CAPITULO IV
A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS

Os Paizes Baixos, [pag. 113].—A politica de Carlos V, [pag. 114].—Os principios da Reforma, [pag. 115].—Filippe II e os Paizes Baixos, [pag. 115].—A inquisição, [pag. 117].—Os novos bispados, [pag. 118].—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? [pag. 119].—Os mendicantes, [pag. 120].—Prégações ruraes, [pag. 120].—O duque de Alba nos Paizes Baixos, [pag. 121].—A prisão do conde Egmont e do conde Horn, [pag. 122].—A guerra civil. O principe de Orange, [pag. 124].—Os mendigos do mar, [pag. 124].—A tomada de Brill, [pag. 126].—Requescens y Zuniga, [pag. 128].—O cerco de Leyden, [pag. 129]. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, [pag. 130].—D. João de Austria, [pag. 131].—Alexandre de Parma, [pag. 132].—O tratado de Utrecht, [pag. 132].—A Egreja hollandeza, sua organização e confissão, [pag. 133].—O Confessio Belgica, [pag. 134].—A constituição da Egreja hollandeza, [pag. 134].—A força da Egreja na Hollanda, [pag. 136].

Os Paizes Baixos.—A revolta dos Paizes Baixos contra Roma foi talvez a ultima d’esse genero se a datarmos do triumpho final, mas aquelle paiz teve a honra de fornecer os primeiros martyres da fé protestante.

Os Paizes Baixos ficavam em volta das boccas do Scheldt e do Rheno, e na edade media constituiam o lado norte do velho reino de Lotharingia, ou Lorrena, o celebre reino central, como era chamado. A sua situação, com uma extensa costa maritima, e os grandes rios que o atravessavam, tornava-o naturalmente um paiz commercial. O mar estava constantemente usurpando a parte secca, e era necessario oppôr-lhe diques; os rios trasbordavam, e era necessario evitar que os campos ficassem submergidos.

A perpetua lucta com a natureza a que estes perigos forçavam o povo fez d’elle uma gente endurecida e apta para tratar de si sem o auxilio alheio. O paiz abundava em grandes cidades, habitadas por gente livre e opulenta. A vida burgueza começou mais cedo nos Paizes Baixos do que na maioria das nações europeas. A liberdade civica era conhecida apreciada. N’alguns pontos os dirigentes eram principes, ou bispos-principes; n’outros havia um conselho districtal, o qual, como succedia em Utrecht, considerava seu subdito o bispo da provincia.

Outras influencias contribuiam, para que se preservasse o espirito da liberdade. O sul dos Paizes Baixos tinha sido a terra dos Trouvères, e a sua influencia era ainda bastante para que no povo se conservasse vivo o espirito anti-clerical. O clero romano nunca teve muito predominio nas cidades mais importantes, e mesmo nas provincias não conseguiu jámais levar de vencida as «Camaras de Oradores», como eram chamadas, as quaes algumas vezes, sob o disfarce de clubs de archeiros, ou sociedades de canto, eram na realidade agrupamentos que tinham por fim cultivar os talentos dramaticos dos seus membros, ou para representarem os oratorios medievaes, ou, mais frequentemente, para comporem e recitarem poesias satyricas e comicas em que os vicios dos homens da Egreja eram inexoravelmente atacados.

Os Paizes Baixos tinham sido tambem o theatro dos labores de Gerardo Groot, o fundador das escolas para creanças pobres e dos asylos para orphãos; e os seus collaboradores, os Irmãos da Vida Commum, tinham diffundido os seus sentimentos de mystico desprezo por uma Egreja mecanica e politica, e a sua ambição de que todos os paizes em redor fossem devidamente educados e seguissem a religião do coração. Thomaz á Kempis, João Wessel, João Goch, e outros reformadores que viveram antes da Reforma, todos elles eram dos Paizes Baixos.