A politica de Carlos V.—No seculo quinze a maior parte d’estes estados livres e d’estas cidades opulentas tinha caido sob o dominio dos duques de Borgonha, que eram ao mesmo tempo vassalos da corôa franceza e do Imperio. Não vem agora a proposito relatar a avidez com que Filippe o Bom, e seu filho, Carlos o Ousado, luctaram para fazer do seu ducado um reino, e para mostrar como o genio violento de Carlos deu motivo a que os seus planos fracassassem. Os paizes arrancados ás garras da França constituiram o dote de Maria de Borgonha, filha de Carlos, quando casou com Maximiliano de Austria, que era neto de Carlos V, o imperador na epoca em que se deram os primeiros episodios da Reforma.

Carlos V, que era conde de Hollanda, e stadtholder dos Paizes Baixos, assim como rei de Hespanha e imperador da Allemanha, nasceu e foi educado nos Paizes Baixos, e reputava essas provincias suas propriedades exclusivas. A politica constante do imperador foi a de auxiliar, até onde podesse ser, os privilegios provinciaes e a liberdade civica, e nos Paizes Baixos fez tudo quanto estava ao seu alcance para centralizar o governo e remover os antigos privilegios constitucionaes. O povo não recebia com agrado estas medidas, mas attribuia-as a conselhos de procedencia hespanhola.

Os principios da Reforma.—Quando a Reforma começou na Allemanha, e foi publicado o famoso edicto de Worms, collocando Luthero, os seus adherentes e as suas obras sob o anathema do Imperio, Carlos fez sair nos Paizes Baixos um decreto que continha disposições similhantes. O edicto foi inefficaz na Allemanha, mas Carlos poude constranger á obediencia nos Paizes Baixos. Em 1523, dois frades agostinhos, Henrique Voes e João Esch, foram detidos pelas auctoridades, e, apoz um inquerito, foram queimados em Bruxellas, sendo elles os primeiros martyres da Reforma. Luthero compoz um hymno em sua honra, que intitulou «Cantico dos dois martyres de Christo em Bruxellas, queimados pelos Sophistas de Louvain.» Foram prohibidas as reuniões religiosas, assim como a introducção das obras de Luthero.

Não obstante estas restricções, o Novo Testamento de Luthero foi traduzido em hollandez, e impresso em Amsterdam em 1523, e as doutrinas da Reforma tornaram-se largamente conhecidas.

Os regentes que estavam á frente das dezesete provincias em nome de Carlos não deram plena execução aos severos edictos que lhes foram confiados. Margarida de Saboya, tia de Carlos, era inclinada á tolerancia em materia de religião, e Maria da Hungria, sua irmã, era, segundo se diz, secretamente partidaria da Reforma. N’estas circumstancias o movimento alastrou-se com rapidez no meio do povo, que estava acostumado a ler, pensar e julgar por si proprio; pois que, diz um historiador, «até nas cabanas dos pescadores da Frisilandia se depara com pessoas aptas não somente para ler e escrever, como tambem para discutir, quaes letrados, as interpretações biblicas.»

O movimento soffreu um grande revez com uma irupção do fanatismo anabaptista em 1534. Em Leyden os fanaticos tentaram apoderar-se da cidade e incendial-a. Em Amsterdam percorreram as ruas soltando loucos vaticinios. Na Frisilandia penetraram n’um convento, e combateram desesperadamente com os soldados que pretendiam fazel-os abandonar o edificio. O governo foi inexoravel com elles. Deu-se-lhes uma verdadeira caça, e foram torturados e mortos, affirmando-se que pereceram quasi trinta mil pessoas, e entre ellas muitos e pacificos protestantes que não approvavam de modo algum aquelles ardores anabaptistas. A Reforma, apezar d’este contratempo, foi fazendo progressos nos Paizes Baixos, até que, em 1555, Carlos V abdicou em seu filho Filippe II, começando então o povo a luctar pela liberdade politica e religiosa.

Filippe II nos Paizes Baixos.—Carlos viu todos os seus projectos transtornados pela Reforma; seu filho Filippe resolveu adoptar a mesma politica, usando, porém, do maior rigor e severidade. «Queria impôr, illimitada e incondicionalmente, o despotismo temporal e espiritual a que o restabelecido poder pontificio aspirava.» Sabemos agora que o empreendimento de Filippe era, desde o principio, irrealisavel; mas o elle ser ou não bem succedido constituiu um problema que teve a Europa suspensa durante quasi meio seculo. Por fim só em Hespanha é que logrou bom exito, para desgraça d’esta nação. O interesse que a lucta nos Paizes Baixos desperta provém do facto de ser a primeira revolta contra a politica de Filippe, e devido a ella o poder de Hespanha ficou tão abalado que a Europa poude sentir-se em segurança.

Ao tomar conta dos dominios hereditarios de seu pae, Filippe achava-se nos Paizes Baixos. Elle tinha observado com desgosto os progressos que a religião reformada fazia n’essa terra. A Hespanha estava segura, pois que se havia inteiramente extinguido n’ella toda a liberdade civil e religiosa. Filippe podia, portanto, permanecer nos Paizes Baixos, e superintender pessoalmente o inicio da sua obra de repressão. Descobriu que a Biblia estava toda traduzida em hollandez, por Jacob Liesfeld, que muitos dos nobres estavam em constante communicação com os principes lutheranos da Allemanha, e que os protestantes dos Paizes Baixos se entendiam tambem perfeitamente com os huguenotes francezes. As suas medidas para exterminio da heresia foram cuidadosamente elaboradas e com muita paciencia postas em pratica. Confiava, para o bom exito, na presença do exercito hespanhol, n’uma especie de conselho que lhe fosse dedicado e executasse a sua vontade nos mais minuciosos detalhes, no estabelecimento da inquisição, e n’uma remodelação do episcopado das provincias.

Os territorios da Hespanha, incluindo a parte que ficava ao sul dos Pyrenéus e os Paizes Baixos, confinavam com a França, tanto ao norte como ao sul, e quando em guerra com este paiz as tropas hespanholas haviam-se aquartellado nas dezesete provincias, com o fim de se encontraram com o exercito francez n’essa fronteira. Filippe resolveu conservar ahi essas tropas e servir-se da presença d’ellas para impôr os seus designios. Esta permanencia de tropas estrangeiras no seu territorio sem o seu consentimento representava um attentado contra um dos privilegios que as provincias mais apreciavam; o paiz, além d’isso, tinha acabado de passar por uma grande fome, e a brutalidade dos soldados ainda mais exasperava o povo, chegando os habitantes da Zelandia a declarar que antes queriam morrer afogados do que continuarem por mais tempo sujeitos aos ultrajes da soldadesca.