Os nobres assustaram-se, e reuniram-se para formularem as suas queixas. O objecto da sua ira era Granvella, que tornaram culpado de todas as medidas dignas de censura. Filippe, fingindo concordar com os nobres, transferiu Granvella para outro ponto; mas o velho systema de terrorismo continuou, e os nobres perceberam que o rei, com a sua usual duplicidade, os queria fazer passar por culpados da tyrannia contra a qual haviam protestado.
A proclamação dos decretos do Concilio de Trento provocou uma nova resistencia. O principe de Orange, com toda a intrepidez, fallou contra a proposta em termos violentos; houve uma assembléa de nobres, e resolveu-se encarregar o conde Egmont da missão especial de informar o rei dos sentimentos do povo das provincias; porque ainda se julgava que Filippe ignorava certas coisas de que aliás estava perfeitamente informado.
Egmont era um zeloso romanista, e tinha provado ser um subdito leal do monarca hespanhol. Se alguem podia tirar partido de Filippe, esse alguém, segundo a opinião geral, era Egmont. Partiu para Madrid em 1565, onde foi recebido com apparente cordialidade, e assegurou-se-lhe que as representações dos nobres seriam attendidas.
Como de costume, Filippe II não tinha intenção alguma de cumprir as suas promessas. Deu, pelo contrario, ordem para que em todas as cidades fossem proclamados, de seis em seis mezes, os decretos de Trento, os edictos com caracter de perseguição e os sanguinarios mandatos da inquisição. Segundo contam os historiadores, o effeito d’isto foi quasi indescriptivel; o commercio ficou paralysado, as industrias desappareceram, e todo o paiz parecia ter passado por um enorme cataclismo. Distribuiam-se pamphletos, que eram avidamente lidos, contendo apaixonados appellos ao povo para que pozesse termo á tyrannia. Um d’elles, que tomou a fórma de uma carta aberta ao rei, dizia: «Estamos prontos a morrer pelo Evangelho, mas lemos n’elle «Dae a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.» Damos graças a Deus por até os nossos inimigos se verem constrangidos a dar testemunho da nossa piedade e da nossa innocencia, e tanto assim que se diz commummente: «Fulano não pragueja, porque é protestante.» «Fulano não pratíca immoralidades nem se embriaga, porque pertence á nova seita». «E, comtudo, atormentam-nos com toda a especie de castigo que se pode inventar.»
Os mendicantes.—Os que entre os jovens fidalgos e burguezes tinham um espirito mais ousado resolveram unir-se para resistirem á tyrannia. Os seus chefes naturaes, que eram o principe de Orange e os condes de Egmont e de Horn, conservaram-se afastados, por considerarem insensata aquella empreza. Os confederados resolveram começar dirigindo-se em solemne procissão á regente para lhe pedirem a abolição da inquisição e a revogação de alguns dos edictos. Encontraram-se com a duqueza em 5 de Abril de 1556, e leram-lhe a representação que tinham preparado; e a regente, perturbada com a imponencia do acto, convocou a toda a pressa o conselho para saber o que havia de responder. Barlaymont, um dos seus conselheiros, e pessoa muito da intimidade de Filippe, foi de opinião que «aquelle bando de mendicantes» devia ser posto, á força, fóra do palacio, A duqueza despediu-os cortezmente, mas houve quem lhes referisse as palavras de Barlaymont. Achando-se trezentos d’elles reunidos n’um banquete para deliberarem, o conde Brederode levantou-se, e disse: «Chamam-nos mendicantes. Acceitamos esse nome. Empenhamos a nossa palavra em como havemos de resistir á Inquisição, e conservar-nos fieis ao rei e á Sacola do Pedinte.» Em seguida poz aos hombros uma sacola de coiro como as que usam os mendigos que andam de terra em terra, e, deitando vinho n’um copo de madeira, bebeu á prosperidade da causa.
Prégações ruraes.—O nome de mendicantes foi adoptado com grande enthusiasmo, e fez-se do distinctivo um uso quasi universal. Por toda a parte se viam burguezes, advogados, aldeãos e fidalgos com a sacola de coiro dos mendigos vagabundos. O povo começou a compenetrar-se da força de aquella aggremiação. Realisaram-se logo grandes conventiculos, ou prégações ruraes, em todo o paiz. O povo vinha armado, accomodava as mulheres e as creanças no ponto mais central, e punha sentinellas em redor, collocando-se os homens, armados, um pouco fóra do ajuntamento, e assim escutavam as pregações dos ministros excommungados. Liam as Escripturas, cantavam hymnos, e ouviam orações feitas na sua lingua natal. Era tal a agglomeração de gente, e estavam tão vigilantes e tão bem armados, que os soldados não se atreviam a atacal-os. A regente convenceu-se de que, se não lhe mandassem mais forças hespanholas, não poderia conter a excitação popular.
O povo, encorajado com a immunidade com que as prégações ao ar livre se faziam, começou a atacar os logares de culto catholicos romanos. Quando os padres passavam pelas ruas de Antuerpia levando processionalmente a milagrosa imagem da Virgem o Povo exclamava: «Mayken! Mayken! (Mariasinha) chegou a tua hora!» Uma turba de marinheiros invadiu a cathedral e destruiu os paramentos, as imagens e os quadros. N’outros pontos, como Tournay e Valenciennes, tiveram logar outros actos de violencia. A regente via-se sem forças para pôr termo aos tumultos, e, em desespero, concedeu ao povo a abolição da inquisição e a tolerancia da doutrina protestante. Confiando na sinceridade d’estas concessões, os nobres tomaram sobre si o encargo de apaziguar a população e de reprimir as desordens que se tinham levantado, e Guilherme de Orange e o conde Egmont tomaram uma parte proeminente na obra da pacificação.
Filippe, encolerizado pelo facto de a regente se haver desviado do regimen que elle adoptara, de desapiedada repressão, determinou, na primeira opportunidade, subjugar aquelle paiz e exterminar os cabeças de motim. Com a sua habitual dissimulação, procurou disfarçar os seus intentos, e o conde Egmont foi por elle enganado. O principe de Orange, sempre bem informado, e cauteloso por indole, sabia algumas coisas e suspeitava de outras que estavam para sobrevir á sua desditosa patria, e preveniu Egmont do perigo que este corria. Elle sabia que o rei havia de voltar ao seu velho systema de repressão; que os nobres que haviam dirigido o movimento não estavam suficientemente unidos para resistir; que os chefes menos cautos dos Mendicantes se haviam de revoltar; e que o rei havia de tomar, indescriminadamente, uma furiosa represalia.
Os mendicantes fizeram uma tentativa para se apoderarem de Walcheren; reuniram-se em grande numero em Anstruweel, e ameaçaram Antuerpia. Na sua marcha, destruiram reliquias e despojaram as egrejas das imagens e dos paineis. Egmont, querendo provar a sua fidelidade ao rei, caiu sobre esses insurgentes e desbaratou-os, terminando, por esse modo, a rebellião.
O rei, porém, tinha achado o pretexto que procurava; e o principe de Orange tinha tão exactamente interpretado o curso dos acontecimentos que, quando elle ainda ia a caminho do seu voluntario exilio, da Allemanha, ia nos Paizes Baixos o duque de Alba, á frente de um novo corpo de exercito hespanhol.