correndo
Sua boiada, seu gado.
Pelo poder do destino
Não foi o Infante calcado!
O velho rei recrudesce
No odio ao neto votado,
E manda lançal-o ao monte
Certo de ser devorado
Por algum lobo faminto
Ou serpente do vallado.
Foram dar com elle rindo
Na relva fresca do prado,
Lá por uma Cerva branca
Com carinho amamentado!

O velho rei mais raivoso
Mandou arrojal-o ao mar,
Crendo que as aguas profundas
Hão de a criança afogar.
A onda a que a arremeçaram
Á praia a vem entregar!
Então Górgoris conhece
Que a Deusa Hertha o quiz salvar.
Estrella do Mar se chama
A essa diva lunar,
Que traz por sagrado emblema
Uma Cerva branca a par.

Por causa da Cerva branca
Veiu tanto odio a acabar.
O rei Górgoris tem gloria
De Abidis seu reino herdar:
Como o neto, resistente
Seu Imperio hade ficar,
Annunciando-lhe a grandeza
Aquella Estrella do Mar!

Aproveitando-se de uma pausa ou hesitação de memoria do prisioneiro, disse-lhe o Consul Quinto Fabio:

—Já faço ideia do poder da Cerva branca; conta agora algum lance d'esse invencivel Abidis, sempre vencido de amores.

—Ah! toda a historia de Abidis ou Amadis, é quasi inteiramente de amores; dava para encher muitos dias e seroar noites com peripecias sempre de encantar. Começo por uma

Declaração de amor

Apalpando o lado esquerdo
Não achei o coração!
Na repentina surpreza,
Com tamanha inquietação,
Conheci que m'o furtaram,
Não sei bem a occasião...
Fui logo á procura d'elle
Buscando o rasto no chão,
Escutando attentamente,
Se lhe ouvia a pulsação!
Talvez esteja perdido
Em remota solidão?

Quando já sem esperança
Cahia na decepção,
Fui dar com elle fechado
Em nevada, fina mão!
Não me atrevi a exigil-o,
E eu mesmo, sorrindo então,
A quem assim m'o levára
Tive de pedir perdão,
Porque ha no amor a furto
O philtro da tentação.