O duque de Alba nos Paizes Baixos.—Fernando Alvarez de Toledo, duque de Alba, era um dos servidores de Filippe II que mais se parecia com o seu amo. Era um hespanhol fanatico, um ignorante em todos os assumptos politicos e economicos, um avarento, e um impudente enganador. Publicações recentes teem demonstrado que elle possuía muito pouco do talento que os remotos historiadores lhe teem attribuido. O que o recommendou a Filippe foi a sua cruel obstinação, a sua dedicação por elle, rei, a sua fanatica inclinação pela egreja catholica romana, e o seu desprezo por todas as fórmas constitucionaes e por todos os impulsos de misericordia.
Filippe, ao mandar o duque de Alba e as tropas, continuava a dissimular. Assegurou á regente que não era sua intenção fazel-a substituir por elle, e fez todo o possivel para acalmar as suspeitas dos nobres e dos estados dos Paizes Baixos. Ao mesmo tempo dava ordem ao duque para acabar com a Reforma de um modo radical; para tirar uma sanguinolenta vingança de todos os disturbios que tinham sido commettidos; e para impôr conversões á ponta da espada. As instrucções que o rei enviou, por carta, ao duque de Alba eram: «Apoderar-se dos homens mais eminentes que haviam tomado parte nos tumultos e pôl-os em condições de não tornarem a fazer damno; prender e castigar os que de entre o povo estivessem criminosos; obter pela violencia todas as riquezas do paiz para abastecimento dos cofres de Madrid e para sustento das tropas; pôr em execução, com a maxima severidade, os edictos contra a heresia; ultimar a organização dos novos bispados, e punir as cidades rebeldes com a Inquisição e com a imposição de subsidios.» As tropas embarcaram em Carthagena, desembarcaram em Genova, e marcharam, atravez de Saboya, da Borgonha e da Lorrena, para o Luxemburgo e Paizes Baixos.
Alba sabia perfeitamente o que se esperava d’elle, e todo o seu desejo era desempenhar a missão que Filippe lhe confiara de um modo que agradasse a seu amo. Uma das suas maximas favoritas era: «Antes assolar uma nação por meio da guerra, se d’esse modo ella se conservar fiel a Deus e ao rei, do que deixal-a intacta em beneficio de Satanaz e de seus adherentes, os herejes.» Elle entrou nos Paizes Baixos inteiramente convencido de que poderia subjugar o espirito nacional e religioso dos seus habitantes. «Eu, que já submetti uma gente de ferro, em pouco tempo domesticarei esta gente de manteiga», disse elle, pouco depois de ter entrado no paiz.
A prisão dos Condes Egmont e Horn.—A primeira coisa que elle fez foi lançar mão dos dirigentes do povo, e para isso recorreu á mais vil dissimulação. Convidou-os para irem a Bruxellas, dispensou-lhes todas as amabilidades, e fez todo o possivel para os conservar ao seu alcance até ter opportunidade da os mandar prender. Ficou muito desapontado quando Guilherme de Orange se lhe escapou das mãos, e empregou todos os esforços para o attrair novamente. De subito, sem o menor aviso, prendeu o Conde Egmont e o almirante Horn, e mandou encerral-os n’um carcere.
Este facto produziu uma enorme consternação. Ambos aquelles fidalgos tinham mostrado a sua grande lealdade ao rei. Egmont havia incorrido no odio do povo pela firmeza com que procurou reprimir a insurreição, e Horn perdera todos os seus bens e todo o seu dinheiro no serviço de Filippe. Aquellas prisões mostraram aos neerlandezes e á Europa que o reinado do «rigor» tinha começado. A fuga de Guilherme de Orange foi publicamente lamentada pelos hespanhoes. Quando Granvella soube em Roma, do feito de Alba, perguntou: «Elle tem em seu poder o Silencioso?» E, depois de o informarem de que Guilherme estava em liberdade, disse que Alba não tinha conseguido coisa alguma, afinal de contas, pois que o homem que se lhe havia escapado tinha mais valor do que todos os outros juntos.
