Os philosophos medievaes, que eram muito amigos de fazer distincções muito delicadas e muito subtis entre os sentidos de umas e outras palavras, ensinaram que a palavra presença significava duas coisas differentes; um corpo estava presente n’uma certa porção de espaço quando occupava essa porção de espaço de tal fórma que nenhum outro corpo podesse estar lá ao mesmo tempo, e um corpo podia tambem estar presente quando occupasse o mesmo espaço juntamente com outra qualquer coisa. A alma do homem estava, diziam elles, no mesmo espaço em que o corpo estava, e ao mesmo tempo. Um d’estes escolasticos, como eram chamados, empregava esta segunda especie de presença para descrever a presença do corpo de Christo nos elementos. Estava presente no mesmo logar e ao mesmo tempo. O pão não era transformado no corpo de Christo; as duas coisas, o pão e o corpo de Christo, podiam estar, e estavam, ao mesmo tempo no mesmo espaço, ou, para usar a phrase corrente, o corpo de Christo estava, na Ceia do Senhor, no pão, com o pão e sob a fórma de pão. Isto, porém, não explicava a presença do corpo de Christo, nem como elle era transportado da dextra de Deus para os elementos.

Para o explicar, Luthero serviu-se de uma outra idéa dos theologos medievaes. Diziam elles que pelo facto de Christo ser Deus e homem, duas naturezas n’uma pessoa, todos os attributos da natureza divina de Christo se tornavam tambem propriedades da Sua natureza humana. Um dos attributos de Deus é a omnipresença. A natureza humana de Christo adquiriu da natureza divina este attributo, e pode estar tambem em toda a parte. Se o corpo de Christo está em toda a parte, deve estar nos elementos, sobre a mesa do Senhor, sem que ocorra milagre algum. Luthero serviu-se d’esta ubiquidade do corpo de Christo para explicar como, sem a intervenção do milagre, elle podia estar em, com e sob os elementos do pão e do vinho.

Quando lhe perguntaram porque é que havia uma virtude especial n’este caso da presença de Christo—a Sua presença no Sacramento—estando Elle, segundo a sua theoria, presente em toda a parte, replicou que Deus tinha promettido, na Biblia, abençoar o Seu povo mediante a presença do corpo e sangue de Christo nos elementos do sacramento.

E assim Luthero tecia uma complicadissima doutrina da presença de Christo no pão e no vinho; desembaraçava-se, certamente, da transubstanciação e do milagre sacerdotal, mas introduzia, em seu logar, inverosimeis idéas escolasticas. Podia, comtudo, d’esta fórma, dizer que o corpo de Christo estava realmente presente, em figura corporea, no pão e no vinho, e isso dava-lhe grande satisfação. Quando, pois, se encontrou com Zwinglio para discutirem a doutrina da Ceia do Senhor, diz-se que pegou n’um pedaço de giz e escreveu em cima da mesa que estava no meio da sala as palavras Hoc est corpus meum (Isto é o meu corpo).

Não acceitava explicação alguma d’estas palavras que affirmasse que o corpo e o sangue de nosso Senhor não estavam corporalmente presentes nos elementos, e accusava os seus antagonistas de interpretarem mal a Escriptura quando se referiam a metaphoras e a symbolos. Foi debalde que Zwinglio contestou que a palavra «é» nem sempre significa identidade de substancia; que quando nosso Senhor disse «Eu sou a videira verdadeira», «Eu sou a porta», não queria dizer que fosse uma vinha ou uma porta no sentido litteral da palavra. Luthero não se demoveu, e a conferencia terminou sem aquella unidade de coração e de proposito que o pio e affectuoso Landgrave esperava que resultasse d’ella.

A Dieta de Augsburgo.—O imperador tinha sido victorioso em toda a parte fóra da Allemanha, e estava prestes a vir subjugar a Reforma, isto emquanto os protestantes, devido á obstinação de Luthero, se encontravam divididos e desalentados. O Landgrave Filippe fez tudo quanto estava ao seu alcance para conservar unido o partido evangelico, e alguma coisa conseguiu n’esse sentido.

O imperador entrou em Augsburgo com grande apparato, e ao principio recebeu muito cordealmente os principes protestantes. Luthero achava-se ausente da cidade. Considerou-se que a sua presença daria logar a uma desnecessaria irritação, e permaneceu, portanto, em Coburgo, onde facilmente poderia ser consultado. Melanchthon ficou a substituil-o como conselheiro theologico.

Os chefes dos protestantes eram—João, eleitor da Saxonia, denominado João o constante, em razão da sua fidelidade aos principios evangelicos; Filippe o magnanimo, Landgrave de Hesse; e o edoso Margrave de Brandenburgo, antepassado do ultimo imperador da Allemanha. Estes principes foram recebidos pelo imperador com muita affabilidade. Deprehender-se-hia de tudo isto que se tinha iniciado na Allemanha uma era de paz e concordia.