Calvino é expulso de Genebra.—Expulso de Genebra, Calvino foi para Basiléa, e d’ahi para Strasburgo, onde permaneceu tranquillamente tres annos, ministrando a uma numerosa congregação de refugiados francezes, e occupando-se com trabalhos litterarios. Strasburgo tinha sido um logar intermediario entre a Allemanha e a Suissa, e Calvino travou ahi conhecimento com muitos theologos allemães. Contraiu uma intima amizade com Melanchthon, e encontrou-se com elle e com outros reformadores allemães nas conferencias religiosas que se realizaram em Francfort, Worms e Regensburgo. Em Setembro de 1540 casou com Idelette de Bure, viuva de João Storder. Idelette era uma senhora muito temente a Deus e muito instruida, e teve, do seu casamento com Calvino, tres filhos, que morreram todos na infancia. Calvino não se refere muito, na sua correspondencia, á sua vida domestica, mas as cartas que escreveu a alguns amigos muito intimos ácerca do fallecimento da esposa e do fallecimento dos filhinhos demonstram que no peito do austero e ceremonioso francez batia um coração susceptivel de grandes affectos.

Genebra não pode passar sem Calvino.—No entretanto, Genebra continuava agitada. Farel e Calvino haviam sido expulsos, e estavam longe da cidade, mas o povo sentia a necessidade da sua presença. Não havia agora ali uma influencia que a todos dominasse, e as coisas caminhavam de mal para peior. Calvino tinha dito que a infidelidade tinha por origem a depravação a que elle se oppozera, e os cidadãos mais esclarecidos começaram a ver o quanto de verdade havia n’esta observação. As desordens sociaes iam quasi conduzindo a desastres politicos. Os bernenses intentaram apoderar-se da cidade; os catholicos romanos, tendo á frente o cardeal Sadolet, trabalharam por submettel-a de novo ao papismo; os anabaptistas, inimigos de toda a organização ecclesiastica e social, os libertinos, os livres pensadores, todos luctaram por obter o predominio em Genebra, e por fim a população começou a sentir-se cançada de aquella tumultuosa situação e a anhelar pelo regresso dos seus desterrados ministros.

A junta da cidade dirigiu-se a Calvino, pedindo-lhe que voltasse. Elle ao principio recusou. «Não ha localidade que me aterrorize tanto como Genebra», escreveu elle a um amigo. Continuaram, porém, a instar com elle para que voltasse; muitos dos amigos que elle tinha entre os reformadores francezes e allemães solicitaram-lhe que accedesse ao pedido dos genebrenses, e as cidades suissas de Berne, Zurich e Basiléa fizeram côro com elles. Condescendendo finalmente, regressou a Genebra.

Os magistrados offereceram-lhe para moradia uma casa com jardim situada nas proximidades da sumptuosa egreja, nomearam-n’o ministro e professor de theologia, e fixaram-lhe um estipendio annual de quinhentos florins, doze medidas de trigo e duas cubas de vinho. Além d’isso, prometteram que na Egreja de Genebra seria posta em vigor a disciplina ecclesiastica, pois que Calvino havia insistido n’esse ponto. A convivencia que tivera com os lutheranos ainda o tornara mais cuidadoso em manter o direito que á Egreja assiste de velar pela sua pureza. Voltou triumphante a Genebra, e foi recebido com as mais extravagantes manifestações de regozijo. Foi mais uma vez desapontado no seu grande desejo de uma tranquilla vida litteraria, e durante o resto dos seus dias teve de dedicar-se inteiramente á causa publica.

Depois d’isso nunca mais saiu de Genebra, de que foi, segundo dizem, durante vinte e quatro annos o senhor. Os historiadores teem-n’o comparado a individualidades de indole muitissimo differente. Segundo uns, foi o Lycurgo de Genebra; segundo outros, um dictador romano, ou um novo Hildebrando, ou um Califa musulmano. O que é certo é que fez uma grande obra, e passou a vida n’uma incessante actividade, apezar de estar quasi sempre doente, soffrendo muito de dôres de cabeça e de asthma.

Prégava umas poucas de vezes por semana, e todos os dias dava aula. Escreveu commentarios a todos os livros da Biblia, compoz tratados theologicos, e tinha sempre que attender a uma immensa correspondencia. Era elle quem dirigia a Egreja reformada em toda a Europa, e, segundo a idéa de muitas pessoas, era, por assim dizer, omnipotente em Genebra, tendo sido attribuidos á sua influencia tanto os bons como os maus resultados da chamada theocracia genebrense.

É inquestionavel que durante o seu governo em Genebra o caracter da cidade mudou inteiramente. Tendo sido a mais frivola e mais devassa de todas as cidades europeas, tornou-se o berço do puritanismo, tanto francez, como hollandez, como inglez, como escocez. As danças e mascaradas passaram a ser coisas desconhecidas; as tabernas e o theatro estavam sempre ás moscas, ao passo que as egrejas e os salões de conferencias se enchiam até á porta.

As ordenanças ecclesiasticas.—O que effectuou tudo isto foram as famosas ordenanças ecclesiasticas da Egreja de Genebra, e o modo em que ellas foram applicadas pelos magistrados. Estas ordenanças eram, segundo as poucas palavras do preambulo, o «regimen espiritual, que Deus ordenou na Sua Egreja, e que, sob uma fórma propria, tinha de ser observado na cidade de Genebra», e teem sido adoptadas por todas as egrejas presbyteriannas.

Em conformidade com estas ordenanças, ha quatro especies ou graus de officio na Egreja christã, estabelecidos por Deus para o governo da mesma, e os que os exercem são chamados pastores, professores, presbyteros e diaconos.

Compete aos pastores, que teem tambem o nome de superintendentes e bispos, expôr a Palavra, administrar os sacramentos, e, conjunctamente com os presbyteros, exercer a disciplina; eram geralmente escolhidos pelos ministros em exercicio, e nomeados pelos magistrados, com o consentimento do povo; tinham de dar contas dos seus actos nas conferencias que para esse fim tinham logar trimestralmente na Egreja, e eram, outrosim, responsaveis perante o consistorio e a junta da cidade.