Luthero preferia entregar o governo da egreja nas mãos do poder secular—dos principes quando se tratasse de principados, e das camaras municipaes nas cidades livres. Esta sua idéa deu logar ao que se chama o systema Consistorial do governo da Egreja—systema peculiar da Egreja Lutherana, e de que, não obstante só mais tarde ter sido posto em pratica, cabe fazer aqui uma descripção resumida.

Em todas as egrejas christãs tem sido considerado da mais alta importancia o guardar-se a chamada disciplina da egreja. Deus quer que todos os seus filhos tenham uma vida honesta, uma vida decente, e é do dever da Egreja cuidar que todos os seus membros procedam de uma maneira condigna com a sua profissão de fé. Quando qualquer membro sae do bom caminho deve ser reprehendido, e, se persiste no mal, deve soffrer os castigos que a egreja tem decretado, consistindo um d’elles em ser excluido da communhão dos irmãos. Na Allemanha eram, na edade media, os bispos responsaveis pela conducta dos membros das egrejas que constituiam as suas respectivas dioceses; e, como estas dioceses eram geralmente grandes, e os bispos não podiam estar ao facto de tudo quanto acontecia, encarregavam d’isso umas especies de comités, compostos de clerigos e jurisconsultos. Estas commissões de vigilancia chamavam-se consistorios, e, além de zelarem a disciplina das dioceses, eram tambem encarregadas da execução de testamentos e doações, e julgavam certos casos de calumnia e de maledicencia que os tribunaes ordinarios lhes enviavam. Quando os bispos, nos estados evangelicos, foram expulsos, esses consistorios continuaram gerindo os negocios da Egreja. Luthero, que só alterava o que era indispensavel alterar, propoz ao eleitor da Saxonia a conservação dos comités episcopaes, e essa sua proposta foi acceite. Passaram a chamar-se consistorios lutheranos, e a sua nomeação ficou dependendo da suprema auctoridade civil, em cujo nome governavam. Com o tempo foram introduzidas algumas mudanças, cuja necessidade se reconheceu; mas ainda assim pode-se dizer que o governo da egreja lutherana actual em nada differe do da egreja allemã medieval, a não ser que a auctoridade civil substituiu os bispos. Estas mudanças tiveram logar em toda a Allemanha depois da Dieta de 1526, nos estados que abraçaram a Reforma.

Luthero escreveu alguns hymnos, e publicou uma serie d’elles para serem cantados nas egrejas; escreveu um catecismo para uso da infancia; e assim em toda a Allemanha, onde quer que as doutrinas evangelicas prevalecessem, eram organizadas egrejas, onde se rendia a Deus um culto simples mas sincero, e tratava-se de instruir e catequizar a juventude. Ainda não havia uma confissão de fé, ou credo commum, mas o povo sabia perfeitamente no que devia crer, devido aos opusculos de Luthero, Melanchthon e outros, opusculos estes que andavam de mão em mão.

Emquanto estas coisas se passavam na Allemanha, tinha logar uma coisa que bastante contrariou o imperador: uma alliança entre a França e os Estados Pontificios. Não esperava que o papa o abandonasse, e menos esperava ainda que elle o abandonasse na propria occasião em que elle se preparava para submetter a Allemanha ao seu dominio (do papa), e resolveu punil-o d’essa traição. Formou-se um numeroso exercito, reforçado por um grande numero de soldados allemães lutheranos, sob o commando de aquelle general Frundsberg que em Worms animou Luthero, e, levando á frente o condestavel de Bourbon, esse exercito penetrou na Italia, devastando tudo por onde quer que passasse. Em 6 de maio de 1527 o general conduziu as suas tropas até junto da cidade de Roma. Esta foi tomada de assalto. O papa e os cardeaes fugiram para a fortaleza de St.º Angelo, e a cidade foi horrivelmente posta a saque. Os habitantes foram maltratados e mortos, as egrejas foram despojadas das suas riquezas, e os rudes e mofadores allemães proclamaram papa a Luthero. Os francezes não poderam prestar grande auxilio aos seus alliados, e em 1529 fez-se a paz entre o imperador e o papa, ficando Carlos novamente livre, segundo elle pensava, para esmagar a heresia na Allemanha.

Na Allemanha parecia que as coisas iam caminhando mal para a Reforma. O edicto de Spira havia concedido tolerancia aos lutheranos, mas tambem tornou evidente, de uma maneira até então desconhecida, a separação entre os dois partidos. Isto viu-se bem quando a Dieta se reuniu de novo em Spira em 1529. O imperador não estava presente, mas o seu commissario disse aos principes que o amo se recusava a reconhecer o decreto de 1526, e que sustentava que o decreto de Worms estava ainda em vigor e se lhe devia dar força. Pela primeira vez pareceu que a maioria da Dieta estava disposta a obedecer á ordem do imperador e a dar força ao edicto contra Luthero. O decreto final intimava quem quer que tivesse posto o edicto em execução a continuar a fazel-o, e que nos districtos onde não se tivesse executado não se fizessem ulteriores innovações e ninguem fosse impedido de celebrar missa.

