A matança de S. Bartholomeu.—Esta terrivel carnificina de protestantes, que teve logar na vespera de S. Bartholomeu (24 de Agosto de 1572) foi obra de Catharina de Medicis, de Henrique de Anjou e dos Guises. A matança foi feita em Paris por 20:000 milicianos da cidade, coadjuvados por alguns soldados e pelos mercenarios suissos, que eram pagos pelo duque de Guise. As forças a que se commetteu aquella tarefa eram commandadas pelos irmãos Guise.

Assassinaram em primeiro logar Coligny e alguns dos principaes cabeças, e depois o massacre tornou-se geral. As casas dos protestantes tinham sido previamente marcadas com cruzes brancas, e os assassinos, para reconhecimento mutuo, traziam faxas brancas, além de outros signaes. Só em Paris foram mortos, pelo menos, 2000 homens, metade dos quaes eram pessoas de distincção. O historiador protestante Crespin diz que foram mortos em Paris 10:000; e Brantôme, creatura sceptica e dissoluta, fixa o numero em 4000. Organizaram-se carnificinas pelas provincias, e o numero das victimas tem sido calculado entre 30:000 e 100:000. Sully, primeiro ministro de Henrique IV, que estava provavelmente bem inteirado, affirma que cairam sem vida 70:000 pessoas.

Ultimamente os escriptores catholicos romanos não se teem mostrado muito orgulhosos de aquelle commettimento, mas quando a matança teve logar muitos d’elles exultaram. Sabe-se perfeitamente que, se o acto não foi instigado de Roma, o papa e a curia estavam, pelo menos, scientes de que elle ia realisar-se. Houve illuminações em Roma para festejar o acontecimento, os canhões do castello de S. Angelo salvaram, organizou-se uma procissão que foi até á egreja de S. Marcos, e cunhou-se uma medalha para commemorar o Hugonotorum Strages. Alguns dos principes catholicos romanos enviaram mensagens de congratulação, e diz-se que o pobre e corrompido Filippe II de Hespanha sorriu, pela primeira e ultima vez na sua vida, quando a noticia lhe constou.

O massacre diminuiu cruelmente o poder dos huguenotes, e privou-os de quasi todos os seus caudilhos; mas elles continuavam a existir, e, em vez de se intimidarem, de se darem por vencidos, perante aquelle acto sanguinario, resolveram em seus corações vingar-se d’elle. Ainda restavam algumas cidades em poder dos protestantes; La Rochelle, Sancerre, Nismes, Montauban, e ainda outras, fecharam as suas portas, e negaram-se a dar entrada aos governadores que de Paris lhes enviaram.

La Rochelle foi atacada pelas tropas reaes commandadas por Henrique de Anjou, e os habitantes soffreram todas as calamidades de um cerco, obrigando, por fim, os sitiantes a retirar-se. Uma egualmente bem succedida resistencia da parte de outras cidades forçou a côrte a entrar em negociações com os seus odiados subditos protestantes, e ficou restabelecida a paz.

D’esta vez os huguenotes convenceram-se de que deviam estar sempre preparados para a guerra. Os horrores da vespera de S. Bartholomeu haviam-lhes mostrado o quão implacaveis eram os seus inimigos, e a traição por elles commetida quando foi do cerco e capitulação de Sancerre deu-lhes uma prova da sua deslealdade. Os protestantes estiveram sitiados oito mezes, e durante esse periodo morreram de fome quinhentos homens, pelo menos, e todas as creanças com menos de doze annos. «Porque chora», exclamou um rapazito de dez annos, «ao ver-me morrer de fome? Eu não lhe peço pão, mãe; sei que não tem nenhum para me dar. Visto Deus querer que eu morra d’esta forma, devemos acceitar isso alegremente. Lazaro, aquelle homem santo, não tinha tambem fome? Não o li eu na Biblia?» E depois de a cidade se haver rendido teve logar, não obstante a promessa que lhe tinha sido feita sob juramento, uma horrivel scena de homicidio e pilhagem.

Os huguenotes, que não tinham quem os dirigisse, resolveram organizar-se, para que podessem estar sempre promptos, e tão diligentemente pozeram os seus planos em execução que n’um curto prazo se encontraram aptos para pôrem 20.000 homens em campo, á primeira voz. Foi em Montauban que tudo organizaram, e foi de lá que dirigiram uma representação ao rei, em que Coligny havia insistido pouco antes de principiarem as guerras religiosas. A côrte ficou sabendo que o espirito huguenote não se havia extinguido. Desde a matança de S. Bartholomeu um outro partido ia adquirindo lentamente importancia em França. Era elle constituido pelos catholicos romanos moderados, que estavam fartos de carnificinas, e que attribuiam todos os males do Estado ao poder de que os estrangeiros dispunham no reino. Exigiam a expulsão dos florentinos e dos lorrenezes, isto é, da rainha-mãe e dos Guises; e insistiam na reintegração das antigas liberdades da nação. Estes «Politicos», como também eram chamados, ainda mais se aferraram ás suas idéas quando tiveram conhecimento do traiçoeiro ataque a La Rochelle, e do programma politico que os huguenotes expozeram em Milhau, e, revestidos de paciencia, esperaram a occasião de intervir.

Posto que o cerco de La Rochelle e de outras cidades protestantes—a quarta guerra religiosa, como lhe chamaram—fosse seguido de um tratado de paz, nunca, de um modo ou do outro, se deixou de combater, e a rejeição do pedido feito pelos huguenotes não permittia duvidas quanto á imminencia de outra guerra ainda. Entretanto Carlos IX morria, em Maio de 1574, de uma terrivel enfermidade em virtude da qual o sangue lhe sahia por todos os poros da pelle, e o povo attribuiu-a a um castigo da carnificina de S. Bartholomeu. Succedeu-lhe Henrique de Anjou, o terceiro e mais vil dos filhos de Catharina, e que era o favorito d’esta. Henrique era ao mesmo tempo um papista cheio de superstições e um libertino cheio de impudencia.

Henrique III tinha-se, durante a vida de seu irmão, associado aos Guises, e adherira ao partido papista; pouco depois de subir ao throno, porém, como o amedrontasse a possibilidade de uma alliança entre os «politicos» e os huguenotes, concedeu, por meio de um edicto, uma parte do que os protestantes pediam. Concedeu, exceptuando em Paris, uma illimitada liberdade religiosa, egualdade de privilegios sociaes, o direito de ser julgado por um tribunal composto, em partes eguaes, de romanistas e de protestantes, e, além d’isso, ficavam oito fortalezas, como penhor, nas mãos dos protestantes.

A Santa Liga.—Este procedimento do rei deu logar á fundação da Santa Liga, sociedade formada pelos Guises e pelos jesuitas, cujo fim era promover uma alliança dos catholicos francezes com Filipe II de Hespanha e com o papa. Visava, em primeiro logar, a governar a França no interesse da fé catholica romana, não transigir em coisa alguma com os huguenotes, e impôr-se ao rei; para mais tarde ficaria o aniquilar os Bourbons, ou, pelo menos, o impedir que a corôa passasse para Henrique de Navarra.