Os principes ligaram-se entre si, e fizeram sobre os camponezes uma verdadeira chacina. Calcula-se que chegasse a cincoenta mil o numero dos massacrados.

Esta espantosa catastrophe prejudicou immenso a Reforma.

Alguns dos nobres attribuiram a Luthero tudo quanto tinha acontecido, e moveram-lhe uma feroz opposição. A Reforma perdeu a influencia que tinha sobre as classes pobres, que se deixaram dominar pela idéa de que Luthero as havia abandonado; e entregaram-se com facilidade aos excessos anabaptistas, que tanto damno causaram á religião n’aquelles tempos. O proprio Luthero perdeu algum tanto da sua firmeza e da sua coragem, e repudiou algumas das suas antigas opiniões. Todas estas coisas foram um atrazo para a Reforma. Ha quem tenha, mesmo, pensado que a revolta dos camponezes e a falta de coragem que Luthero mostrou n’essa occasião e depois d’ella tiveram por effeito o ser a obra evangelica tirada das mãos de Luthero e da Allemanha e confiada ás de Zwinglio e da Suissa.

Luthero perdeu, durante a revolução, o seu protector e a Allemanha o maior dos seus principes. Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia, havia morrido.

Havia pedido ao irmão, que era o seu successor, e que havia partido para a guerra, que usasse de benevolencia com os camponezes; e os seus ultimos pensamentos foram para os maltratados servos. «Nós, os principes, fazemos muitas coisas aos pobres que não deviamos fazer.» exclamou elle, e pouco depois, tendo sido sacramentado, falleceu.

As Dietas de Spira, em 1526 e 1529.—O imperador ainda não havia voltado á Allemanha desde que se ausentara d’ella depois da Dieta de Worms. Estava em Hespanha, constantemente occupado com a sua idéa de abater o poder da França. Em 1525 esteve quasi a ver os seus planos coroados de bom exito. Deu-se a batalha de Pavia, e Francisco I de França, desbaratado o seu exercito, caiu prisioneiro nas mãos do imperador seu rival. A Confederação de Madrid, que se seguiu a isto, punha Francisco na obrigação de auxiliar Carlos a reprimir a revolta que contra a Egreja se havia excitado na Allemanha; e os termos em que essa obrigação estava formulada mostravam o quão attentamente havia observado os progressos da Reforma e o quão empenhado estava em subjugal-a. Deu ordem para que fossem postas em pratica as disposições da Dieta de Worms, dando assim claramente a entender que não consentia que dentro do imperio se propagassem as doutrinas de Luthero, e para reforçar essa sua intimativa propoz que ella fosse perfilhada por uma Dieta que se reuniria em Spira.

As intrigas politicas mais uma vez o impediram de voltar á Allemanha. O papa que dominava em Roma era Clemente VII, da familia dos Medicis, e em toda esta questão zelou mais os interesses do seu principado italiano do que os da egreja de que era chefe. O papa não queria que Francisco e Carlos se reconciliassem. Receiava que os pequenos estados italianos ficassem prejudicados com a approximação dos dois grandes monarcas, e por esse motivo acariciava o plano de uma outra guerra europea. O imperador ainda não tinha conseguido o descanço de que necessitava para poder ir em seguida liquidar pessoalmente os negocios da Allemanha. E assim o proprio papa estava n’aquella occasião favorecendo a Reforma.

Quando os principes allemães se reuniram em Spira, tornou-se logo bem manifesto que um grande numero d’elles não desejava que Luthero e as suas doutrinas fossem banidos da Allemanha; e a Dieta, de que se esperava a aniquilação da Reforma, promulgou um decreto tolerando-a. Este famoso edicto, que foi n’aquelle tempo considerado como uma garantia de tolerancia quanto á religião evangelica, declarava que em materia de religião todos os estados se deviam comportar por tal fórma que estivessem promptos a responder por si deante de Deus e de sua Magestade Imperial. Assim ficou cada um dos estados auctorizado a declarar que religião se professaria dentro dos seus limites, e aquelle edicto foi como que uma predicção da paz de Augsburgo, que determinou praticamente a religião official da Allemanha, essa religião que ella ainda hoje mantem. Os estados que abraçaram as doutrinas evangelicas ficaram, segundo a lei imperial allemã, com a liberdade de reorganizar a egreja dentro dos seus dominios, e levar a effeito as necessarias reformas.

O edicto auctorizava cada um dos estados a tomar as decisões que entendesse, e d’esse modo tornou-se impossivel qualquer tentativa de introduzir nas provincias evangelicas um systema uniforme de governo da egreja e do culto; cada uma d’ellas estabeleceu os seus regulamentos. O primeiro a estabelecel-os, em conformidade com os verdadeiros principios da Reforma, foi Filippe, Landgrave de Hesse. Pediu a Martinho Lambert que lhe redigisse os artigos de uma constituição ecclesiastica para uso nos seus dominios. E estes artigos são interessantes, porque reconhecem, até certo ponto, a auctoridade do povo christão dentro da egreja; e confiam tambem a disciplina das congregações a homens de seriedade, cujos deveres são parecidos com os dos anciãos presbyteriannos.

Luthero, n’outro tempo, teria recebido com enthusiasmo todas estas indicações do reconhecimento dos direitos do povo christão, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, mas a Guerra dos Camponezes tinha-o predisposto contra a auctoridade do povo. Era de opinião que o povo não tinha competencia para governar a egreja, e escreveu a Filippe, mostrando-lhe os inconvenientes de similhante plano de organização ecclesiastica.