Francisco I.—O rei de França, n’esses primeiros annos da Reforma, era Francisco I, a quem depois Calvino dedicou os seus Institutos da Religião Christã. Enthusiasta, e dotado de alguma intelligencia, havia saudado a revivificação das letras, protegeu Lefévre durante o tempo em que este sabio residiu em Paris, e orgulhava-se da correspondencia que mantinha com homens de grandes conhecimentos, taes como Erasmo e Budaeus. Suppunha-se um grande protector das letras, e toda a sua ambição era que o considerassem como tal; a universidade de Paris havia-lhe merecido uma especial attenção, e interessou-se tambem immenso na famosa maquina de impressão inventada por Henrique Estevão. Estabeleceu as cadeiras de Grego, Hebraico, e oratoria latina. Julgava-se poeta, e escreveu algumas poesias. A irmã, Margarida de Angouleme, mais tarde rainha de Navarra, foi uma das mais espirituosas conversadoras e uma das mais brilhantes escriptoras do seu tempo. Francisco não sympatizava nada com o desleixo e ignorancia de muitos dos clerigos de aquella epoca, e, particularmente, considerava o movimento da Reforma uma lucta da intelligencia com a estupidez. Protegeu os primeiros reformadores, chegando mesmo a auxilial-os. Francisco era um principe frivolo e egoista, que ambicionava brilhar como habil guerreiro, e cujo intento era estabelecer a absoluta supremacia do soberano. Não sympatizava com o caracter profundamente espiritual da Reforma, e as suas necessidades politicas não tardaram a prevalecer sobre o seu amor pela instrucção.
A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma.—A independencia da Egreja franceza e os direitos do reino de França em opposição ao papado haviam sido mantidos pela Sancção Pragmatica de Bourges, que definia as liberdades das egrejas nacionaes de uma maneira clara e energica. Declarou que o papa estava sujeito a um concilio ecumenico, e que este concilio se devia reunir de dez em dez annos. Declarou que todos os provimentos de elevados cargos ecclesiasticos, taes como os bispados e abbadias, deviam ser feitos por eleição, e não por designação do papa. Restringiu os dispendiosos e incommodos appellos a Roma, e sanccionou o principio de que nenhum interdicto pode abranger tanto os innocentes como os culpados. A Sancção Pragmatica tinha sido sempre cuidadosamente defendida pela Egreja franceza, e pela maioria dos soberanos de França. Era intensamente abominada pelos papas, e não podia ser olhada com muito amor por um rei que pretendia a absoluta supremacia do throno. Uma egreja independente deve zelar a independencia do povo. Francisco comprehendia que, se podesse collocar a Egreja debaixo do seu dominio, ser-lhe-hia mais facil chegar ao absolutismo. Entendeu-se, portanto, com o papa, e trocou a Sancção Pragmatica por uma Concordata, que foi, no futuro, uma grande desgraça para a França.
Mediante esta Concordata o rei renunciou aos principios dos Concilios reformistas de Basiléa e de Constancia, e consentiu em que o papa ficasse com direito ao Annates, isto é, o vencimento relativo ao primeiro anno de todos os beneficios que eram providos, concedendo o papa, em troca, que a nomeação de todos os cargos ecclesiasticos ficasse dependente do rei. Por outras palavras, era reconhecida a posição dos papas como chefes supremos da Egreja, e dava-se-lhes annualmente uma consideravel somma de dinheiro; e o rei de França era praticamente, dentro do seu reino, o chefe da Egreja, podendo dispôr de todos os arcebispados, bispados, abbadias e priorados. Fez-se denuncia d’esse tratado, e de todos os modos se trabalhou para o annullar, mas conseguiu vencer todas as opposições, e permaneceu em vigor até á Revolução.
A Concordata de 1516 é a chave da historia da Reforma franceza, e não é possivel exaggerar a importancia que ella tem para a historia ecclesiastica franceza desde o principio do seculo dezeseis. Por um lado, secularizou a Egreja franceza. Todos os officios ecclesiasticos de valor eram doados pelo rei, e tinham de ser disputados por cortezãos que só nas coisas do mundo pensavam. Por outro lado, tornou identicos os interesses da Egreja e os do throno. Opposição ao systema ecclesiastico da Egreja franceza era necessariamente opposição ao absolutismo do soberano. Esta Concordata deu uma indole particular á lucta que a Reforma produziu em França. Os reformadores não podiam deixar de ser tambem os adversarios do absolutismo; e o rei, para ter o paiz sujeito a si na sua qualidade de chefe da Egreja, via-se obrigado a sustentar o papa, que lhe concedera a supremacia.
