«Calvino era um de aquelles homens absolutos que parecem ter sido vasados de um só jacto n’um molde, e que se estudam por meio de um simples olhar; uma carta das que escrevam, um acto dos que pratiquem, é o bastante para se fazer um juizo d’elles.... Não se importava com riquezas, nem com titulos, nem com honras; indifferente ás pompas, modesto no viver, apparentemente humilde, tudo sacrificava ao desejo de tornar os outros eguaes a si. Exceptuando Ignacio de Loyola, não conheço outro homem que podesse rivalisar com elle n’estes raros predicados. É surprehendente como um homem cuja vida e cujos escriptos attrahem tão pouco as nossas sympathias, se tornasse o centro de um tão grande movimento, e que as suas palavras tão asperas, a sua elocução tão severa, podessem ter uma tão espantosa influencia sobre os espiritos dos seus contemporaneos. Como se pode explicar, por exemplo, que uma das mulheres mais distinctas do seu tempo, Renée de França, que no seu palacio de Ferrara se via cercada dos mais brilhantes talentos da Europa, se deixasse captivar por aquelle severo doutrinador, enveredando, por sua influencia, n’uma senda que tão espinhosa lhe deveria ter sido? Similhantes victorias só podem ser alcançadas por aquelles que trabalham com sincera convicção. Sem manifestar aquelle ardente desejo de promover o bem dos outros, que foi o que assegurou a Luthero o bom exito dos seus trabalhos, sem possuir o encanto, a perigosa, posto que languida, doçura de S. Francisco de Sales, Calvino saiu victorioso, n’uma epoca e n’um paiz em que tudo annunciava uma reacção contra o christianismo, e isso simplesmente por ser o maior christão do seu tempo».

Beza, o successor de Calvino.—Theodoro Beza succedeu a Calvino em Genebra, e manteve a reputação que a Egreja tinha adquirido; e até ao meiado do seculo dezesete a voz de Genebra foi a que as numerosas egrejas protestantes escutaram com maior acatamento.

A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma.—Sob a influencia de Calvino, desappareceram as differenças theologicas que havia na Suissa, e todas as egrejas que se chamavam reformadas adoptaram um typo de doutrina. Estas egrejas não tinham, como as lutheranas, um Catecismo e uma Confissão, mas, não obstante os varios credos, notava-se n’ellas uma perfeita unidade de pensamento e de sentimento. Calvino não escreveu Confissão alguma que viesse occupar o primeiro logar entre os credos das egrejas que se chamam do seu nome, mas a sua influencia em toda a parte se manifesta. Elle vive novamente, na obra dos seus discipulos.

Os seus mais importantes trabalhos que teem relação com o assumpto de que nos estamos occupando são o Catecismo para a Infancia e a Confissão de Zurich.

O Catecismo tinha por fim, disse elle, repôr no devido logar a instrucção religiosa das creanças, que tão lamentavelmente havia sido descurada pelos romanistas. Calvino, para a confecção do seu catecismo, serviu-se do Credo dos Apostolos, dos Dez Mandamentos e da Oração Dominical. Tiveram origem n’elle dois grandes Catecismos da Egreja Reformada: o de Heidelberg, que contém o Credo das Egrejas da Allemanha, e o Breve Catecismo da Assembléa de Westminster.

A Confissão de Zurich foi muito proveitosa, porque uniu as Egrejas Reformadas quanto á doutrina dos sacramentos pelo facto de reconciliar n’uma mais profunda unidade as opiniões de Luthero e de Zwinglio. Poz de parte a metaphysica medieval com que Luthero havia sobrecarregado a sua theoria, e ao mesmo tempo repudiou as idéas mais superficiaes de Zwinglio e dos primeiros reformadores suissos, que ensinavam que os sacramentos eram apenas signaes, ou imagens, das bençãos espirituaes.

Calvino fez um resumo da sua doutrina ao expôr esta Confissão: «Os sacramentos são auxiliares por meio dos quaes ou somos implantados no corpo de Christo, ou, no caso de já o estarmos, nos ligamos a Elle cada vez mais, até que seja perfeita a nossa união com Christo, na vida celestial».

A influencia de Calvino e de Genebra é, porém, mais nitidamente visivel na geração de protestantes que ella educou e enviou a combater com o romanismo. «N’uma occasião em que a Europa», diz Haüsser, «não podia mostrar solidos resultados da reforma, este pequeno estado de Genebra erguia-se como uma grande potencia; anno após anno, enviava apostolos para todo o mundo, mediante os quaes eram apregoadas as suas doutrinas, e tornou-se o mais temido contrapeso de Roma.... Os missionarios provenientes d’este pequeno nucleo manifestavam o elevado e intrepido espirito que procede de uma estoica educação e adestramento; tinham o cunho da abnegação e do heroismo, que em toda a parte era absorvido pela estreiteza theologica. Constituiram uma raça para a qual coisa alguma era demasiadamente ousada, e que deu uma nova direcção ao protestantismo, separando-o da velha e tradicional auctoridade monarquica, e fazendo com que elle adoptasse o evangelho da democracia como parte do seu credo.... Genebra dictou um pequeno trecho da historia universal, trecho que constitue a parte de que os seculos dezeseis e dezesete mais se devem orgulhar. O seu Credo foi professado por muitos dos mais eminentes homens da França, dos Paizes Baixos e da Gran-Bretanha; estes homens possuiam almas fortes, caracteres de ferro vasados n’um molde em que havia uma mistura de elementos romanos, germanicos, medievaes e modernos; e as consequencias nacionaes e politicas da nova fé foram por elles defendidas com o maximo rigor e coherencia.»

A Reforma lutherana fez poucos progressos fóra da Allemanha. A pequena republica de Genebra uniu primeiro a Reforma suissa, e em seguida deu os caracteristicos distinctivos aos movimentos reformadores da França, da Hollanda, da Escocia, da Bohemia, da Hungria, da Moravia e de uma grande parte da Allemanha. Luthero, o homem de festiva disposição de espirito, tão humano em todos os sentidos, foi, afinal de contas, o reformador de uma parte, apenas, da Allemanha; Calvino, tão insensivel, tão frio, tão ceremonioso, tão sarcastico, de uma logica tão desapiedada, foi o reformador de uma grande parte da christandade. A Reforma suissa passou muito para além da Republica Helvetica, e abrangeu as egrejas da França, da Hollanda e da Gran-Bretanha, com tudo o que d’ellas brotou.