Guilherme, o silencioso, como os seus contemporaneos lhe chamavam, tinha até esse tempo sido catholico romano. Havia combatido contra os hespanhoes mais por patriotismo do que por motivos religiosos; mas durante o segundo desterro, quando a situação da sua patria se tornou extremamente precaria, transformou-se, fez-se outro homem. Acceitou as verdades da religião reformada, e tornou-se um firme protestante. Desde esse tempo em deante foi um homem sincero e profundamente religioso, descançando confiadamente na direcção e protecção de Deus.

Os mendigos do mar.—A parte mais valente da população neerlandeza eram os marinheiros e os habitantes da costa, que luctavam quotidianamente com as ondas do oceano germanico. Essa gente tinha, em grandissima parte, acceitado as doutrinas dos pastores reformados, e havia sempre nutrido o amor da liberdade, a despeito da implacavel oppressão dos hespanhoes e a despeito da inquisição. Diz-se que o almirante Coligny, o prestigioso chefe dos huguenotes francezes, chamou a attenção do principe de Orange para a utilidade de constituir com estes marinheiros, pescadores e traficantes maritimos uma força naval.

Quando Alba regressou á Bruxellas, para continuar a sua obra de execução por meio do fogo, da agua e da decapitação, o principe conseguiu pôr-se em communicação com os marinheiros e pescadores hollandezes. Tinha resolvido crear uma armada para dar caça aos navios hespanhoes, e conservar acceso o espirito patriotico das provincias. Deu as suas instrucções aos commandantes dos improvisados vasos de guerra, e os «Mendigos do Mar» tornaram-se dentro em pouco o terror dos hespanhoes. Estes corsarios hollandezes recrutavam, ao principio, as suas tripulações, e abasteciam-se, nos portos inglezes, mas, em virtude de uma reclamação do embaixador hespanhol, a rainha Isabel prohibiu que desembarcassem em Inglaterra. Viram-se compellidos a saquear as costas da Hollanda, tornando-se assim o terror dos hespanhoes tanto no mar como em terra.

O governo de Alba tinha quasi conduzido o paiz á ruina. As suas proscripções e execuções haviam diminuido muito a população. O commercio tinha chegado á ultima; da agricultura ninguem cuidava; as industrias estavam paralysadas. Alba estava embaraçado por não ter dinheiro com que pagasse ás tropas. Elle tinha promettido, ao sair de Hespanha, que havia de fazer com que desde Antuerpia até Madrid o oiro constituisse um rio com umas poucas de braças de profundidade. Era um leigo no que diz respeito a economia politica, e não comprehendia que com as disposições que tomara havia feito seccar os mananciaes da riqueza, transformando em poucos annos um paiz rico n’um paiz pobre. Julgou que ainda seria possivel extrair dinheiro dos hollandezes, e para conseguir esse fim estabeleceu novos impostos. Acudiu-lhe á mente um genero de contribuição que em Hespanha estava matando a vida commercial, e propoz o introduzil-a nos Paizes Baixos.

O seu plano consistia em tributar um por cento sobre toda a propriedade; esse imposto ficou sendo chamado a Centesima. A accrescentar a isto, ficava-se tambem na obrigação de contribuir com cinco por cento, ou seja a vigesima parte, de todas as rendas de terras, ou bens immoveis, e com dez por cento, ou a decima parte, de todas as vendas de generos ou de bens moveis. Este novo imposto, dividido em tres taxas, representava a ruina completa do paiz. Seria impossivel existir commercio n’uma terra onde elle tivesse de ser pago. Provocou maior opposição do que tudo quanto Alba tinha até então posto em pratica. A primeira provincia que protestou foi a de Utrecht, e logo depois todas as outras fizeram coro com ella. Alba, comtudo, estava precisadissimo de dinheiro. O seu poder dependia do exercito, e este tinha de ser pago; reconhecendo, porém, que tinha avançado de mais, addiou a cobrança das decimas para de ali a dois annos. A necessidade de dinheiro forçou-o, por fim, a pôr desde logo em execução o que tinha decretado, e deu ordens terminantes para se começarem a cobrar os dez e os vinte por cento. O resultado foi parar logo todo o commercio e industria. Os padeiros não quizeram cozer pão, os cervejeiros não quizeram fabricar cerveja, os sapateiros recusaram-se a fazer calçado; e não havia quem vendesse os artigos de primeira necessidade. E, como coisa alguma se vendesse, é claro que o imposto sobre as vendas não podia ser cobrado.

