CAPITULO III
A REFORMA EM FRANÇA

Principios da Reforma em França, [pag. 87].—Francisco I, [pag. 89].—A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma, [pag. 89].—«Uma egreja debaixo da cruz», [pag. 90].—O anno dos placards, [pag. 92].—O Vaudois da Durance, [pag. 92].—Henrique II e os Guises, [pag. 93].—Organisação da Egreja Reformada, [pag. 95].—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, [pag. 96].—O primeiro Synodo Nacional, [pag. 97].—Anne de Bourg, [pag. 98].—O massacre de Amboise, [pag. 99].—Coligny na Assembléa dos Notaveis, [pag. 100].—Catharina de Medicis, [pag. 100].—A Conferencia de Poissy, [pag. 102].—O massacre de Vassy, e outros, [pag. 103].—A guerra civil, os iconoclastas, [pag. 103].—Coligny e Carlos IX, [pag. 106].—O massacre de S. Bartholomeu, [pag. 107].—A Santa Liga, [pag. 109].—Henrique de Navarra, [pag. 110].—O edicto de Nantes, [pag. 110].

Principios da Reforma em França.—Antes da Reforma se ter tornado em França um grande e importante movimento, appareceram dois typos da cristandade reformada, sellados com as individualidades de dois homens: Luthero e Calvino, o Pedro e o Paulo da Reforma, Na renhida lucta que em seguida teve de ser sustentada com o romanismo, o movimento mais moderno foi o que adquiriu maior importancia; foi Genebra, deixando Wittenberg em segundo plano, que se mostrou em condições de se defrontar com Roma. A dupla corrente da Reforma partiu d’estes dois centros para toda a Europa, mas nos terriveis combates que se travaram a feroz democracia do Calvinismo poude desenvolver uma força que era o dobro da do claudicante conservantismo do movimento lutherano. A historia do progresso da Reforma fóra da Allemanha é quasi inteiramente a historia do calvinismo, e do triumpho das idéas calvinistas. Foi assim em França.

Os principios da Reforma franceza ficam lá muito para traz, datam de uma epoca muito anterior á do nascimento de Calvino. Havia no sul e no sueste, no fim do seculo quinze e no principio do seculo dezesseis, uns taes ou quaes vestigios dos velhos albigenses; e os valdenses mantiveram-se, e foram protegidos, em virtude de antigos tratados, durante as perseguições dos huguenotes. A Egreja franceza havia-se distinguido sempre pela sua opposição ás reivindicações da côrte pontificia e do papa. Quando o papado, no seculo quinze, chegou a uma grande decadencia, e papas libertinos occuparam a sé de Roma, a Egreja franceza, tendo á frente os famosos chancelleres da universidade de Paris, João Gerson e Pedro d’Ailly, desempenhou a parte principal na convocação dos concilios reformadores de Pisa, Basiléa e Constancia, e no refreamento da curia romana. A Egreja franceza tinha-se sempre opposto energicamente ao ultramontanismo, e, protegida pela Sancção Pragmatica de Bourges, era talvez mais genuinamente nacional do que qualquer outro ramo da Egreja medieval. Muitas pessoas esperavam que a França, em vista da sua historia passada, tomasse a iniciativa de um movimento reformador. A Reforma, porém, que as summidades ecclesiasticas promoveram no seculo quinze não foi uma reforma de doutrina ou uma revivificação da religião espiritual. Os reformadores de Constancia queimaram João Huss.

Além d’isso, havia na Egreja franceza, pouco antes da Reforma, a mesma immoralidade, a mesma incuria, a mesma ignorancia que desacreditou a Egreja medieval do seculo dezeseis na Allemanha e na Italia; o inicio da Reforma em França proveiu do despertamento das lettras e da leitura das Escripturas nas linguas originaes.

Os primeiros sermões reformistas foram prégados em Meaux, onde o bispo, Guilherme Briçonnet, viu que havia urgente necessidade de reprehender a immoralidade monastica, e que o povo anhelava por um verdadeiro ensino religioso. Elle tinha ouvido fallar da erudição de Jayme Lefévre, de Etaples, e da perseguição que elle soffrera da parte dos doutores da Sorbonne por causa dos seus estudos biblicos; e convidou-o, a elle e ao seu ardente e joven discipulo, Guilherme Farel, o futuro amigo de Calvino, para irem para a sua diocese e estudarem, ensinarem e prégarem debaixo da sua protecção. Lefévre publicou, em 1523, uma traducção do Novo Testamento em francez, e o povo comprou o livro e leu-o com soffreguidão.

Os franciscanos, anciosos por se vingarem do que Briçonnet n’outro tempo lhes havia feito, accusaram-n’o de heresia, e de favorecer herejes. No meio da tempestade que então se levantou, o bispo perdeu a coragem. Farel fugiu para Strasburgo, seguido pouco depois por Lefévre e Roussel, outro prégador, e a Reforma ficou, apparentemente, suffocada. O povo, porém, que possuia a Biblia, lia tratados de Luthero, e conservava na memoria os sermões de Farel e de Roussel persistiu na fé evangelica. Alguns crentes tiveram de soffrer o martyrio, mas o fermento espalhou-se, ainda que occultamente, por toda a França.