Algumas cidades resistiram, e a causa da liberdade não estava inteiramente perdida. O filho de Alba, D. Frederico, o verdugo de Haarlem, foi derrotado na pequena cidade de Alkmaar, sendo obrigado a retirar-se. Os «Mendigos do Mar» fizeram frente á esquadra hespanhola que fôra enviada para os destroçar, dispersaram os navios e fizeram prisioneiro o almirante. A nação de pescadores e de lojistas, de quem a Hespanha e a Europa haviam escarnecido por verem a paciencia com que supportavam as indignidades, tinha-se por fim mostrado uma raça de heroes resolvidos a não se sujeitarem mais ao jugo hespanhol. Guilherme o silencioso, a alma da revolta, tornou-se de um momento para o outro uma importante personagem na Europa, que os reis precisariam de lisongear. Publicou uma carta dirigida aos principes da christandade, para justificar a revolta dos seus compatriotas. «Alba», disse elle, «ha de tingir todos os rios e regatos com o nosso sangue e pendurar em cada arvore da Hollanda um hollandez para que os seus desejos de vingança fiquem satisfeitos. Pegámos, pois, em armas contra elle, em defeza das nossas mulheres e dos nossos filhos. Se elle tiver mais força do que nós, pereceremos, mas antes ter uma morte honrosa, e legar um nome aureolado de gloria, do que curvar os pescoços deante do jugo e permittir que a nossa terra fique escravisada. É por isso que as nossas cidades se comprometteram a resistir a todos os cercos, a soffrer todas as calamidades, a mesmo, se tanto necessario fôr, lançar fogo ás casas e deixar-se morrer nas chammas, o que tudo seria preferivel a obedecer ás intimativas d’esse algoz sedento de sangue».

A tormenta não podia deixar de inquietar Alba, apezar de toda a confiança que elle tinha em si proprio. Pediu ao monarca que o mandasse retirar dos Paizes Baixos. Como todos os tyrannos, considerou sempre efficacissimo o seu systema, mesmo depois dos revezes soffridos. Era sua opinião que se tivesse sido um pouco mais severo, se tivesse accrescentado mais algumas gotas do sangue que fez derramar, o seu exito seria completo. Quando Filippe, accedendo ao seu pedido, o demittiu do cargo que occupava, não teve outro conselho a dar ao seu successor senão o de mandar arrazar as cidades em que elle não podera pôr uma guarnição hespanhola.

Requescens y Zuniga, o novo representante do rei.—A pessoa que Filippe II escolheu para substituir o duque de Alba foi D. Luiz Requescens y Zuniga, membro da mais alta aristocracia de Hespanha e cavalleiro de Malta. Era elle um homem de indole magnanima, de nobre caracter, e, se tivesse sido enviado á Hollanda dez annos mais cedo, a historia d’esse paiz teria sido, certamente, muito diversa. Chegou, porém, tarde de mais, e elle em breve o reconheceu. A Hespanha dispunha ainda, n’aquella epoca, de um thesouro inexgotavel e de um illimitado numero de soldados. Os patrioticos defensores da Hollanda não poderiam leval-a de vencida em campo aberto; comtudo, o novo commandante hespanhol não os intimidou. Em todas as cidades fortificadas se luctava com a energia do desespero, e os «Mendigos do Mar» alcançavam triumphos sobre triumphos. E, comtudo, aos patriotas faltava gente e dinheiro. Requescens, depois de observar tudo isto, escreveu a Filippe: «Antes da minha chegada aqui, não comprehendia como os rebeldes podiam sustentar frotas tão consideraveis, quando vossa magestade nem uma, sequer, podia. Agora vejo que os homens que se batem pelas suas vidas, pelas suas familias, pelos seus bens, pela sua religião, embora falsa, pela sua causa, em summa, não exigem paga; dão-se por satisfeitos com a sua ração quotidiana». Tratou logo de adoptar um methodo inteiramente opposto ao de Alba. Aboliu os odiados impostos, dissolveu o Conselho de Sangue, e proclamou uma amnistia geral. Procurou também chegar a um accordo com os insurrectos.