Havendo-se apoderado dos dois fidalgos, Alba tratou em seguida de aterrorisar o povo. Organizou um Conselho de Disturbios, que substituiu o antigo Conselho de Estado, e que teve a sua primeira, reunião em 20 de Setembro de 1567. Este conselho suspendeu todo o julgamento de causas pelos tribunaes ordinarios, e o povo chamava-lhe o «Conselho de Sangue». Alba presidia a elle, e procurava com todo o afan dar os crimes por provados e infligir o respectivo castigo. Fazia todo o possivel para evitar que os jurisconsultos interviessem. «Os juizes» dizia elle, «só teem servido até aqui para lavrar a sentença depois de se fazer prova do crime; mas agora as coisas passam-se de outra fórma». Este conselho de disturbios privava toda a gente das suas garantias individuaes, e ia investigar todos os delictos commettidos no passado. A accusação vulgar era a de ter conspirado contra o rei e contra a egreja, ou, na linguagem do codigo medieval, de ser réu de traição a Deus e ao rei. Todos os que haviam assignado petições para que os edictos contra a heresia deixassem de ser applicados, todos os que se haviam, de algum modo, opposto á creação dos novos bispados, todos os que haviam dito que o rei tinha obrigação de respeitar as liberdades das provincias, eram tidos como traidores, e castigados com multas, com prisões e com a pena capital. Todos os que eram apanhados a cantar o hymno dos mendicantes, todos os que não se haviam opposto activamente ás prégações feitas ao ar livre, ou que não haviam reagido contra a destruição das imagens, eram egualmente tidos como traidores. Era sufficiente a suspeita, dispensava-se a convicção, e em tres mezes o Conselho de Sangue enviou para o cadafalso mil e oitocentas pessoas. Isto teve logar durante annos. Guilherme de Orange pasmava da paciencia dos seus compatriotas, que soffreram sem uma organizada resistencia, e escreveu apaixonadamente: «Onde está o vosso espirito de liberdade? Onde está a vossa antiga bravura?»
No entretanto os Mendicantes continuavam a existir. Grupos d’elles vagueiavam pelo paiz, escapando á vigilancia das tropas hespanholas, roubando egrejas, mosteiros e residencias de clerigos. O paiz havia caido na anarquia.
A guerra civil. O principe de Orange.—Em 1568 o principe de Orange conjecturou que o paiz estava preparado para a revolta. Seu irmão, Luiz de Nassau, entrou na Frisilandia, e conseguiu evitar que o inimigo se apoderasse d’essa provincia. O duque de Alba marchou então contra os protestantes. Antes de se pôr a caminho, porém, executou, para espalhar o terror na capital, vinte membros da nobreza, e entre elles os condes Egmont e Horn. A patriotica milicia não poude bater-se vantajosamente com os disciplinados soldados de Alba, que derrotou por completo o exercito de Luiz e o obrigou a sair dos Paizes Baixos. Regressou depois a Bruxellas, para assistir ás sessões do Conselho de Sangue.
O principe de Orange, á frente de outro exercito, passou a vau o Meuse, chegando, segundo se diz, a agua ao pescoço dos soldados, marchou sobre o Brabant, e procurou dar batalha a Alba. O duque, que conhecia a sua inferioridade, diligenciou evital-o, cançar-lhe as tropas com exhaustivas marchas, e desalental-as. O exercito protestante, que era composto, na sua maior parte, de mercenarios allemães, começou a exigir clamorosamente o seu soldo, e o principe, a quem os hespanhoes deixavam sempre de mau partido, viu-se obrigado, com a approximação do inverno, a licenciar as suas tropas. Uma parte do exercito, composta de neerlandezes, conservou-se junto d’elle; e o principe de Orange, com os seus dois irmãos (o terceiro havia sido morto em combate) atravessou a fronteira, e foi em auxilio dos huguenotes francezes.