Henrique, derrotado pelo partido opposicionista, concluiu um tratado de paz com a Hespanha para poder dedicar toda a sua actividade á destruição dos calvinistas. Era vastissimo, segundo se diz, o plano que elle tinha preparado. Genebra e Strasburgo iam ser destruidas, e a heresia soffreria um golpe mortal, tanto em França como nos Paizes Baixos. No meio, porém, d’estes preparativos, Henrique, ferido accidentalmente n’um torneio que teve logar em Junho de 1559, morreu.

O primeiro synodo nacional.—Um caso interessante é que, ao mesmo tempo em que se estavam planeando novas medidas de repressão, os protestantes francezes houvessem tomado uma deliberação que era mais um testemunho da sua progressiva força. Debaixo de muito segredo, reuniram, n’uma casa do Faubourg St. Germain, o seu primeiro Synodo Nacional. O que motivou essa reunião foi o seguinte: Em 1558, quasi no fim do anno, Antonio Chandieu, pastor de uma das egrejas de Paris, foi a Poitiers, afim de auxiliar o serviço da Communhão que se ia celebrar n’esta cidade. Encontrou-se lá, como era vulgar em similhantes occasiões, com pastores que tinham vindo de varios pontos, e, conversando ácerca do estado da Egreja, lamentaram a falta de unidade, assim como de modelos doutrinaes. Chandieu foi encarregado de apresentar no consistorio de Paris as opiniões dos irmãos. Resultou de ahi que a congregação parisiense enviou cartas ás outras congregações, convidando-as a mandar delegados a uma conferencia que ia realisar-se em Paris. Foi d’esta maneira que teve origem o primeiro Synodo Nacional. Era uma pequena assembléa, em que estavam representadas onze congregações apenas; mas proveu a Egreja franceza de uma Confissão de Fé e de um Livro de Disciplina.

A Confissão, conhecida depois pelo nome de Confessio Gallica, foi provavelmente redigida por Chandieu, e baseava-se n’uma resumida Confissão que Calvino compoz, chamando para ella a attenção do rei. Foi mais tarde revista por mais de uma vez, mas podemos ainda chamar-lhe a Confissão da Egreja Protestante Franceza.

O Livro da Disciplina Ecclesiastica foi modelado pelas Ordenanças que Calvino escreveu para uso das egrejas de Genebra, mas contém notaveis differenças, e mostra o que o livro de Calvino teria sido se o conselho de Genebra lhe houvesse dado toda a liberdade de acção. A constituição da Egreja franceza era inteiramente democratica e de um caracter representativo. Reconhecia os consistorios, que já existiam nas congregações, e, para os tornar verdadeiramente representativos, preceituava que as eleições para presbyteros e diaconos fossem annuaes. Provia tribunaes de appellação nos synodos provinciaes, que se reuniam duas vezes por anno, e em que cada congregação era representada por um pastor e um presbytero; e unia a Egreja toda sob um Synodo Nacional, ou Assembléa Geral, que constituia o ultimo tribunal de appellação, e a suprema auctoridade ecclesiastica.

É interessante observar como n’um paiz cujo governo se tornava de anno para anno mais arbitrario e absolutista esta «Egreja sob o peso da Cruz» organizava para seu uso um governo, que reconciliava mais perfeitamente talvez do que todos quantos teem sido organizados desde então, o principio da soberania popular com o de uma suprema auctoridade central. Para a constituição do presbyterianismo escocez a França contribuiu mais do que Genebra, e a organização da primitiva Egreja escoceza, a de Knox, era quasi uma exacta reproducção da franceza, O facto d’ella se afastar posteriormente do modelo francez, tornando vitalicios os cargos de presbytero e diacono, e a usurpação do exclusivo direito, pela junta mais moderna do presbyterio, de enviar representantes á Assembléa Geral, privou o presbyterianismo escocez, inglez e americano de uma grande parte do elemento popular que constituia a força das primitivas egrejas escocezas e francezas.