Os habitantes da Hollanda e da Zelandia tinham tido uma amarga experiencia de amnistias e accordos hespanhoes. «Temos ouvido demasiadas vezes», disse Guilherme, «as palavras Combinado e Perpetuo. Ainda mesmo que dessemos ouvidos ás vossas propostas, quem nos garante que o rei as não daria depois por não feitas, sendo absolvido d’esse delicto pelo papa?» A lucta continuou, portanto, e Requescens, que detestava a politica do seu predecessor, teve de proseguir n’uma guerra que essa mesma politica havia provocado.

A sorte das armas parecia manter-se inalteravel. Os hespanhoes tinham saido sempre victoriosos em campo aberto, e quando no principio da primavera de 1574 Guilherme e seu irmão Luiz entraram na Hollanda á frente de um novo exercito composto, na sua maioria, de mercenarios allemães, alcançaram outra victoria na Mooker Haide, mais decisiva, segundo pareceu, do que qualquer outra que tivessem ganho anteriormente. O exercito de Guilherme foi inteiramente derrotado, perecendo os seus dois irmãos Luiz e Henrique, e com elles Christovão, Conde Palatino. Mais uma vez se afigurou que os hollandezes acabariam, por fim, n’uma completa submissão aos hespanhoes. Como sempre, porém, os heroes da patria, vencidos em terra, eram vencedores no mar, e nas cidades fortificadas combateu-se com tal denodo e perseverança que os hespanhoes não poderam deixar de reconhecer a sua derrota.

Os «Mendigos do Mar» pozeram em debandada uma frota no principio d’esse anno. Atacaram outra no Scheldt, apoderando-se de quarenta navios e mettendo o resto no fundo.

O cerco de Leyden.—A cidade conservava-se havia muito tempo em poder dos patriotas, e os hespanhoes faziam o maximo empenho em se apoderar d’ella. Luiz de Nassau fez levantar o primeiro cerco que lhe pozeram, mas desde maio de 1574 que o inimigo lhe dirigia repetidos e vigorosos ataques. Não foi possivel a Guilherme, depois da batalha de Mooker Haide, encontrar-se frente a frente com as tropas hespanholas. Precisava de todos os seus homens para guarnecer as cidades fortificadas. Leyden estava em perigo de ser conquistada, e não se lhe podia enviar soccorro algum. Achava-se situada n’uma planicie cheia de pomares e de searas que já pouco tempo esperariam pela ceifa, e esta planicie, como quasi todas as da Hollanda, estava abaixo do nivel do mar, sendo, por conseguinte, facil inundal-a, bastando para isso destruir os diques que se oppunham á invasão das ondas. Guilherme não viu outro meio de a soccorrer senão fazendo chegar a esquadra junto dos seus muros, e apresentou esse alvitre aos respectivos habitantes, que o acceitaram. Foram, pois, abertos os diques, e a esquadra dos «Mendigos do Mar» preparou-se para entrar com a maré e navegar em seguida sobre submersas hortas, pomares e campos de semeadura. O plano era este, mas levantou-se a contrarial-o uma chusma de difficuldades. Tornou-se uma tarefa difficil arrombar os diques; a agua começou a entrar, mas lentamente; violentissimos ventos a impelliam para fóra. Entretanto os viveres eram cada vez mais escassos na cidade, e a faminta população, subindo aos campanarios, via a agua sempre lá ao longe, via que os soccorros se approximavam muito vagarosamente, como se nunca houvessem de chegar, ou então como se houvessem de chegar tarde de mais. Os hespanhoes, que tambem conheciam o perigo e a miseria em que a cidade se encontrava, promettiam amnistias e uma honrosa capitulação. «Temos dois braços», exclamou do alto das muralhas um dos defensores, «e quando a fome nos apertar muito comemos o esquerdo, e deixamos o outro para manejar a espada». Quatro mezes se passaram n’um indescriptivel soffrimento, e por fim, em 3 de outubro, o mar chegou ao sopé das fortificações, e com elle a frota hollandeza. Os hespanhoes fugiram aterrorisados, pois que os «Mendigos do Mar» cairam sobre elles, soltando o seu costumado grito de guerra: «Antes turcos do que papistas». Os marinheiros e os habitantes da cidade dirigiram-se á sumptuosa egreja para dar graças a Deus pelo livramento que, por Sua misericordia, lhes viera do mar. Quando a numerosa congregação estava entoando um psalmo de libertação, as vozes calaram-se de subito, e não se ouvia senão soluços. Toda a gente, enfraquecida pelas longas vigilias e pelas privações, tendo agora uma consciencia nitida do seu inesperado livramento, se pozera a chorar.