Por mais brando que isto parecesse, significava que o edicto de Spira estava posto de parte, e a minoria evangelica resolveu protestar contra a decisão. Fizeram-n’o sobre o fundamento de que as questões religiosas só podiam ser decididas pela consciencia, e que não deviam ser submettidas á Dieta para ficarem sob a decisão de uma maioria. «Em questões que dizem respeito á gloria de Deus e á salvação da alma de cada um de nós, é nosso imperioso dever, segundo o preceito divino, e por causa das nossas proprias consciencias, respeitar, antes de tudo, ao Senhor nosso Deus.» «Em questões que se relacionam com a gloria de Deus e com a salvação das nossas almas, devemos pôr-nos deante de Deus e dar-lhe contas de nós mesmos». O protesto, em que se punha como coisa inadiavel a liberdade de consciencia, era assignado por João da Saxonia, Jorge de Brandenburgo, Ernesto de Lüneburgo, Filippe de Hesse, Wolfgang de Anhalt, e pelos representantes das cidades imperiaes de Nürnberg, Ulm, Constancia, Lindau, Memmingen, Kempten, Nordlingen, Heilbronn, Reutlingen, Isny, St. Gall, Weissenburgo e Windsheim.

Foi d’este protesto que se originou o termo protestantes.

O imperador pretende subjugar a Reforma.—Este protesto tornou ainda mais saliente, mais definida, a linha de separação entre os principes reformados e os seus visinhos. Ficavam como que marcados por ella aquelles a quem o imperador, para restabelecer o imperio medieval, tinha de subjugar; e parecia agora ter chegado uma occasião propicia para elle o fazer. Na verdade, entre elle e a realização dos seus planos só existia aquelle punhado de principes. Tinha humilhado por completo a França, obrigára o papa a submetter-se-lhe, e os turcos haviam sido derrotados; unicamente a Reforma se oppunha ao restabelecimento de um imperio medieval. Os principes protestantes reconheceram a gravidade da sua situação. Deveriam resistir ao imperador, e, no caso affirmativo, conservar-se-hiam firmemente unidos? Luthero, que tinha até então dirigido o movimento, servia agora de obstaculo a uma acção collectiva. Elle, ao principio, era contrario a toda e qualquer resistencia. Reprovava, mesmo, a alliança dos principes. Chegou a dissuadir o eleitor da Saxonia de mandar delegados á assembléa de Schmalkald, e, quando esses delegados voltaram e deram noticia de que não se tinha chegado a decidir coisa alguma, mostrou-se excessivamente satisfeito. Se Filippe de Hesse não tivesse trabalhado incessantemente para uma união e para um esforço collectivo, a Reforma teria soffrido muito.

A que se deve attribuir este procedimento de Luthero? Repugnava-lhe a rebellião, fosse qual fosse a natureza d’esta, e não acreditava que as batalhas do reino dos céus se podessem vencer com as armas carnaes. Depois, tambem, havia n’elle uma grande somma de quietismo, ou, por outra, de fatalismo, em parte hereditario, e em parte devido á sua adhesão ás idéas de Tauler e ás dos mysticos allemães. Filippe de Hesse tinha, porém, sem duvida razão ao attribuir uma grande parte d’esta obstinação de Luthero a uma polemica theologica. Tinha sido proposto reunir todos os protestantes n’uma liga offensiva e defensiva, e havia protestantes que não reconheciam em Luthero o seu chefe religioso. Assim como havia uma reforma allemã, havia tambem uma reforma suissa, com o seu particular typo de doutrina—typo de que Luthero não gostava, e que, com immenso desagrado da sua parte, se estava propagando pelo sul da Allemanha. Filippe notou esse facto, e, com aquella decisão que o caracterizava, tentou extrair a difficuldade pela raiz. Propoz uma conferencia. Tinha a convicção de que, se pozesse na presença uns dos outros aquelles cujas idéas divergiam, elles haviam de comprehender-se melhor, e acabariam, por consequencia, todas as differenças. Com esse intuito, pois, promoveu em Marburgo, em 1529, uma conferencia entre os primeiros theologos da Allemanha e da Suissa.

A Conferencia de Marburgo.—Pode-se imaginar o que seria aquella reunião, em que ia tratar-se de um assumpto tão palpitante. Zwinglio e Œcolampadius tinham vindo, com risco das suas vidas, da Suissa; Bucer tinha vindo de Strasburgo; e Luthero e Melanchthon tinham vindo de Wittenberg. Consultaram-se sobre os grandes artigos da fé christã, e os allemães ficaram convencidos de que os suissos tinham idéas perfeitamente evangelicas. Foram redigidos quatorze artigos em que se encerravam todos os principaes pontos da verdade evangelica, sem que alguem discordasse d’elles, e em seguida os theologos passaram a tratar do quinquagessimo e ultimo, que se occupava da doutrina da Ceia do Senhor. Era esse o artigo ácerca do qual os que desejavam uma união de todos os protestantes se mostravam mais inquietos.