Aconteceu d’este modo que os protestantes tiveram em França um trabalho muito diverso do trabalho de Luthero na Allemanha, porque tinham de se oppôr não só á Egreja como ao Estado. Succedeu-lhes como aos reformadores escocezes e aos protestantes dos Paizes Baixos; na Escocia, porém, a Reforma poude, por fim, estabelecer uma monarquia limitada, e na Hollanda uma republica. Em França, por outro lado, o poder real foi augmentando lentamente; e, quando chegou a um ponto elevado, a um absolutismo como o de Luiz XIV, o soberano encontrou-se apto para exterminar a egreja protestante, por meio de uma sanguinolenta perseguição.
«A Egreja que estava debaixo da Cruz».—Luthero tinha, na Allemanha, um principe do seu lado, e Calvino foi, em Genebra, auxiliado pela suprema auctoridade civil. Em França os reformadores tiveram de luctar não só contra o poder do rei como contra o poder da Egreja. A Egreja reformada, em França, não recebeu, portanto, auxilio algum do poder civil, e teve de sustentar um combate tão severo e tão rude como o que teve de sustentar a Egreja dos primeiros tres seculos. A Egreja antenicena tinha duas coisas contra si; a religião estabelecida, que era o paganismo, e o Estado, que era egualmente pagão. A Egreja reformada de França teve duas coisas contra si; foi perseguida pela egreja estabelecida no reino, que era a romana, e foi perseguida pelas auctoridades civis, pois que o poder do rei era, pela Concordata, em grande escala dependente do reconhecimento do pontifice. Foi creando lentamente forças, sob uma dupla perseguição, como a Egreja primitiva dos martyres e dos apologistas. Eram dois os emblemas que ella gravava nos seus livros e esculpia nos seus monumentos: a sarça que ardia sem se consumir, e a bigorna que levava martelladas e estava sempre inteira. O grande Beza disse um dia ao rei de Navarra: «Sire, a Egreja de Deus é uma bigorna que tem partido muitos martellos».
Francisco, ao principio, não incommodou muito os protestantes que existiam nos seus dominios; mas a sua derrota em Pavia, em 1525, e a sua alliança com o papa, mostrou-lhe que era prudente, lá no seu modo de ver as coisas, mostrar alguma vontade de expurgar da heresia as terras de que era senhor, e deu licença para que se pozessem em pratica as perseguições que tão ardentemente lhe eram pedidas pela Sorbonna, pelo Parlamento de Paris, por muitos dos bispos, pela mãe, a rainha Luiza, e por Du Pratt, o chanceller do reino. Foi só, porém, depois de Francisco ser feito prisioneiro pela segunda vez, e n’uma occasião em que precisava de dinheiro para as suas guerras, dinheiro que já não era possivel obter por meio de impostos, que elle permittiu que a heresia fosse exterminada de vez. O clero pôz á sua disposição elevadas quantias, exigindo-lhe em troca que o coadjuvasse no aniquilamento dos herejes, e o rei viu-se fornecido dos recursos de que necessitava, á custa da tortura e da carnificina dos seus subditos protestantes. Isto foi em 1528.
Severas medidas foram decretadas contra os protestantes. Era prohibida a leitura de obras protestantes; a ligação com pessoas suspeitas de heresia importava condemnação; e os herejes, onde quer que fossem descobertos, eram entregues ás auctoridades civis para serem castigados. Luiz de Berguin, homem erudito e de nobre estirpe, e n’outro tempo amigo do rei, e correspondente de Erasmo, foi a mais notavel victima d’estas disposições.
A inconstancia da politica do rei veiu alterar o estado das coisas. Francisco I intentou fazer uma alliança com os principes protestantes allemães, e recusou, portanto, associar-se a um plano geral para a exterminação da heresia.