As ordenanças ecclesiasticas e a reforma dos costumes.—Devemos lembrar-nos, por outro lado, de que não podemos dizer o que seria preciso para obter uma reforma de costumes n’uma cidade tão immoral e tão turbulenta como Genebra.
A Reforma, justamente porque era um protesto contra o então existente estado de coisas, teve de navegar contra a corrente do mal, que ella propria provocou. É-nos quasi tão impossivel comprehender o perigo dos excessos anabaptistas e outros como comprehender a corrupção moral da epoca em que o christianismo surgiu e se propagou. Professava-se o libertinismo pantheistico como se fosse um credo, e os documentos litterarios do periodo da Renascença revelam uma desaforada sensualidade que deve ser tomada em conta. O que Calvino viu deante de si em Genebra foi uma indulgencia para tudo quanto fosse immoral, indulgencia que a propria religião prescrevia, visto tratar-se de uma coisa natural. Era este o lado sombrio da Reforma, para o qual não era agradavel olhar, mas que existia, e que deve ser tomado em conta antes de se julgar o procedimento do conselho de Genebra ou o de Calvino.
O governo de Calvino, se é que era d’elle, não causou a decima parte do soffrimento que, a instigação de Luthero, os principes da Allemanha infligiram aos camponezes revoltosos, e aos seus cabeças, os enthusiasmados prophetas; mas o soffrimento causado pela paixão cega, quer provenha do medo quer provenha do odio, tem, o que é coisa curiosa, sido sempre olhado com maior brandura do que o soffrimento que é infligido no proseguimento de um rigoroso proposito de reforma.
Á parte de tudo isto, comtudo, não é improvavel que Calvino fosse menos omnipotente em Genebra do que se suppõe ter sido. A um francez, e de mais a mais logico como elle era, custa a attribuir as incoherencias que se notam entre os Institutos e as Ordenanças Ecclesiasticas. É preciso não esquecer que o que tornou possiveis estes castigos que teem sido tão condemnados foram aquelles pontos das Ordenanças que não eram da responsabilidade de Calvino, e contra os quaes escreveu. A verdadeira causa do mal era a relação que havia entre o consistorio e o governo civil da cidade. Supponhamos que uma das nossas camaras municipaes se constituia uma vez por semana em commissão zeladora da moralidade publica. Não se sentiriam escandalizados os vereadores se os casos que elles apresentassem á commissão, e que mereciam a reprovação d’ella, ficassem impunes? Não seriam tentados quando, no mesmo dia ou no dia seguinte, se encontrassem em plena sessão camararia, e revestidos de toda a sua auctoridade, a insistir na applicação do castigo? Não se deve attribuir a culpa de todos estes males a Calvino, ou mesmo ao conselho de Genebra. Surgiram naturalmente das tres vezes abominavel mistura da direcção dos negocios seculares com a direcção dos negocios espirituaes, que constitue habitual peccado contra o qual a Egreja e o Estado se devem precaver.
A morte de Calvino.—Durante a residencia de Calvino em Genebra, foi esta adquirindo cada vez mais opulencia e preponderancia. Os magistrados fundaram uma universidade, cujo primeiro reitor foi Theodoro Beza, e as suas aulas foram, durante o primeiro anno, frequentadas por oitocentos estudantes. Procuraram refugio na cidade, onde receberam um excellente acolhimento, numerosissimos protestantes italianos, francezes e escocezes. «Calvino converteu Genebra n’uma outra Roma». Pelas suas cartas se vê o poder de que elle dispunha e a influencia que exercia. Pediam-lhe conselhos, que nunca eram negados, os huguenotes da França, os reformadores de Inglaterra, a congregação escoceza, e os dirigentes da Reforma na Allemanha.
Morreu novo. O seu organismo, que nunca fôra robusto, resentiu-se do excessivo trabalho a que elle se entregava. Prégou o seu ultimo sermão no dia 6 de fevereiro de 1564, e falleceu a 27 de maio do mesmo anno, contando cincoenta e cinco annos incompletos.
Conhecendo a approximação da morte, chamou para junto de si os syndicos, ou primeiros magistrados de Genebra, e em seguida todos os ministros. Prohibiu que sobre a sua sepultura se erigisse qualquer monumento, acontecendo, d’esse modo, que se desconhece o sitio onde foi enterrado.
Era de pequena estatura, magro, de feições delicadas, nariz proeminente, testa elevada, e olhos que em dadas occasiões chammejavam. Trajava sempre com o mais escrupuloso esmero, e alimentava-se muito sobriamente.
Contrastando com Luthero, era um aristocrata pela educação e pelo temperamento; grande observador de todas as regras da etiqueta, sentia-se muito mais á vontade no meio das pessoas de posição do que no meio do povo baixo. Tem-lhe alguem chamado frio e insensivel, mas o que é facto é que os seus amigos e contemporaneos se referem sempre a esse frio, timido, austero e polido francez em termos os mais affaveis e respeitosos; e os mancebos davam-se perfeitamente com elle.
Muitos escriptores teem começado a estudar o caracter de Calvino com um certo sentimento de hostilidade, e, depois de o haverem estudado, descobrem que a sua antipathia se transformou em affectuosa admiração. Como será sufficiente um exemplo, vejamos o que Ernesto Renan diz d’elle: