Por detraz dos bastidores, porém, estava Fernando da Austria, irmão do imperador, e cabeça do fanatico partido romanista, com os seus conselheiros theologicos, protestando contra o incitamento á herezia. Afim de o socegar, o imperador escreveu-lhe o seguinte: «Entrarei em negocios, sem chegar a qualquer conclusão: mas, ainda que isso aconteça, não ha motivo para receios da tua parte: nunca te faltarão pretextos para castigar os rebeldes, e has de sempre deparar com quem, com muito gosto, se preste a servir de instrumento á tua vingança.» As suas verdadeiras intenções depressa se tornaram manifestas.

Os capellães dos principes protestantes celebravam o culto publico segundo o rito evangelico: e o imperador deu ordem para que tal se não continuasse a fazer. O Eleitor declarou: «Assim que tiver a certeza de que o imperador tenciona suspender a prégação do Evangelho, retiro-me para minha casa.» Quando Carlos, n’uma conferencia particular, pediu aos principes que impozessem silencio aos seus capellães, o velho Margrave de Brandenburgo avançou alguns passos, levou as mãos ao pescoço, e, inclinando-se, disse: «Era mais facil a minha cabeça rolar aos pés de Vossa Magestade do que eu privar-me da Palavra de Deus e negar o meu Senhor». Carlos mostrou-se surprehendido. «Ninguem pensa em cortar cabeças, meu caro Margrave», replicou elle. Comprehendia tão mal os seus subditos protestantes que se encheu de ira quando elles recusaram incorporar-se na procissão que teve logar por occasião da festa de Corpus Christi. Seria condescender com a idolatria, seria prestar adoração a uma particula de massa que a Egreja de Roma dizia ter-se transformado na Divindade mediante um milagre operado por um padre, e isso não podiam elles fazer. «Porque não hão de agradar ao imperador? Porque não hão de mostrar respeito ao cardeal?» exclamou Fernando. «Não podemos nem queremos adorar senão a Deus» declararam elles. E assim foram passando os dias.

Entretanto os prégadores protestantes dirigiam todos os dias a palavra a grandes concursos de gente na egreja dos franciscanos, e expunham eloquentemente as doutrinas do Evangelho. Carlos resolveu pôr um termo a este estado de coisas, e fêl-o por meio de um accordo cujas vantagens ficaram todas do lado dos catholicos romanos. Melanchthon, sempre timido e amigo da paz, insistiu para que se fizessem algumas concessões. Os prégadores protestantes sairam angustiados da cidade, e Luthero, que observava de longe os acontecimentos, convenceu-se de que Melanchthon, apezar das suas boas intenções, estava traindo a causa.

Quando se abriu a Dieta, o imperador quiz que os protestantes expozessem as suas opiniões. Essa exigencia era esperada, e assim Melanchthon tinha, com a collaboração de Luthero, redigido uma Confissão de Fé, em que estavam mencionados, com grande clareza de linguagem, os principaes artigos da sua fé. Era esta a famosa Confissão de Augsburgo (Confessio Augustana), o credo que tem sido acceite por todos os lutheranos, embora entre elles tenha havido divergencias n’outros pontos. Carlos queria que elle fosse lido em latim. «Não», respondeu a isto João o Constante, «nós somos allemães, e estamos em territorio allemão. Espero que vossa magestade nos permittirá que fallemos na nossa lingua». E a Confissão foi lida em allemão, não por um theologo, mas por uma outra pessoa que recebeu dos principes esse encargo.

A Confissão de Augsburgo.—A primeira parte d’esta nobre confissão expõe, um por um, todos os principios evangelicos da Reforma, e em particular os grandes principios da justificação pela fé. Diz-se que, quando o chanceller do Eleitor, Christiano Beyer, leu estas palavras «a fé, que não é o mero conhecimento de um facto historico, mas aquillo que crê, não sómente na historia, mas no effeito que essa historia produz sobre o espirito», toda a assembléa se mostrou commovida. «Christo» disse Justo Jonas, «está aqui na Dieta, e não Se conserva silencioso: a Palavra de Deus não está presa».

Passou-se depois á segunda parte da Confissão, que denunciava os abusos da Egreja de Roma. Começava assim: «Visto as egrejas que ha entre nós não discordarem em artigo algum de fé das Sagradas Escripturas ou da Egreja Catholica, e omittirem apenas uns certos abusos, umas certas innovações, que em parte se teem insinuado, e em parte teem sido violentamente introduzidas, sendo todas ellas contrarias ao sentido dos canones, rogamos a Vossa Magestade Imperial se digne prestar ouvidos clementes ás razões que o povo apresenta para que não deva ser forçado, contra as suas consciencias, a observar estes abusos». Declara em seguida que o negar o calix aos leigos é uma pratica que se oppõe, não só á Escriptura como aos antigos canones e ao exemplo da Egreja: que o celibato dos clerigos é uma transgressão do mandamento de Deus: que a missa é «uma profanação do sacramento da Ceia do Senhor»: que a distincção das comidas e as tradições «obscurecem as doutrinas da graça, e induzem o povo a crêr que o christianismo é tão sómente uma observancia de determinadas festas, ritos, jejuns e vestuarios»: que a vida e votos monasticos são altamente perniciosos, e servem para desencaminhar homens e mulheres, pois que «se deve servir a Deus segundo os preceitos que Elle promulgou, e não segundo os que os homens inventam»: que o poder ecclesiastico não é senhoril, mas ministerial.

A confissão continha tambem um pequeno artigo em que vinha exposta a opinião lutherana ácerca da doutrina da Ceia do Senhor, e isso compelliu os theologos suissos e os do sul da Allemanha a apresentarem confissões separadas: mas a leitura da confissão de Augsburgo, pelos principes, na Dieta produziu um maravilhoso effeito em toda a Allemanha, e os protestantes adquiriram a animadora convicção de que estavam todos unidos.

O imperador viu que só por meio de uma guerra poderia destruir a Reforma, e não se achava preparado para esse recurso. Lembrou-se então de promover umas conferencias que fossem criando uma certa confusão entre os protestantes. Era bem conhecido o caracter submisso de Melanchthon, que n’essas conferencias propunha que, a bem da paz, se fosse cedendo em todos os pontos. Luthero ficou indignadissimo quando, em Coburgo, soube do caso. E escreveu: «A mestre Filippe Kleinmuth (Coração pequeno): Segundo me parece, estaes fazendo uma obra prodigiosa, qual a de reconciliar Luthero com o papa.... Advirto-vos, porém, de que, se é vossa intenção metter n’um sacco essa aguia gloriosa que se chama o Evangelho, Luthero, tão certo como Christo viver, ha-de, fazendo appello a todas as suas forças, ir libertal-o.» Os principes e o povo ficaram tambem pessimamente impressionados com a conducta de Melanchthon. «Antes morrer com Jesus Christo», exclamavam, «do que alcançar, sem Elle, as boas graças do mundo inteiro». Os catholicos romanos pediam, por fim, mais do que Melanchthon podia conceder, e, com grande regozijo dos protestantes, as conferencias cessaram.

A liga protestante de Schmalkald.—Os principes sabiam que o imperador queria esmagal-os. Elle tornou o papa sciente da sua resolução, e pediu-lhe que excitasse todos os principes catholicos a coadjuvarem-n’o n’aquella obra. Formou-se uma liga catholica. A resposta dos protestantes foi recusarem todos os subsidios emquanto os negocios da Allemanha permanecessem por liquidar.