Tornou-se manifesto para todo o reino, incluindo a côrte, que estas repetidas execuções não estavam contribuindo para a repressão da Reforma. Outros martyres se apresentavam jubilosamente para substituir aquelles que os tinham antecedido; viuvas, mancebos, estudantes, raparigas mimosas, fidalgos da mais elevada estirpe, todos preferiam o cruel martyrio a negarem Christo. A côrte não pensava senão em medidas mais severas de repressão, e em 1551 foi promulgado um novo edicto, o de Chateaubriand, o qual, como os edictos de Decio, nos primeiros seculos, mandava destruir toda a litteratura christã, na idéa de que por essa fórma se faria desapparecer o christianismo.
Genebra estava situada na fronteira da França. Toda ella se encheu de refugiados francezes. Um certo numero de rapazes, cheios de coragem e de fé, instruidos por Calvino e seus companheiros nas verdades do Evangelho, havia-se offerecido para distribuir livros e folhetos por todos os pontos da França. O Edicto de Chateaubriand visava estes colportores, assim como os livros e tratados que elles vendiam. Prohibia terminantemente a entrada de quaesquer livros provenientes de Genebra ou de outras localidades notoriamente rebeldes á Santa Sé, a existencia nas livrarias de obras condemnadas, e toda a impressão clandestina. Estabelecia uma inspecção semestral a todas as typographias, mandava examinar todos os volumes que chegassem do estrangeiro, e submettia, de quatro em quatro mezes, a grande feira de Lyão a uma fiscalisação especial, pois que mediante ella é que se haviam espalhado pelo reino muitos livros suspeitos. Foi prohibida a venda ambulante de livros, fossem elles de que natureza fossem. Todo aquelle em cujo poder fossem encontradas cartas de Genebra era preso e castigado. Ás pessoas analphabetas não se consentia que discutissem pontos de fé nas tabernas, nas officinas, nos campos, ou em reuniões clandestinas. Por determinação da côrte, ficava, portanto, o povo impedido de se instruir, se é que edictos e officiaes de justiça o poderiam impedir. A sementeira proseguia. Dispostos para a vida ou para a morte, partiram de Genebra e de Strasburgo, para diversos pontos da França, muitos mancebos, levando comsigo Biblias, assim como livros e folhetos evangelicos. Beza mandou dizer n’uma carta a Bullinger que foram em numero espantoso os homens que se offereceram para arrostar com todos os perigos para que a Egreja de Deus avançasse.
Organisação da Egreja reformada.—No meio d’estas terriveis perseguições, os protestantes de França começaram a organizar-se em Egreja. Havia mais de trinta annos que elles, ou estudavam isoladamente a Biblia, ou formavam pequenos nucleos de crentes. A perseguição augmentou-lhes a coragem, e resolveram por fim constituir uma communidade.
O nascimento de um filho de La Ferriêre, fidalgo francez residente em Paris, em cuja casa um pequeno grupo de protestantes costumava reunir-se, é que motivou essa decisão. O pae do recemnascido declarou aos seus irmãos na fé que não podia ausentar-se de França, afim de obter que lhe fosse administrado um sacramento puro, e que de fórma alguma consentiria em que o baptismo se fizesse segundo o rito da Egreja romana. Implorou-lhes, pois, que formassem uma Egreja, e escolhessem um pastor, pondo assim termo a todas as difficuldades.
Acharam bom o alvitre, e, depois de jejuarem e fazerem oração, escolheram para pastor a João Le Maçon, que tinha por sobrenome La Riviére, contava vinte e dois annos, e havia abandonado familia, riqueza e perspectivas de um brilhante futuro pela causa de Christo. A pequena assembléa passou em seguida a escolher os presbyteros e os diaconos, estabeleceu-se uma Egreja segundo o modelo de Genebra, e foi adoptada uma breve constituição.
Faltava só em França, ao que parecia, quem se collocasse á testa do movimento. Succedendo-se rapidamente umas ás outras, as communidades constituiram-se em congregações, com os seus presbyteros e diaconos. Tres mezes depois da eleição de La Riviére, foi de Paris enviada a Genebra uma carta em que se pedia outro ministro. Passado um mez, Angers tinha tres pastores protestantes; e, posto que a perseguição continuasse sempre com a mesma violencia, nunca deixava de haver quem se offerecesse para esses perigosos logares, e a Reforma ia fazendo progressos.
Os Huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon.—Vendo que eram inuteis todos os esforços empregados para impedir a Reforma, o cardeal propoz o estabelecimento, em França, de uma Inquisição, modelada pela de Hespanha, de que Fillippe se havia servido, com tanta efficacia, para escorraçar de seus dominios a heresia. O espirito de liberdade constitucional não estava, porém, tão morto em França que se permittisse a perda total de todas as garantias que as leis concedem aos innocentes, o que necessariamente viria a acontecer se se introduzisse a inquisição hespanhola. Os varios tribunaes, e em particular os parlamentos, protestaram contra essa proposta. O rei e os seus conselheiros insistiram na adopção de similhante medida, mas em breve descobriram, para seu espanto, que o unico resultado colhido foi algumas pessoas nobres, das que de maior influencia dispunham, se declararem protestantes; e de ahi em deante (1558) a côrte e os romanistas tiveram de se defrontar com um forte partido huguenote.
A devassidão da côrte franceza trazia desgostosos muitos dos principaes representantes da nobreza, e o que elles observaram tambem no procedimento do clero levou-os a procurarem homens de vida pura que os instruissem no christianismo. Alguns membros da mais alta aristocracia que antipathizavam com os Guizes aggregaram-se aos calvinistas, uns por simples politica, mas muitos outros por convicção. Estes homens faziam uma opposição moral á licenciosidade da libidinosa vida palaciana, que Francisco I tinha animado, e uma opposição politica ao systema absolutista do rei e dos seus conselheiros.
Á testa d’este partido estavam os irmãos Bourbon, o almirante Coligny e seu irmão Francisco d’Andelot.
Um filho de S. Luiz havia desposado a herdeira da casa Bourbon, e esta familia era, no meiado do seculo dezeseis, representada por Antonio, duque de Bourbon, que, na falta do rei e dos filhos d’este, era o herdeiro do throno de França, e por seu irmão Luiz, duque de Condé. Antonio Bourbon tinha casado com a piedosa e heroica filha de Margarida de Angouleme, Joanna d’Albret, herdeira da corôa de Navarra, cujo filho foi Henrique IV de França. Em virtude do seu casamento, recebeu o titulo de rei de Navarra, e residia uma grande parte do tempo em Pau, onde assistia ás prégações dos pastores protestantes. Quando voltou para a côrte, começou tambem lá a frequentar as reuniões evangelicas, e declarou-se, por fim, protestante. O duque de Condé fez o mesmo. Andelot, o irmão mais novo do almirante Coligny, e a quem o povo chamava «o cavalleiro sem pavor», introduziu prégadores protestantes no seu castello da Bretanha, os quaes dirigiam a palavra a grandes agglomerações de gente. Foi preso, mas, em vista da sua gerarquia e do seu poder, não se atreveram a castigal-o.