A boa nova foi levada a Delft por Hans de Brugge, que chegou a esta localidade quando o principe de Orange estava assistindo ao serviço religioso da tarde, sendo só depois de elle terminar que o povo soube do succedido. O principe, apezar de doente, montou a cavallo, e partiu logo para Leyden, para tomar parte no regozijo publico. Propoz que, em acção de graças, se fundasse na cidade um estabelecimento de instrucção, e foi assim que teve origem a famosa universidade de Leyden. A cidade tornou-se o centro do protestantismo das provincias. Picou sendo na Hollanda o que Wittenberg era na Allemanha, Genebra na Suissa, e Saumur em França.

Negociações entre as provincias do sul e as do norte.—O levantamento do cerco de Leyden mareou um novo periodo na guerra da independencia. O oommissario hespanhol via que se estava formando, vagarosa e quasi imperceptivelmente, um novo estado protestante, e as difficuldades que de todos os lados o assediavam eram, pode-se dizer, invenciveis. Estava elle luctando com ellas, quando de subito morreu, em 5 de Março de 1576. A sua morte inesperada foi um golpe para a dominação hespanhola, e os acontecimentos que se lhe seguiram mostraram aos neerlandeses que eram catholicos romanos aonde o governo hespanhol poderia tel-os conduzido. A morte de Requescens produziu uma certa perturbação na politica hespanhola. Desde o tempo do duque de Alba o pagamento das tropas tinha sido feito com difficuldade, e agora os cofres publicos estavam despejados, e os soldados queixavam-se de se lhes dever alguns mezes de soldo. Por fim, perdida a esperança de que essa divida fosse liquidada, revolucionaram-se. «Dinheiro ou liberdade para saquear qualquer cidade», era o seu grito. A guarnição de Aalst foi a primeira a revoltar-se, sendo secundada pelas de quasi todas as cidades fortificadas das provincias do sul. Os revoltosos pozeram a saque as cidades de Aalst, Maestricat e Antuerpia. Deram-se por toda a parte horriveis scenas de roubo e assassinio e durante tres calamitosos dias de novembro a populosa e opulenta cidade de Antuerpia soffreu tudo quanto sobre ella podia ser exercido por uma soldadesca dissoluta e brutal.

O principe de Orange aproveitou esta sublevação para avançar com as suas tropas, e dentro em pouco estava de posse da importante cidade de Ghent. Os habitantes das provincias do sul tanto nobres como plebeus, tinham, por sua vez, sido victimas de aquellas horrorosas calamidades que os seus compatriotas os protestantes do norte, tinham, havia muito, experimentado. Antuerpia tinha soffrido; Bruxellas, mais resoluta, pegou em armas e expulsou os soldados hespanhoes. Os nobres de Flandres e de Brabante estavam anciosos por se unirem ás provincias do norte; e pediram a Guilherme que os livrasse dos hespanhoes. Em Ghent realisou-se um congresso de representantes das provinciais do norte e do sul, ficando assentes os preliminares de uma duradoura união. Foi a isto que se chamou a Pacificação de Ghent, que foi assignada por delegados de dezesete provincias.