Anteriormente, antes da revolta dos camponezes o ter inclinado a evitar mudanças, é muito possivel que Luthero apresentasse qualquer asserção sobre pontos de doutrina que fosse acceite pelos suissos; e muitos teem supposto, com bom fundamento, que, se Calvino estivesse presente, e tivesse fallado antes de Luthero, poder-se-hia ter chegado a uma união. Luthero, porém, não tinha confiança nos suissos; tinha-os na conta de irreflectidos e irreverentes theologos, e, a despeito das anciedades dos principes allemães, tinha ido á conferencia resolvido a não ceder em coisa alguma.
A controversia entre Luthero e os suissos.—O thema do debate era este. Todos os reformadores, tanto allemães como suissos, haviam rejeitado a doutrina catholica romana do sacramento da Ceia do Senhor.
Os theologos catholicos romanos dividem este sacramento em duas partes distinctas: a Eucaristia e a missa. A missa é mais um sacrificio do que um sacramento. É a prolongação, atravez do tempo, do sacrificio de Christo na cruz; o pão e o vinho são, diz-se, os verdadeiros corpo e sangue de Christo, e quando estes são saboreados pelo padre, no acto de comer e beber, Christo soffre com esse acto aquillo que soffreu na cruz. D’esta maneira os catholicos romanos ensinam que os christãos vêem Christo realmente no seu meio—vêem-n’o supportando os tormentos por sua causa, na sua propria presença. Assim, segundo esta theoria, não ha a distancia de longos seculos entre o crente e os soffrimentos de Christo por sua causa. Christo soffrendo e o crente prestando culto estão em face um do outro durante um momento, mediante a missa.
Os protestantes de todas as denominações rejeitaram a doutrina da missa por a considerarem idolatra e supersticiosa, e ensinaram os christãos a retrocederem, pela fé, até ao verdadeiro sacrificio de Christo na cruz do Calvario por sua causa e para resgate dos seus peccados. O debate entre os protestantes é exclusivamente sobre aquillo a que os catholicos romanos chamam a Eucaristia, ou sacramento do altar.
A doutrina catholica romana da missa e a sua doutrina da Eucaristia teem um ponto em commum; ambas affirmam que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Christo estão presentes no pão e no vinho, de modo que estes elementos já não são o que parecem ser, mas sim o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Christo. Ensinam que o padre, porque é padre, e porque foi ordenado por um bispo, pode, mediante a oração e a ceremonia, operar o milagre de transformar o pão e o vinho no verdadeiro corpo e sangue de Christo, com a Sua alma racional e a Sua natureza divina; e que pode, outrosim, operar o milagre de O trazer do céu e de O mostrar ao povo, a fim de ser adorado e partilhado por todos. Ensinam, ainda, posto que esta parte do seu ensino não seja sempre muito clara, que os beneficios de Christo são communicados ao Seu povo quando este come o pão, que já não é pão, mas Christo. A graça, dizem elles, é concedida a todos aquelles que participam, quer tenham quer não tenham fé.
Todos os protestantes, tanto suissos como lutheranos, recusaram acceitar pelo menos dois, e os dois principaes, pontos d’esta doutrina catholica romana. Não quizeram crer que um padre podesse operar o milagre que os catholicos romanos asseveram que é operado; e foram tambem todos de opinião de que é necessaria mais alguma coisa do que a participação para que o sacramento tenha efficacia. Ao descreverem a connexão entre o sacramento e o que o administra, negaram que tenha logar a operação de um milagre; e, ao descreverem o effeito nos participantes, asseveraram que a fé era indispensavel.
Tiraram o milagre d’uma parte da descripção do sacramento e do seu effeito e inseriram a fé na outra. N’isto todos elles concordaram. Todos elles sustentaram que, ainda que Christo esteja presente no sacramento, não foi trazido para ali mediante um milagre operado por um padre, e que, ainda que Christo soccorresse o Seu povo, o fazia n’um sentido espiritual, mediante a fé, e não pela simples participação do sacramento.
Posto, porém que Zwinglio e Luthero abundassem nas mesmas idéas com respeito a estes dois importantes pontos, e assim podessem escrever a primeira parte do artigo quinze de tal maneira que podessem ambos acceitar cabalmente a asserção, differiam no modo em que descreviam a entrada de Christo no sacramento, e a maneira em que o crente sentia a Sua presença e tirava o beneficio inherente.
Zwinglio dizia que Christo não estava realmente no sacramento sob uma fórma corporea. O pão e o vinho, affirmava elle, eram apenas signaes da Sua presença, quasi da mesma maneira como uma carta é o signal da pessoa ausente que a escreveu, e, quando os christãos participam do sacramento, colhem um beneficio, porque os signaes, pão e vinho, lhes reavivam a memoria e os fazem pensar em Christo e em tudo quanto Elle fez e soffreu sobre a cruz.
Luthero entendia que no sacramento havia mais alguma coisa. Elle tinha, anteriormente, ensinado que o pão e o vinho eram promessas, ou sellos, assim como signaes, e essa idéa podia têl-o levado, como mais tarde aconteceu a Calvino, a encarar a questão com maior clareza e simplicidade. No seu modo de vêr, o pão e o vinho eram, de uma maneira real, o genuino corpo e sangue de Christo, e isto porque o Senhor disse ácerca do pão «Isto é o meu corpo», e ácerca do vinho «Isto é o meu sangue». E, como não gostava de fazer alterações em pontos doutrinaes, fez reviver uma velha theoria sustentada na Edade Media.