A Conferencia de Poissy.—A data designada para a Conferencia approximava-se com rapidez, e por toda a parte eram convidados todos os francezes que tivessem qualquer coisa a dizer em materia de religião a apresentarem-se na proxima assembléa de Poissy, na certeza de que não correriam perigo algum e seriam escutados com a maxima attenção. Os huguenotes tinham grande empenho em que Beza comparecesse, e pediram-lhe encarecidamente que fosse lá represental-os. Elle ao principio não queria ir, pois que estava convencido de que de similhante rainha se não tiraria resultado algum. Por fim acquiesceu, e os huguenotes ficaram descançados por saberem que os seus interesses estavam entregues em tão boas mãos.
Francez, nascido, em 1519, em Vezelay, e de nobre ascendencia, renunciara a um brilhante futuro ao abraçar a causa da Reforma. Era um homem de magestosa presença, muito illustrado, e de um trato captivante. Abaixo de Calvino, era elle a pessoa por quem as egrejas reformadas se deixavam guiar com maior confiança, e em quem viam o seu mais legitimo representante. Foi recebido pelo rei de Navarra, e por seu irmão, Luiz de Condé, e apresentado por elles á rainha mãe e ao cardeal de Lorraine. O seu porte, a sua erudição, e os seus modos de grande personagem, produziram sensação na côrte.
Quando teve logar a discussão publica, tornou-se tristemente manifesta a ignorancia dos bispos francezes, e o cardeal de Lorraine e outros mais trataram logo de pôr termo á conferencia, ou, no caso de não conseguirem esse proposito, de a tornarem completamente esteril. O resultado da discussão foi ambas as partes nomearem delegados para conferirem sobre determinados pontos, e d’essas conferencias proveiu um Edicto de Tolerancia, publicado em Janeiro de 1562.
Os protestantes tinham de renunciar ás suas egrejas e ás suas reuniões secretas, mas era-lhes permittido fazer os seus cultos ás claras, e a qualquer hora do dia, fora das povoações; e todos os seus ministros eram obrigados a declarar, sob juramento, que não ensinariam coisa alguma que não estivesse de accordo com as Escripturas e com o Credo de Nicéa. A tolerancia era, como se vê, muito limitada; mas desapparecia o fundamento legal para qualquer perseguição, e Calvino e Beza foram de parecer que um tal compromisso, não obstante as pouco favoraveis condições em que era feito, devia ser acceite. «Se a liberdade que o Edicto nos promette fôr duradoura», escreveu Calvino, «o papismo cae por si mesmo».
Os catholicos romanos não estavam de fórma alguma dispostos a chegar a um accordo com os protestantes. Os funccionarios civis, nas cidades e nas provincias, pertenciam á religião do estado, e os parlamentos, ou tribunaes de justiça permanentes, abominavam o protestantismo. Sabia-se, além d’isso, que o Edicto da Tolerancia era apenas um ardil de Catharina para ganhar tempo. Por outro lado, os Guises eram formalmente oppostos a qualquer convenio, e todas estas circumstancias incitaram os dois partidos a prepararem-se para uma guerra civil.
O massacre de Vassy: outros massacres.—O signal foi dado pelo duque de Guise, o qual, com o maior atrevimento, violou o Edicto da Tolerancia. No dia 1.º de Março de 1562, a um domingo de manhã, entrou, á frente de um grupo de cavalleiros armados, na cidade de Vassy, onde uma pequena e indefeza congregação de protestantes estava prestando culto a Deus n’um celleiro. Quasi no fim levantou-se um tumulto, e as pessoas presentes, que não tinham armas para se defender, foram, na sua grande maioria, assassinadas. Foi este o inicio d’essas medonhas guerras civis que tanta devastação produziram em França até Henrique IV subir ao throno.
O exemplo da carnificina que teve logar em Vassy foi seguido em muitos outros pontos em que os catholicos romanos estavam em maioria. Em Paris, em Sens, em Rouen, em toda a parte, emfim, os logares de culto protestantes foram atacados e os que n’elles se haviam reunido tiveram morte violenta. Em Toulouse os protestantes, temendo uma carnificina, fecharam-se no Capitolio; foram atacados pelos catholicos romanos, e, ao cabo de uma certa resistencia, entregaram-se sob a promessa de que lhes seria permittido sair da cidade sem serem molestados. Uma vez cá fóra, foram todos massacrados—homens, mulheres e creanças, tendo perecido, ao todo, para cima de 3000 pessoas. Este morticinio de protestantes, em que houve violação de um juramento, foi commemorado pelos catholicos romanos de Toulouse em 1662 e 1762, e tel-o-hia sido egualmente em 1862 se o governo de Napoleão III se não houvesse opposto á celebração do centenario.
Estes sanguinolentos massacres provocaram represalias. Os huguenotes precipitaram-se para as egrejas papistas, e destruiram as imagens, os altares e as reliquias. Destruição de imagens e derramamento de sangue era a ordem do dia na maior parte das provincias de França.
A guerra civil. Os iconoclastas.—No meio de tudo isto os dois partidos formaram-se gradualmente em dois exercitos inimigos, ficando um, o papista, sob o commando de Francisco, duque de Guise, e o outro, o protestante, sob o commando de Luiz, duque de Condé, e do almirante Coligny. A França poude então presenciar todos os horrores de uma guerra civil, em que o fanatismo religioso accrescentou, ás barbaridades communs a todas as guerras, as mais atrozes crueldades.
O embaixador de Veneza, escrevendo aos chefes do seu Estado, exprimiu a opinião de que esta primeira guerra religiosa obstou a que a França se tornasse protestante. As crueldades dos papistas tinham desgostado um grande numero de cidadãos francezes, que, sem serem impulsionados por fortes sentimentos religiosos, ter-se-hiam de muito bom grado alliado áquelles que, pela sua moderação, se mostravam competentes para inaugurar, e manter na pratica, um systema de tolerancia. Os chefes huguenotes faziam o maximo empenho em poder provar que os seus adherentes sabiam fugir aos excessos, e Calvino e Beza recommendaram que não se interviesse no culto dos catholicos romanos, excepto quando o caso fosse tratado judicialmente, e ainda assim com muita serenidade. Não, foi, porém, possivel evitar que os protestantes despedaçassem as imagens e dessem cabo de tudo quanto encontraram nas egrejas.