Anne de Bourg.—A morte do rei não alterou em coisa alguma a politica da côrte. Succedeu-lhe Francisco II, um mancebo de dezeseis annos. Este tinha por esposa Maria, rainha da Escocia, e sobrinha dos Guises, e a sua subida ao throno atirou com o poder para as mãos d’este fanatico partido, que era capaz de tudo para conseguir os seus fins. Os Guises, porém, não podiam fazer aquillo que só um legitimo soberano, consciente do poder que n’elle reside, pode fazer. Pediram com instancia medidas para a repressão dos protestantes mediante a exterminação, e aquelle seu grande empenho em que se derramasse sangue veiu por fim voltar-se contra elles proprios.

O partido recebeu um golpe tremendo com o julgamento e execução de Anne de Bourg, sobrinha de um dos chancelleres de França, que era tambem juiz. O seu crime consistiu em ter, em conselho publico, dito a Henrique II que era uma coisa muito seria condemnar aquelles que, no meio das chammas, invocavam o nome do Salvador dos homens. Quando, mais tarde, foi interrogada pelos Guises, fallou com tanta eloquencia e ousadia que ganhou o apoio de uma grande parte do publico. Ao ser proferida a sentença de condemnação á morte por meio da fogueira, tornou a fallar com um tão tocante fervor, com uma resolução tão pathetica, que até os proprios juizes se commoveram «Coisa alguma nos poderá separar de Christo, sejam quaes forem as ciladas que nos armem, sejam quaes forem as enfermidades que ataquem os nossos corpos. Sabemos que somos ha muito como ovelhas que são levadas para o matadouro. Que nos matem, pois, que nos despedacem; os que morrem no Senhor não deixam jámais de viver, e todos hão de apparecer na resurreição geral.... E, sendo assim, para que hei de eu permanecer mais tempo n’este mundo? Apodera-te de mim, verdugo, e conduze-me ao logar do supplicio.»

Desde a execução de Bourg a historia do protestantismo francez começa a ser outra. Os protestantes, que a pouco e pouco se haviam compenetrado da força de que dispunham, começaram de aquelle ponto em deante a reunir-se para tratarem do modo como se deviam manter na defensiva, e do modo como deviam aproveitar a crescente impopularidade dos Guises. Alguns dos mais impetuosos foram de parecer que se arvorasse immediatamente o estandarte da revolta. Calvino e Beza, a quem consultaram, dissuadiram-n’os de uma insurreição declarada. Não obstante, organizou-se uma conspiração. La Renaudie, protestante, e inimigo declarado dos Guises, foi o chefe d’essa conspiração, e a guerra civil que depois se seguiu teria sortido bom effeito se a conspiração não houvesse sido denunciada. Os Guises tiraram uma sangrenta vingança dos humildes adversarios da sua politica, e houve enormes carnificinas, particularmente em Amboise, que ficaram bem gravadas na memoria dos huguenotes. Os Guises accusaram judicialmente Condé de ser o cabeça da conspiração. Este requereu uma assembléa de todos os principes e de todos os membros do Conselho privado, e desafiou os seus inimigos a que o denunciassem. O duque de Guise não se sentiu com animo de o atacar de novo.

O morticinio de Amboise, longe de aterrorizar os protestantes, parece que lhes deu uma nova coragem. Começaram então a ser conhecidos pelo nome de Huguenotes. A origem d’este nome é obscura; tudo o que ao certo sabemos a seu respeito è que depois da conspiração de Amboise andava na bocca de toda a gente. Em Valence um bando armado apoderou-se da Egreja dos franciscanos, onde os serviços religiosos passaram a ser feitos por prégadores protestantes, sendo enorme a assistencia do povo. A Ceia do Senhor foi, por bandos armados, celebrada «á moda de Genebra», em Nismes, no Languedoc. O tempo das assembléas secretas tinha passado, e grandes reuniões ao ar livre, no norte, meio-dia e sul da França, demonstravam que a Reforma tinha sido abraçada por uma immensa quantidade de gente.