O anno dos placards.—Em breve, porém, poz de parte este seu intento, e começaram novamente as perseguições. Os protestantes, por seu lado, mostraram uma grande somma de coragem. Imprimiram curtos folhetos em que se atacava a missa e outros ritos da Egreja Catholica Romana, e espalhavam-n’os pelas ruas e pelas escadas. O anno de 1535 foi chamado o anno dos placards. Um imprudente introduziu nos aposentos do rei um d’esses papeis em que a missa era apreciada com extrema dureza, e Francisco ficou indignadissimo. No primeiro impulso, prohibiu que se imprimisse fosse o que fosse, mas depois, revogando este decreto, entrou a serio no seu papel de perseguidor. Decretou que a heresia fosse punida com a morte; aquelle que denunciasse um hereje tinha direito á quarta parte dos bens que este possuisse, no caso de se provar a veracidade da accusação. Isto redobrou a perseguição, e em toda a França os protestantes eram accusados, condemnados, e punidos com prisão, perda de bens, e morte. Foi por este tempo que Calvino dedicou ao rei os seus Institutos.

Os ultimos annos do reinado de Francisco I foram uns annos de terrivel effusão de sangue e oppressão; e, comtudo, os protestantes augmentaram em numero, e a repressão, posto que sanguinolenta, mostrava-se inefficaz. O sangue dos martyres era a semente da Egreja. Em 1540 o Edicto de Fontainebleau intimava os officiaes de justiça a processarem todos aquelles em que houvesse mancha de heresia; a essas pessoas era negado o direito de appellação; os juizes negligentes eram ameaçados com o desagrado do rei, e os ecclesiasticos tiveram ordem para mostrar maior zelo. «Todos os subditos leaes», dizia o edicto, «devem denunciar os herejes, e empregar todos os meios para os extirparem, do mesmo modo que são obrigados a contribuir para que se ponha termo a qualquer conflagração publica». Seguiram-se outros edictos ainda mais severos, mas a Reforma foi progredindo, e tanto homens como mulheres soffriam resignadamente, por amor de Christo, todas aquellas calamidades.

Os valdenses da Durance.—A maior atrocidade commettida durante a perseguição foi o massacre dos valdenses da Durance. Uma parte da Provença que confina com a Durance chegara, dois seculos atraz, a estar quasi despovoada, e os proprietarios das terras dirigiram um convite aos camponezes dos Alpes para irem estabelecer-se nos seus territorios. Os novos colonisadores eram valdenses, e a sua industria e indole economica em breve encheram de ferteis herdades aquellas regiões desoladas. Garantiu-se-lhes que a sua religião seria protegida, pois que os seus senhorios, catholicos romanos, estavam satisfeitissimos com os serviços que elles prestavam. Quando na Allemanha e na Suissa começou a Reforma, estes aldeãos mandaram por alguns dos seus saudar os Reformadores, e em 1535 associaram-se por tal fórma ao movimento que forneceram o dinheiro necessario para publicar a traducção das Escripturas Sagradas em francez, feita por Roberto Olivetan, e corrigida por Calvino. Este procedimento despertou a hostilidade de alguns ecclesiasticos francezes.

O bispo de Aix excitou o parlamento local; fizeram-se prisões, e alguns dos aldeãos foram submettidos á tortura e soffreram morte violenta. Em 1540 o parlamento intimou quinze aldeãos de Mérindol a comparecer perante elle como suspeitos de heresia. Os aldeãos, tendo sabido que a sua morte estava resolvida, não appareceram; pelo que o parlamento fez sair o infame Arrêt de Mérindol, que, em resumo, ordenava a destruição de toda a aldeia.

A publicação d’este decreto provocou alguns protestos; o rei teve conhecimento d’elle, mandou proceder a investigações, e em resultado d’ellas deu ordem para que o referido decreto ficasse sem effeito. Foi, porém, induzido a revogar essa ordem, organizou-se clandestinamente uma expedição, e durante sete mezes de carnificina, com todos os seus acompanhamentos de traição e de infame brutalidade, foram totalmente destruidas vinte e duas cidades e aldeias, pereceram 4:000 homens e mulheres, e perto de 700 foram enviados para as galés.

Assim desappareceu uma geração, e a Reforma em França estava ainda luctando pela sua existencia no meio de perseguições mais terriveis do que aquellas de que os protestantes foram victimas n’outro qualquer paiz.

Henrique II e os Guises.—Em 1547 Francisco I morreu, succedendo-lhe Henrique II, seu filho, que seguiu a politica de seu pae, a qual obedecia ao intuito de enfraquecer o imperio da Allemanha e consolidar, em França, o poder real. Isto obrigava a occasionaes allianças com os principes protestantes allemães, e dava logar, em França, a uma continua perseguição aos protestantes. Todos os favoritos que tinha na sua côrte eram inimigos da fé protestante. O rei desposara a celebre e infame Catharina de Medicis, sobrinha do papa Clemente VII; e, além da rainha, o protestantismo tinha por inimigos poderosos e sem escrupulos: Diana de Poitiers, o Condestavel de Montmorency, primeiro ministro da corôa, que gozava de grande reputação como perito na arte da guerra e na gerencia dos negocios publicos, e os Guizes, notavel familia de procedencia estrangeira, que alcançara grande poder em França. Francisco, duque de Guize, tinha já conquistado grande renome como general; e seu irmão, o cardeal de Lorraine, que foi durante vinte e tres annos o conselheiro de Henrique II, era um dos homens mais sagazes da Europa. A irmã casou com Jayme V da Escocia, e tiveram por sobrinha Maria Stuart, rainha da Escocia, educada em França debaixo do cuidado d’elles, e casada por elles com o Delphim de França.

Francisco fizera da perseguição aos protestantes um negocio tão urgente que os tribunaes de justiça tiveram de interromper o julgamento de varias causas. Henrique creou uma nova divisão judicial, que se occupava exclusivamente dos casos de heresia, e as sentenças proferidas por estes tribunaes especiaes eram tão severas que o povo chamava-lhes chambres ardentes. Os martyres exhibiram um extraordinario heroismo, e a perseguição não estorvou o derramamento do Evangelho.

Conta-se que Henrique manifestou em certa occasião o desejo de ver com os seus proprios olhos, e interrogar, um d’esses obstinados herejes. Foi levado á sua presença um pobre alfayate, preso sob a accusação de ter trabalhado n’um dia santo, e esse homem, com grande espanto da côrte, respondeu ousada e respeitosamente a todas as perguntas sobre theologia que lhe foram feitas. Diana de Poitiers emprehendeu reduzil-o ao silencio mediante a zombaria; mas o alfayate, que lhe conhecia o caracter e estava ao facto da posição occupada por ella, retorquiu-lhe solemnemente: «Senhora, dê-se por satisfeita em ter contaminado a França, e não queira tocar com o seu veneno e com a sua immundicie uma coisa tão pura e tão sagrada como é a religião de nosso Senhor Jesus Christo.» O rei, encolerisado porque á amante fossem dirigidas estas palavras, deu ordem para que immediatamente o julgassem e executassem, e quiz assistir ao supplicio. Quando Henrique assomou a uma janella que dava para a praça onde o martyr ia ser queimado, este viu-o, e não despregou mais d’elle os olhos. Mesmo já depois de rodeiado pelas labaredas não deixou de perseguir o rei com aquelle olhar, e Henrique referiu depois que durante muito tempo aquelle espectaculo não se lhe varria da memoria durante o dia e lhe perturbava o somno durante a noite.