A tomada de Brill.—Emquanto os estados permaneciam n’uma insurreição passiva, a esquadra: dos «Mendigos do Mar», organizada por Guilherme, guerreava incessantemente os hespanhoes, e, com uma ousadia que o bom exito até ali alcançado lhes dava, aproaram de subito á ilha de Voorn, e tomaram a cidade de Brill, que era considerada uma das chaves da Hollanda. A posse d’essa cidade assegurava-lhes um ponto de ataque sobre toda a costa dos Paizes Baixos e da Islandia, e foi a ella que ficou devendo a sua origem o Estado das Sete Provincias.

De ahi em deante os hespanhoes nunca mais foram completamente senhores dos Paizes Baixos. A sorte das armas esteve incerta durante muito tempo, mas houve sempre uma parte do territorio flamengo independente de Hespanha. Os «Mendigos do Mar», perfeitamente seguros em Brill, dirigiram repetidos ataques ás povoações da costa, e em breve todas as principaes cidades da Hollanda e da Zelandia estavam em seu poder, acabando por proclamar Guilherme, principe de Orange, chefe da nação. O principe acceitou esse perigoso cargo. Estava em França quando lhe deram a noticia, e, disfarçando-se de camponez, atravessou as linhas do inimigo, e deu-se pressa em tomar o commando dos insurgentes. Antes de chegar até junto d’elles, a Hollanda e a Zelandia tinham-se pronunciado a seu favor. Convocou uma assembléa dos Estados em Dordrecht, ou Dort, onde de eommum accordo se resolveu estabelecer uma nova constituição, e, por unanimidade de votos, o principe foi reconhecido «o verdadeiro representante do rei na Hollanda, Zelandia, Frisilandia e Utrecht. Os estados, ali reunidos, convieram em reconhecer a sua auctoridade, em votar impostos, e em proseguir na politica d’elle. O seu primeiro decreto foi proclamar liberdade de culto tanto aos catholicos como aos protestantes.

Organizou-se um novo exercito, e o principe de Orange, atravessando o Meuse, tomou Oudenarde, Roermonde, e diversas outras cidades. Foi acclamado em toda a parte, e a sua marcha foi tão facil que elle contava chegar em pouco tempo a Bruxellas. Uma vez lá, confiou na promessa que Coligny lhe fez de o ajudar a expulsar os hespanhoes do territorio flamengo. Quando, porém, parecia estar em pleno successo, eis que chega uma noticia que o deixou atordoado, como se (segundo as suas proprias palavras) «tivesse levado com um malho na cabeça». Coligny e os huguenotes francezes tinham sido massacrados na vespera de S. Bartholomeu. Tudo estava perdido, pelos modos. Tornava-se necessario abandonar Mons, que Luiz de Nassau tinha tomado pouco antes; e o exercito do principe, apoz a retirada, foi dispensado do serviço.

Alba saiu de Bruxellas, e vingou-se atrozmente de Mons, Mechlin, Tergoes, Naarden, Haarlem e Zutphen. As clausulas da capitulação de Mons foram ignominiosamente violadas. Mechlin foi, de caso pensado, saqueada e incendiada pelas tropas hespanholas. O general a quem foi confiado o esbulho de Zutphen recebeu ordem para queimar todas as casas e matar todos os habitantes. Haarlem foi sitiada, resistiu desesperadamente, e por fim capitulou sob a promessa de um tratamento benevolo. Quando os hespanhoes tomaram posse d’ella, degolaram, a sangue frio, todos os soldados hollandezes, e com elles muitos centos de cidadãos, e, ligando os corpos a dois e dois, lançaram-n’os na lagoa de Haarlem. Dir-se-hia que os catholicos romanos tinham resolvido exterminar os protestantes quando vissem que não podiam convertel-os.