Coligny na Assembléa dos Notaveis.—A côrte, comtudo, estava convencida de que a unica politica a seguir era a de exterminaçao, e as perseguições continuavam com o mesmo vigor. Necessitava, porém, de dinheiro, pois que as despezas do reino foram gradualmente excedendo as receitas, e em Fontainebleau foi, por fim, convocada uma Assembléa dos Notaveis. Os protestantes aproveitaram a opportunidade, apresentando o almirante Coligny, chefe da grande casa de Chatillon, duas supplicas, uma ao rei, outra á rainha mãe, da parte dos huguenotes da Normandia. Pediam a cessação das perseguições e a liberdade para celebrarem publicamente o culto divino.
Este corajoso acto de Coligny fez com que outros ganhassem animo. O bispo de Valence fallou a favor dos huguenotes da sua diocese, e pediu que fossem revogadas as leis que se oppunham á entoação dos hymnos e á leitura das Escripturas, e que se convocasse um concilio geral. O arcebispo de Vienne ainda se atreveu a mais. Perguntou se «estava resolvida a morte da França para agradar a Sua Santidade». A côrte viu-se obrigada a permittir que se realisasse a tal assembléa geral.
Os Guises não desanimaram. Para exterminio do protestantismo, tomaram a resolução de matar os seus homens de maior nomeada, e, segundo parece, tinham tambem em mente um massacre geral dos huguenotes. Fizeram com que o rei chamasse á côrte os Bourbons, isto é, o rei de Navarra, e seu irmão Luiz, duque de Conde, os quaes, sem se importarem com o perigo, para lá partiram.
O duque foi preso e sentenciado á morte, e o rei de Navarra por pouco escapou de ser assassinado. Quando, porém, a tempestade estava prestes a estalar, o rei adoeceu e morreu.
«Já lêstes ou vos referiram» diz Calvino n’uma carta que enviou a Sturm, «algum acontecimento mais opportuno do que esta morte do rei? Quando a desgraça tinha chegado a tal ponto que não se podia remediar, Deus revela-Se de subito lá do céu. Aquelle que traspassou os olhos do pae feriu agora os ouvidos do filho».
Catharina de Medicis.—Pela morte de Francisco ficou herdeiro do throno Carlos IX, que tinha então dez annos. Para regente foi nomeado o protestante Antonio de Bourbon, rei de Navarra. A mãe do joven rei, Catharina de Medicis, de quem haviam feito pouco caso durante a vida do marido, e que havia sido offuscada pelos Guises durante o reinado de seu filho mais velho, reivindicou então o direito de governar, na qualidade de tutora natural de seu filho. Os amigos do rei de Navarra instaram com este para que tambem fizesse valer os seus direitos. Se elle assim tivesse procedido, o futuro da França seria, porventura, mais pacifico. Ter-se-hia alcançado uma duradoura tolerancia religiosa, e ter-se-hiam lançado os alicerces de uma monarquia constitucional; elle, porém, teve a fraqueza de não fazer valer esses seus direitos, e Catharina foi investida no poder.
As circumstancias, porém, obrigaram-n’a a fazer concessões a todos os partidos. Não podia passar sem o apoio dos Guises, e ao mesmo tempo era indispensavel entrar em negociações com os huguenotes. Todos os herejes que estavam presos recuperaram, por meio de um edicto, a sua liberdade, mas foram avisados de que deviam não dar mais motivo de queixa. No entretanto reunia-se o Estado Geral, que havia sido convocado antes da morte do ultimo rei.
Coligny pediu, em nome dos huguenotes, liberdade de religião; uma reforma no governo da Egreja, e, em particular, a eleição livre dos bispos e do clero; um concilio nacional, sob a presidencia do rei, para discutir as questões religiosas, e, no entretanto, egrejas para os protestantes, e uma reunião da Assembléa dos Notaveis de dois em dois annos. Offereceu-se tambem para auxiliar o governo na promulgação de uma lei que auctorizasse a venda dos bens da Egreja para occorrer ás despezas do Estado.
As reclamações de Coligny constituiam, no dizer de Ranke, o programma da revolução do seculo dezoito; e, se ellas tivessem sido attendidas, essa revolução não seria assignalada com o atheismo que a desacreditou, e não seria necessario derrubar a monarquia e a aristocracia. A côrte não estava preparada para essas mudanças radicaes, e o mais que se poude obter de Catharina foi uma conferencia religiosa em Poissy, onde podessem ser discutidos pontos de fé entre pastores protestantes e padres catholicos romanos.
Em virtude da tolerancia que havia sido concedida aos huguenotes, voltou para França muita gente que se tinha refugiado na Inglaterra, na Allemanha, nos Paizes Baixos, e até mesmo na Italia. Vieram tambem alguns pastores de Genebra, não faltando, d’esse modo, homens bem instruidos que dirigissem as congregações protestantes. Era impossivel, porém, mudar todas as coisas por meio de um compromisso politico. Os Guises ameaçavam vingar-se. O idoso condestavel de Montmorency, que se tinha na conta de ser o campeão da antiga fé, resolvera oppôr-se áquella corrente conciliatoria, e fanaticas turbas se levantaram contra as assembléas protestantes. Nas localidades onde os huguenotes estavam em maioria, tornou-se difficil evitar que elles decisiva e energicamente defendessem os seus direitos. N’algumas cidades o povo correu em massa ás egrejas, derrubou as imagens e os quadros, e queimou as reliquias. Os que entre os huguenotes occupavam os primeiros logares fizeram todo o possivel por conter os seus correligionarios. Calvino escreveu de Genebra, protestando energicamente contra toda e qualquer illegalidade. «Deus nunca disse a pessoa alguma que destruisse os idolos, exceptuando aquelles que cada um tenha em sua casa, ou os que em publico se encontrarem revestidos de auctoridade.... A obediencia é melhor do que o sacrificio, e devemos ver bem o que nos é licito fazer, e manter-nos dentro de certos limites».